Temperatura máxima: mais um verão brasileiro agitado para ficar na lembrança.
Acordo Mercosul-União Europeia encerra semana agitada em Assunção, Brasília, na Faria Lima e pelo mundo. Lula, escanteado, prefere ficar fora da foto no Paraguai.
O acordo, afinal
Tudo começou em 1999, primeiro ano do segundo mandato de FHC. Após mais de ¼ de século de negociações, idas e vindas - 26 anos e seis meses para ser mais preciso -, o Mercosul, bloco originalmente composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, finalmente tirou do papel, assinou e formalizou o acordo comercial de livre comércio com a União Europeia (UE).
Redução de tarifas alfandegárias, simplificação de regras comerciais de bens e serviços; capítulos que tratam de sustentabilidade, compras nas áreas públicas, propriedade intelectual, entre outros acordos, estão no texto ansiosamente esperado pelo empresariado brasileiro na sua absoluta maioria, do varejo à indústria, desde o final do século XX.
Assunção
Com a assinatura neste sábado, 17 de janeiro em Assunção, a capital paraguaia, e a chancela do Parlamento Europeu em seguida, será criada a maior área de livre-comércio mundial, universo habitado por mais de setecentos milhões de pessoas e PIB na casa de 21,7 trilhões de euros (algo em torno de 136 trilhões de reais).
Deu Meloni
Nos bastidores pré-assinatura, longe de passar despercebido, houve uma queda de braço em torno do local e data da cerimônia entre a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o presidente brasileiro Lula da Silva, disputa vencida por ela.
Lula fora
Cumpre lembrar que Lula seria anfitrião da sua última reunião de cúpula na presidência do bloco em Foz do Iguaçu, no dia 20 de dezembro, oportunidade em que, durante as fotos e entrevistas conjuntas, restou comprovada novamente a falta de empatia entre ele e Javier Milei.
Política e História
O petista queria, naturalmente, outras fotos muito mais desejadas para serem usadas nas eleições deste ano, aquelas com canetas nas mãos e papéis diante de si e a outra, chamada de “foto de família”, ao lado dos outros chefes de estado e signatários locais, ambas tiradas na data da histórica assinatura finalmente ocorrida ontem na capital paraguaia.
“Prematuro”
Às vésperas da assinatura divulgada por Lula em novembro, quando o brasileiro presidia o bloco sul-americano e afirmara que seria até 31 de dezembro, a premier da Itália dissera, direto do Parlamento em Roma, que era “prematuro” assiná-lo naquele momento.
Garantias
Naquele 17 de dezembro, Giorgia Meloni afirmou que o acordo exigia garantias de reciprocidade suficientes para proteger o setor agrícola europeu. Ela disse mais, que estava confiante de que as condições necessárias para a assinatura deveriam ser resolvidas no início deste 2026.
Macron contra
Convém lembrar que a França vinha se pronunciando contrária a qualquer tentativa da UE em avançar com o acordo. Emmanuel Macron, o presidente do país, dissera isso novamente em reunião de gabinete naqueles dias.
Bingo
Em verdade, menos de um mês após a afirmação, a líder italiana mostraria que tudo aparentemente tinha se resolvido, votando decisivamente a favor da assinatura. Com efeito, sua mudança de posição se deu após a UE revelar a antecipação do acesso a fundos agrícolas a partir de 2028.
Contrários
Com os votos contrários da Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia, o acordo foi aprovado pela Comissão Europeia dia 09 de janeiro.
Santiago Peña
Desde o início do mês, o novo presidente do Mercosul é o líder paraguaio Santiago Peña, um quadro do partido quase hegemônico do país, o Colorado, historicamente de direita.
Zero coincidência
Com a rapidez da mudança de posição de Meloni, o sinal emitido pela italiana foi a vitória do grupo de mesmo spectro, onde se encontram ela, Milei e Peña, todos de direita. Evidente que passaram a perna em Lula tirando-o do protagonismo planejado em dezembro.
Cordas
Animal e veterano político, ao desistir de ir ao Paraguai para a assinatura, o brasileiro acusou o golpe e viu sua liderança minguar novamente em matéria de protagonismo regional. Ironia do destino, o velho líder sindical teve de engolir o sapo (sem trocadilho) de, apesar de liderar a maior economia do bloco, prescindir de estar presente, enviando seu chanceler para representá-lo.
Consolação
Como prêmio de consolação, a diplomacia local conseguiu uma deferência da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que se reuniu com o brasileiro no Rio de Janeiro na sexta-feira, 16, véspera da assinatura. Imaginem o vale de lágrimas dos bastidores dessa prévia…
O tratado
Com a assinatura, os blocos se comprometem reciprocamente a permitir a entrada de produtos em ambos os mercados com alíquotas zeradas ou reduzidas.
Número 2
A UE é o 2º maior parceiro comercial do Mercosul em bens; o primeiro é a China, que concentrou entre 2024 e 2025, 26% do comércio global com o bloco.
Produtos
Sobre os efeitos favoráveis à balança comercial brasileira, a carne produzida aqui, somada a dezenas de frutas, grãos e café, além de açúcar (e etanol), equipamentos médicos, insumos das indústrias de calçados, têxtil e de autopeças, deverão ter acesso preferencial aos consumidores europeus.
95% em 12 anos
Ainda que variadas, está previsto no texto do
acordo que a UE deve reduzir tarifas sobre 95% dos bens produzidos
pelo Mercosul em até 12 anos.
Mais ritos
Antes da entrada em vigor, a corrida de obstáculos de quase três décadas ainda terá de passar pelos parlamentos da UE, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Existem ainda os casos específicos de acordos que devem ter a chancela dos parlamentos de cada nação.
Ameaças
Sim, existem riscos de judicialização e, como forma de contornar entraves, é possível que o acordo entre em vigor antes de passar pelo Parlamento Europeu, por meio de um mecanismo chamado de “aplicação provisória”, como lembrou a matéria da manchete de O Estado de S. Paulo neste domingo, 18.
A semana no Bananão
Por essas paragens, a semana iniciou com a divulgação da última pesquisa de opinião para a presidência da República realizada pela Quaest, onde o senador Flávio Bolsonaro apareceu com crescimento de 9%, saindo de 23% para 32% no 1º turno, enquanto Lula tem, neste cenário, 39%.
Escândalo Master
Na esteira, o que se descortinou foi uma sucessão de medidas atrabiliárias e suspeitas dos supremos de sempre, primeiramente Dias Toffoli, que assinou decisões capazes de corar anêmicos.
Primeiro, ele determinou que os itens apreendidos em nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga as suspeitas de fraudes do Banco Master, ficassem inviolados sob custódia do STF, uma medida considerada inédita, cuja praxe é o envio aos peritos da Polícia Federal.
Meia-volta
Em seguida, no mesmo dia 14, atendendo ao pedido de reconsideração da Procuradoria-geral da República (PGR), ele voltou atrás. A argumentação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi que a retenção do material poderia comprometer o andamento das investigações conduzidas pela PF.
O PGR também sustentou que a análise imediata dos dados apreendidos era necessária para o esclarecimento dos fatos e a identificação de eventuais desdobramentos do esquema investigado. Um dia depois, Dias Toffoli nomeou quatro peritos da PF para analisar os materiais na PGR, outra jabuticaba de sua lavra.
Nojenta
Com o Irã em chamas e milhares de mortos que se insurgiram contra o regime corrupto, tirano, genocida e medieval dos aiatolás, na América do Norte, após a revelação de morte por enforcamento de um jovem de 26 anos, Donald Trump ameaçou o governo de Teerã com “medidas duras”.
Conforme escrevemos aqui para ler após a captura de Nicolás Maduro sobre a pusilanimidade e quase chancela de Lula, seus governos e o PT em relação a tiranias e ditaduras genocidas, para surpresa de ninguém, com a nota oficial do atual governo petista sobre a crise na antiga Pérsia, o jornalista Mario Sabino escreveu mais um texto irrepreensível em sua maestria no site Metrópoles na quarta-feira, 14.
O título da coluna foi: A nota do governo Lula sobre o Irã é deplorável, chega a ser nojenta
Alexandre, o pseudo grande
Sob o título: O monarca absoluto Alexandre de Moraes abre outro inquérito sigiloso, o mesmo extraordinário jornalista, ex-editor-chefe do período áureo da revista Veja, co-fundador ao lado do não menos brilhante Diogo Mainardi do site O Antagonista e da revista virtual Crusoé, colocou todos os pingos nos iis em relação a mais nova “jurisprudência” alexandrina.
No caso, a abertura de mais um inquérito sigiloso (o primeiro foi em razão de uma matéria da Crusoé que citava Toffoli), desta feita a respeito de um hipotético vazamento de dados financeiros pela Receita Federal e/ou o COAF, seus e de familiares, bem como de Toffoli e parentes.
Tudo fruto da descoberta do contrato de 130 milhões da sua esposa e da revelação de um resort no Paraná com digitais de dois irmãos e um primo de Toffoli, e fundos ligados ao famigerado banco de Daniel Vorcaro.
Resumo da ópera
Como corolário da opinião de Sabino, fica o subtítulo do seu texto: “Moraes não vê problema no contrato fabuloso que a sua mulher firmou com o Banco Master. O que o chateia é que o país tenha sido informado”.
Duas notas
Sobre todo este estado de coisas que têm acontecido no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) atualmente, O Globo deste domingo traz duas notas nas colunas de Elio Gaspari e Lauro Jardim que devem ser lidas com a atenção que merecem.
Na coluna do veterano jornalista, com o título “STF manterá sua conduta”, segue o texto abaixo:
Fez água a ideia do ministro Edson Fachin de criar um código de conduta para seus pares. A proposta precisava de aprovação pela maioria da Corte e ela não se formou. Assim, os ministros resolveram preservar as condutas de cada um.
Premiada
Com o título de “Na roda”, Lauro Jardim, um dos colunistas mais bem informados da República, escreveu que, após a segunda fase da “Compliance Zero”, a defesa de Daniel Vorcaro - que negará a informação -, diz ele, passou a ofertar a delação premiada do enrolado ex-banqueiro, proposta que teria sido considerada pela investigação.
“Se Vorcaro falar o que sabe, o que viu e der os detalhes dos negócios de que participou, meia República vem abaixo”, finaliza.
Unilateral
E o Trump, contra tudo e todos que professam a crença no multilateralismo, segue querendo a Groenlândia, vai de fato mandar na reconstrução de Gaza, como afirmou após tomar posse um ano atrás, e continua “dançando e andando” pra quem lhe contradita ou se opõe, mas quer porque quer um Nobel da Paz para chamar de seu, além do presente da Corina…
Excelente domingo a todos (as).
