Memória e reconhecimento: fundador e mecenas da piauí, João Moreira Salles escreve elogioso obituário do ex-prefeito Adnan Demachki.
Morreu aos 62 anos, jovem demais para a família, para os amigos e para aqueles – muitos – que buscavam seus conselhos, diz o autor
“(...) estavam ali para se despedir do que não deveria ser raro,
mas
infelizmente é: um homem público exemplar.”
*João
Moreira Salles,
Com o título de “O FIADOR” - A cidade que um prefeito deixou para os seus moradores -, o fundador da revista piauí, João Moreira Salles, fez um cativante e merecido obituário em reconhecimento ao homem público Adnan Demachki, morto prematuramente aos 62 anos no último dia 30 de março, vítima de problemas coronarianos.
O texto foi publicado na edição 236, de maio deste ano, recebida pelos assinantes de Belém na quarta-feira, 05. Nele, Moreira Salles destaca uma vez mais sua ligação e interesse pela região amazônica.
Mais uma vez, porque, ainda que ninguém seja obrigado a saber, o documentarista e escritor passou seis meses vivendo no Pará entre 2020 e 2021, quando entrevistara personagem locais e pesquisara in loco farto material sobre a complexidade do bioma amazônico.
**Arrabalde: Em
busca da Amazônia
O trabalho culminara no ensaio de fôlego
que batizou de "Arrabalde: Em busca da Amazônia", série
de reportagens assinadas publicadas primeiramente na revista, para em
seguida virar livro pela editora Companhia das Letras, em
2023.
“Resultado de dois anos de pesquisa e cinco meses
de apuração diretamente na região Norte, Arrabalde narra a
história de como a maior floresta tropical do planeta vem sendo
percebida por aqueles que se relacionam com ela desde o século XVI
até os dias de hoje”, diz texto da apresentação da série de
reportagens, na edição 171 da piauí, de dezembro de 2020.
Foi quando conheceu Adnan Demachki, entre outros ilustres e anônimos personagens locais. É fato que este ensaio merece registros e comentários, mas, pela importância e, em respeito ao tempo dedicado a ele pelo autor, fica para outra (s) oportunidade (s).
Aliás, nas duas edições
anteriores da revista, de março e abril deste ano, com o título de “O
insubmisso", Moreira Salles traçou um perfil de Lúcio Flávio
Pinto, outro sobre o qual escreve na série “Arrabalde”, qual
Adnan.
Com efeito, a reportagem que fez sobre a carreira
profissional do outro admirável paraense, também pode virar um
livro no estilo “retratos”.
Periferia
Em
tempo: o significado de “arrabalde” no dicionário online de português, “refere-se à periferia, subúrbio ou zona situada nas proximidades
e fora dos limites principais de uma cidade. Indica um local afastado
do centro, frequentemente usado no plural (arrabaldes) para designar
arredores, vizinhança ou cercanias de uma localidade. É derivado do
árabe ar-rabad”.
Sacou como o autor classifica a desimportância histórica da ocupação regional aos olhos do poder central? Este é o corolário perfeito da crítica/ensaio de Moreira Salles sobre a Amazônia e sua tão imensa quanto complexidade.
Na parte paraense da coisa, digamos assim, Adnan, agora saudoso, e Lúcio, sempre atento, foram dois foras-de-série que não escaparam ao olhar apurado dele, João Moreira Salles.
Um extrato da justa homenagem ao “elder statesman das cidades", na definição do autor, vem a seguir, logo abaixo. Ainda que tenhamos considerado deixar registradas essas mal traçadas linhas iniciais, com vocês:
R.I.P, Adnan!
O surgimento do fiador
“O impacto dele ainda não foi medido e a gente ainda não consegue avaliar a falta que o Turco vai fazer. Quando houver uma nova crise, quem a gente vai chamar?”, pergunta o advogado Justiniano de Queiroz Netto, referindo-se a seu amigo Adnan Demachki, ex-prefeito de Paragominas, município no sudeste do Pará.
“Não foi uma Paragominas serena que Demachki herdou ao assumir a prefeitura, em 2005. Uma moradora local registrou que, em meados dos anos 2000, as florestas da região desapareciam com tal velocidade, e a atividade madeireira avançava com tamanha energia, que o pó das serrarias escurecia o Sol. Uma pessoa em visita a um parente estacionou o carro na rua e no dia seguinte quase não o reconheceu: a carroceria era pura lama, efeito da chuva que caíra sobre a fuligem durante a noite”, acrescenta o autor.
“A grande
crise começou a ser gestada em 2006. Em julho daquele ano, entidades
representativas de 90% dos processadores e exportadores de soja
brasileiros se reuniram com ONGs, ambientalistas e o governo federal
para formalizar um pacto em que se comprometiam a “não
comercializar soja oriunda de áreas desflorestadas dentro do bioma
Amazônia após 24 de julho de 2006”. O acordo ficaria conhecido
como Moratória da Soja”, continua.
“Paragominas
era uma das fronteiras de expansão da lavoura e, de um golpe, boa
parte da produção estava sujeita a mofar nos silos. Meses depois,
já em 2007, a Cargill, maior compradora de grãos do município,
anunciou que não queria mais o produto, pois não havia como separar
a soja boa da soja do desmatamento. Era difícil contestar a decisão.
Apenas naquele ano, o Ibama lavraria em Paragominas 150 autos de
infração por crimes ambientais”, prossegue.
“O que já
era ruim ficaria muito pior em janeiro de 2008, quando o Ministério
do Meio Ambiente (MMA) publicou a lista dos 36 municípios
responsáveis por metade do desmatamento na Floresta Amazônica.
Paragominas ocupava a 23ª posição. Figurar nesse rol implicava uma
série de medidas punitivas caso os municípios não cumprissem metas
estabelecidas pelos técnicos do MMA: restrição de crédito,
impossibilidade de escoar a produção, proibição de vender a
propriedade ou transferi-la por herança. O desmatamento cobrava,
enfim, o seu preço”.
E
assim vai…
“Será que a gente desmata?”
“Houston, temos um problema”, pensou Justiniano Netto, então presidente do Conselho de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Pará. Morador de Belém, criado em Paragominas, grande amigo e futuro colaborador de Demachki na prefeitura, os dois logo se consultaram sobre o que fazer. Antes, porém, era preciso dirimir uma dúvida: “Será que a gente desmata?”, perguntou o prefeito.
Cultura
local
“A questão pode parecer insólita, dado o
Sol encoberto e as cinzas que caíam como neve sobre a cidade,
enlameando tudo. Ocorre que, para a cultura local, desmatamento era
coisa que acontecia longe, na zona rural. A gestão municipal, como
lembra Netto, não tinha nada a ver com isso. ‘A gente cuidava de
saúde, educação’.Para Demachki – e para o gestor municipal de
modo geral –, meio ambiente era praça e chafariz”.
“Ele zelava
pela área urbana e ficou espantado ao descobrir que também
precisava cuidar da área rural. Isso era novo. E, por ser novo, ‘nós
não tínhamos os dados’, explica Netto”.
“Aquilo
não era da alçada nem do município nem do estado. Era assunto de
Marina, do Ibama, de Brasília. “A agenda local era sempre
resistente a isso: ‘Lá vem o Ibama querendo engessar o
desenvolvimento da Amazônia...’”
O
sushi
“Netto teve uma ideia: podia apresentar
Demachki a alguém capaz de responder à pergunta sobre o
desmatamento. “Ele tem os dados”, garantiu. Poucas semanas depois
da publicação da lista, o prefeito pegou o carro, viajou as cerca
de cinco horas que separam Paragominas de Belém, e, à noite, num
restaurante de sushi, sentou-se com Netto e com o engenheiro agrônomo
Adalberto (Beto) Veríssimo, um dos fundadores do Instituto do Homem
e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon”.
“Veríssimo trazia os números do desmatamento, aferidos por um sistema de sensoriamento remoto desenvolvido pelo instituto. ‘O desmate acontecia, sim, e nós decidimos não assumir uma postura negacionista’, diz Netto”.
“Veríssimo
e Demachki, que se conheceram naquele dia, se tornariam grandes
amigos. ‘O que chamou a minha atenção é que Adnan não negou o
problema’, lembra Veríssimo. Ao ser apresentado aos números, o
prefeito comentou: ‘Tem muitas culpas aqui.’”
O
guardanapo
“Ali mesmo, num guardanapo, os três
esboçaram um plano para enfrentar a situação. Beto falou: ‘Ó,
na semana que vem te mando um dream team do Imazon e a gente começa
a fazer um diagnóstico socioeconômico do desmatamento e a monitorar
os desmates pelo nosso sistema. Eu te mando os alertas mensais, e aí
vocês vão a campo verificar’, conta Netto”.
O
diagnóstico
“Verificar era essencial porque não
seria possível sair da lista sem antes saber quem estava desmatando.
Eram os madeireiros? Os sojicultores? Os pecuaristas? Todos eles? ‘A
gente não sabia’”, diz Netto.
“Todos os meses, a prefeitura recebia os alertas do Imazon e o superintendente de Meio Ambiente de Paragominas, Felipe Zagalo, pegava o Fiat da secretaria e ia atrás dos locais dos incidentes”.
Carvão,
o “inimigo detectado”
“Parece mais simples
do que era. O município, que já foi do tamanho de três Bélgicas,
ainda é hoje um dos maiores do Brasil – equivale a um Sergipe.
Como Zagalo contou à piauí em 2019, “o Imazon mandava a imagem de
uma quadra geográfica lá na ponta, dizia ‘Ali tem desmate’, e a
gente entrava no Fiatzinho. Pegava 100 km de estrada de chão achando
que dava lá, mas não dava. Fazia meia-volta, tentava outro ramal e
o carro não passava”. A logística era um inferno. Quando enfim
ele voltava dessas fiscalizações, a constatação era sempre a
mesma: ‘É carvão. É carvão. É carvão.’”
“Aquilo era uma surpresa: ‘Não era o agricultor nem o pecuarista e nem mesmo o madeireiro. Era o carvoeiro, e isso a gente não sabia. O cara não aparecia no nosso cenário’, conta Zagalo. Demachki baixou uma medida administrativa proibindo o licenciamento de novas carvoarias. A partir de então, só seria permitido processar resíduos de serraria, não mais madeira de desmatamento”.
O
pacto
“Em março, passadas poucas semanas do
sushi, o prefeito ligou para Beto Veríssimo e anunciou: ‘Vamos
fazer um pacto.’ Na última semana do mês, Demachki reuniu mais de
quinhentas pessoas no auditório do sindicato rural. Estavam
representadas as forças econômicas, políticas e sociais do
município – mais de cinquenta entidades patronais e da sociedade
civil, além do secretário de Meio Ambiente do Pará e do
responsável pelo programa de combate ao desmatamento do MMA”.
Nasce o Município Verde
“A cidade
se comprometia a não desmatar mais. No que viria a ser chamado de
programa Município Verde, haveria monitoramento constante, um grupo
de trabalho consolidaria as informações e os dados seriam
publicados para que todos soubessem quem estava desmatando, em qual
fazenda, e com que propósito.”
“Todos
assinaram. Paragominas foi o único município que decidiu não
brigar com o governo federal e, principalmente, não brigar com os
dados”.
A
meta
“Para sair da malfadada lista era preciso
cumprir duas condições: reduzir o desmatamento anual a menos de 40
km2, mantendo por dois anos consecutivos uma taxa média inferior à
registrada entre 2005 e 2008, e promover a atualização cadastral de
pelo menos 80% dos imóveis rurais do município, com o intuito de
radiografar a situação ambiental de cada propriedade”.
“Havia
uma astúcia imensa nesse arranjo: as metas impostas pelo MMA eram
coletivas, não individuais. ‘Não era você que precisava se
enquadrar, era a cidade’, explica Daniel Azeredo, procurador do
Ministério Público Federal que comandou ações de combate ao
desmatamento na região. A divulgação dos nomes dos desmatadores de
Paragominas criava uma pressão social para que os infratores
deixassem de delinquir.”
Mudança
de mentalidade
“Netto começou a notar uma
mudança de mentalidade. ‘O cara dizia: O problema de desmatar não
é nem mais a multa do Ibama, é que eu vou me sentir um pária, um
cara que tá jogando contra…’. Azeredo ouviu de um produtor local
que, antes, ele e os amigos iam para o bar xingar o Ibama. Depois do
pacto, passaram a reclamar do vizinho: ‘Ô, bicho, não faz isso
não porque você tá prejudicando todo mundo.’”
“Se o
infrator fosse maçom, membro do Lions, filiado ao sindicato patronal
ou a qualquer outra associação que assinara o pacto, Demachki ou
Zagalo levavam pessoalmente a informação até a entidade do
infrator:”
“’Ó, tem um associado teu que desmatou
aqui, ó.’ E o responsável era invariavelmente repreendido. A
ideia era gerar um constrangimento no sujeito. A censura era
coletiva”, contou Zagalo à piauí, em artigo publicado em 2021”.
Ponto
de não retorno
“Tudo corria bem até o dia 23
de novembro de 2008, um domingo. Naquela madrugada, o Ibama apreendeu
catorze caminhões carregados de madeira extraída ilegalmente de uma
reserva indígena. Os veículos foram estacionados na sede municipal
do órgão que, diante do que aconteceria dali a pouco, levava, não
sem ironia, o nome de Parque Ambiental de Paragominas.”
“Horas
depois, ao cair da tarde, os madeireiros, revoltados com a ação,
foram até a unidade, atearam fogo ao prédio e, não contentes,
furtaram as carretas e sumiram com a carga ilegal. As imagens do
incêndio acendendo a noite paraense foram exibidas em rede nacional.
Era uma afronta aos poderes constituídos e à política de combate
ao desmatamento”.
“Foi
nesse domingo fatídico que Tasso Azevedo conheceu Adnan Demachki. À
frente, então, do Serviço Florestal Brasileiro – que ajudara a
criar junto com Marina Silva – Azevedo, Carlos Minc, sucessor de
Marina no MMA, e André Lima, diretor do programa de combate ao
desmatamento, tomaram um avião da FAB e desembarcaram em
Paragominas. Foram prontamente recebidos pelo prefeito, que não
tergiversou: ‘Vocês estão certos’, relembra Azevedo, ‘eu vou
resolver.’”
“Na noite
de domingo para segunda, Demachki convocou todas as lideranças do
município. Poucas horas depois do amanhecer, ele entrou no auditório
da prefeitura, caminhou até o palco e viu diante de si boa parte dos
poderes locais: sindicatos, vereadores, madeireiros, pecuaristas. A
convocação reunira 51 associações locais”. “’A cidade
precisava mudar’, lembra-se Netto”.
“A gente olhava
aquela gente toda e dizia: ‘Se vocês não quiserem que os nossos
filhos sejam ciganos, indo sempre em frente sem nunca parar num
lugar, então a gente vai ter que fazer de outro jeito.’”
“A
plateia estava tensa. Muitos queriam partir para o enfrentamento.
Demachki argumentava que não havia saída senão cumprir a lei.”
“Cumpri-la, porém, significava mudar modos de vida que
haviam feito da Amazônia o que ela se tornara: um território sem
Estado, onde as regras podiam ser violadas a um custo quase nulo e,
sobretudo, uma vastidão a ser colonizada por direito de quem chega
primeiro, nesse espírito de fronteira em que a floresta é vista
como obstáculo, não patrimônio”.
“Para boa
parte dos que ali estavam, o amplo programa de conformidade ambiental
que Demachki propunha contrariava tudo o que haviam aprendido e feito
ao longo de suas vidas de pioneiros.”
“Implicava em
monitoramento sistemático do território, exigência de
cadastramento ambiental, regularização das atividades produtivas e
articulação com as instâncias de controle para garantir que todo
desmatamento ilegal seria punido.”
“Aqui e
ali, a impaciência dava sinais de que poderia se transformar em
revolta. Foi quando Demachki moveu sua peça e imprensou a plateia”.
Reeleição
consagradora
“Ele acabara de ser reeleito com
74% dos votos. Era um prefeito popular, em quem a população
confiava. Filho de um torrefador de café que emigrara do Líbano,
ele fizera a vida na advocacia, não na madeira nem na pecuária.”
“Era um profissional liberal que não carregava na
memória a experiência de fronteira, com seus costumes e suas
convicções arraigadas. Não tinha lado: era um mediador imparcial”.
“Apoiado
no capital de confiança que construíra ao longo de sua gestão, pôs
a mão no bolso do paletó e sacou de lá duas cartas. Desdobrou-as
com cuidado e as ergueu à vista de todos”.
“A primeira, que ele já mostrara ao ministro Minc, era um pedido de desculpas ao Brasil pelo ocorrido na véspera, seguido de uma declaração de compromisso de que Paragominas acabaria com o desmatamento”.
“A segunda era sua carta de renúncia. Qual das duas deveria mandar aos veículos de comunicação? Quem ainda se opunha ao pacto se sentiu constrangido, e o pedido geral foi que o prefeito rasgasse a segunda carta e enviasse a primeira, a do pedido de desculpas e do compromisso”.
O pacto foi aprovado.
Dados
“Paragominas foi o primeiro município do Pará a realizar o cadastro ambiental de boa parte de seus imóveis rurais. Foi também o primeiro a sair da lista maldita do MMA. Conseguiu esse feito em 2010, menos de dois anos daquele novembro de incêndio e pacto”.
“Em 2009, por
iniciativa da prefeitura, a educação ambiental passou a integrar a
grade curricular do ensino municipal, uma ideia pioneira na
Amazônia”.
“Não se tratava apenas de uma
disciplina, mas de um tema transversal, presente em todas as
matérias: geografia, história, português, matemática”.
“Nas
maternidades, sempre que nascia uma criança, os pais recebiam da
prefeitura duas mudas de árvores, a serem plantadas em celebração
ao rebento”.
“O Ministério
do Meio Ambiente monitorava (e monitora) a situação dos municípios
críticos com base nos dados do Projeto de Monitoramento do
Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite
(Prodes), sistema operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe)”.
“Eis os dados para Paragominas
entre 2005 (300 km2 de florestas perdidas) e 2012, último ano de
Adnan à frente da ´prefeitura: 17,1 km2”.
“Dito de outro modo, três anos antes da publicação da lista, o município cortara um Recife de florestas; onze meses depois da lista, já na vigência do programa Município Verde, a área destruída equivaleria a dois bairros do Rio de Janeiro: Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes”.
“Demachki
deixou a prefeitura em 2012, ano em que o desmatamento caiu a meio
Recreio”.
“Paragominas nunca mais voltaria a
registrar as taxas anteriores a 2008”.
“O município de Paragominas ainda preserva 67% de suas florestas, embora os vetores tradicionais de desmatamento – a pecuária, a monocultura da soja – estejam presentes”.
“Paragominas é próspera e tem uma economia pujante. ‘Chama a atenção você estar num lugar com muita floresta e muita atividade econômica’, ele diz. “Diminuir o desmatamento quando toda a mata já desapareceu é fácil.”
“Os municípios vizinhos apresentam menor cobertura florestal: Dom Eliseu tem 49,4%; Ulianópolis, 47,1%; Tailândia, 49,5%. Todos, portanto, com menos florestas do que Paragominas”.
O
Adnan
“Com
sua fala jeitosa, sua sabedoria política e seu rosto de coruja
atenta – que observa antes de agir –, Demachki conseguiu o
impensável: reuniu adversários em torno de um propósito comum,
ouviu cada um deles sem permitir que nenhum fosse demonizado e
construiu um acordo que, se não atendia exatamente às expectativas
de muitos, era aceitável a todos.
O
legado
O
legado não foi apenas ambiental: aprender a obedecer a uma lei é um
passo para obedecer às demais. Pelos padrões brasileiros, a cidade
que Demachki entregou a seus sucessores é ordenada.
As
ruas são limpas. Os carros param na faixa, dão prioridade aos
pedestres. Buzina-se pouco. Pode-se encher o pulmão sem risco de
contaminá-lo com a fumaça das carvoarias.
A
saúde
Depois
de atuar como prefeito, ele integrou o secretariado do governador
Simão Jatene, primeiro à frente da pasta de Proteção Social, em
seguida como secretário de Desenvolvimento Econômico, Mineração e
Energia.
Era um nome discutido para a sucessão de Jatene, e talvez esse fosse mesmo o seu caminho, se um câncer não o tivesse afastado da vida política.
The Economist
e inflexão
“Demachki recebeu prêmios e elogios
de publicações prestigiosas. Em 2013, a revista inglesa The
Economist publicou uma reportagem sobre a experiência de
Paragominas”.
“A abertura da matéria dizia que, se a Amazônia havia tido um ponto de inflexão, ele acontecera na noite de 23 de novembro, horas depois do incêndio na sede do Ibama”.
“Referia-se, claro, ao momento em que a sociedade local fora convocada a comparecer a uma assembleia em que rejeitaria a renúncia de seu prefeito e decidiria cuidar de sua floresta”.
“Curada a doença, Demachki voltou para a advocacia privada, que conjugava com o papel de elder statesman das cidades”.
O
cara
“Era consultado por prefeitos e
secretários, visitava cidades – Nova Lima, Paraty, Maringá,
Curionópolis – a convite de cidadãos, organizações e
autoridades preocupadas com o aprimoramento da administração
local”.
“Passou a ter uma vida cívica”, diz Beto Veríssimo, “era o grande municipalista.”
“Em 30 de março passado, Adnan Demachki passou mal durante um evento em Brasília patrocinado pela Organização Internacional do Trabalho”.
O
adeus
“Dava uma palestra sobre ações
econômicas sustentáveis na Amazônia quando sentiu um aperto no
coração. Achou que era uma indisposição alimentar e foi para o
hotel”.
“Como a dor não melhorasse, sua mulher Nágila o convenceu a ir ao hospital. Lá, recebeu a notícia de que o caso era grave e exigia uma cirurgia imediata de peito aberto. Eram três da manhã. Ligou para os seus três filhos – Murilo, Natasha e Nabila – e suas irmãs”.
“Falou com cada um e só então seguiu para o centro cirúrgico, onde morreu”.
A
palavra
“‘O
Turco era confiável’, diz Justiniano Netto. Era um fiador, tinha
autoridade para puxar a orelha e autoridade para mediar”.
O
vazio
“Fica
em silêncio, sorri um sorriso triste e repete a pergunta feita no
início desta despedida: ‘Quando aparecer uma nova crise, quem a
gente vai chamar?’”
Promessa
e pressa
“‘Ele tinha duas características’,
diz Beto Veríssimo. A primeira: prometeu, cumpriu; a segunda: tinha
pressa.”
“Morreu aos 62 anos, jovem demais para a família, para os amigos e para aqueles – muitos – que buscavam seus conselhos”.
Exemplo
“Seu
velório em Paragominas lotou, reunindo produtores rurais,
sindicalistas, pequenos lavradores, políticos e ambientalistas –
grupos que nem sempre convivem, mas que estavam ali para se despedir
do que não deveria ser raro, mas infelizmente é: um homem público
exemplar”.
*Fundador da revista piauí, sobre o velório de Adnan Demachki (1964-2026)
**Fonte significado “arrabalde”: www.dicio.com.br
Crédito imagem: revista piauí, 236, Ascom Prefeitura Municipal de Paragominas, 2005.
