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O escândalo do Banco Master, a operação abafa, a genialidade e autoridade moral de Benjamin Franklin

Enquanto ministros do STF tergiversam sobre condutas inadequadas, Senado e BC trabalham contra transparência e a boataria toma conta de Brasília.

 “O orgulho que janta com a vaidade
ceia com o desprezo.”

Benjamin Franklin, estadista americano (1706-1790)




A semana
Após a abertura do “Ano do Judiciário de 2026”, cerimônia anual que marca o fim do recesso daquele poder, ocorrida na segunda-feira, 02, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, os dois que, ao lado do decano Gilmar Mendes, trabalham contra a criação de um Código de Ética para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que não são submetidos a nenhum tipo de controle externo, desandaram a tergiversar sobre as suas responsabilidades funcionais e morais em face das conexões e revelações sobre atuações dos dois primeiros a favor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e seu ex-banco de fancaria, o Master, sobre o qual se afirma a quebra como o maior rombo financeiro da história nacional.


Boicote
As duas excelências, Moraes e Toffoli, líderes do boicote ao código e a um almoço entre os pares da Suprema Corte cujo cardápio incluiria, antes de ser cancelado, a criação do instrumento capaz de vetar caronas em jatos de empresários com interesses em decisões da última instância jurídica do direito pátrio, contratos milionários celebrados entre encrencados (e criminosos) do colarinho branco e parentes de magistrados para atuação nos tribunais superiores, entre outras condutas suspeitas que deveriam ser vedadas, mandaram recados e expeliram muxoxos tão logo a primeira semana de trabalho do judiciário transcorrera.


Restrições e demonizações”
As manifestações dos polêmicos Moraes e Toffoli ocorreram durante a votação na quarta-feira, 04, do julgamento sobre os limites do uso de redes sociais por magistrados, quando Moraes citou as regras previstas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).


“Um magistrado, seja de primeira instância, seja ministro, está impedido de julgar qualquer causa que tenha como parte seus familiares. Não há nenhuma carreira pública com tantas vedações quanto a magistratura. A magistratura não pode fazer mais nada além do magistério e das palestras. E como o magistrado só pode dar aulas e palestras, passaram a demonizar as palestras. Por falta do que criticar, daqui a pouco a má-fé vai para quem dá aula nas universidades”, afirmou ele.


Autocontenção”
Dias Toffoli, aquele da carona no jatinho ao lado do advogado do Master, falou em “autocontenção”. Trocando em miúdos, uma correição, como se diz no juridiquês, feita pelos próprios ministros. O ministro também citou o direito dos magistrados investirem em fazendas, empresas e que tais:


“Vários magistrados são fazendeiros, são donos de empresas. E eles, não excedendo a administração, têm todo o direito aos seus dividendos”, disse o “hóspede” ilustre do resort Tayayá.


Milhões de razões
Com efeito, ambos os ministros se defenderam atacando quem “ousa” divulgar excessos, impropriedades cometidas, ditas ou descobertas pela imprensa livre, a respeito da atuação deles e outros magistrados, como a falta de transparência do Banco Central e do Senado Federal em não divulgar o número de visitas do ministro Moraes e da sua esposa nas duas instituições, respectivamente, para atuar em favor do banco, conforme relatado esta semana pela jornalista Malu Gaspar em O Globo.


Uma nota de Lauro Jardim
Também no periódico, sob o título “Todo cuidado é pouco”, o colunista político escreveu neste domingo, 08:


“Ministros do STF já foram avisados que o correr das investigações do Caso Master vai respingar com força na Corte”.


Congresso
Enquanto isso, no Congresso Nacional, que também reabriu as portas após o recesso parlamentar, para surpresa de ninguém, Hugo Motta e Davi Alcolumbre deixaram claro que não querem nem ouvir falar na instalação de CPMI do Banco Master. Como se diz por aqui: sanoooooova!


Money talks
Enquanto isso, permanece o espanto e curiosidade sobre os 129 milhões de reais do contrato - sabe-se lá com que finalidade - entre o Master e a esposa do ministro Moraes.


Estupefação que vai da classe dirigente do país, particularmente na “Faria Lima”, endereço dos bancões, corretoras, entre outros negócios bilionários listados na Bolsa de Valores de São Paulo, passa pela imprensa livre e não sai da pauta dos grandes escritórios de advocacia.


Tentáculos
Na esteira da incógnita, seguem as especulações, operação abafa, disse me disse, ilações (ou aleivosias) sobre os tentáculos de Dias Toffoli, irmãos e primo com o enrolado Vorcaro e a JBS, de intrincadas e sempre suspeitas relações.


Isso sem falar em Ricardo Lewandowski, Guido Mantega, Jaques Wagner, Rui Costa, Careca do INSS, Lulinha e muita coisa pior e mal cheirosa.


Usina de escândalos

Pródigo em escândalos, o Brasil do século XXI passou pelo Mensalão, Petrolão, impeachment presidencial e destruição da Operação Lava-jato, entre outros delitos e escândalos menos votados. Por trás de cada um deles, mais do que a luta pelo poder, o que se descobriu foi a busca por enriquecimento pessoal e ilícito.


Impunidade

Por trás dos “maus feitos”, para usar uma expressão cara a Dilma Rousseff, usualmente feita à época do seu impedimento, entre esses delinquentes sempre pontificou a crença na impunidade e em acordos tramados na calada da noite da capital federal capazes de “zerar o game”.


E ai de quem ousasse alhures e muito menos hoje em dia em furar essa bolha, a da impunidade.


Encontro bilateral e um americano genial
Levando-se em consideração que o Brasil e os EUA estão às vésperas de um encontro entre Lula e Donald Trump, bem como a ignominiosa publicação de um filmete racista contra Michelle e Barack Obama publicado e apagado pela equipe de social media do americano, somada as revelações dos arquivos do caso do monstro Jeffrey Epstein e a aridez na capital federal em razão do “Caso Master”, fica um spoiler que mais é um sopro de inspiração em razão do gênio de um menino pobre e comum que, graças ao seu talento e pertinácia providenciais, carisma, honestidade pessoal, senso de coletividade, humildade e simplicidade, consegue se contrapor a contrariedade e torpor causadas pelos descaminhos da república que está longe de ser de todos.


Seu nome: Benjamin Franklin. Cuja esfinge está estampada na nota de 100 dólares e o currículo contém a transformação de um simples operário em empresário milionário graças ao seu esforço pessoal e trabalho incansável, e que, na segunda metade do século XVIII (nascera em 1706), se transformara em um dos “founding fathers” ou pais fundadores dos EUA.


Autodidata
Antes disso, após frequentar a escola por apenas dois anos e trabalhar como aprendiz em uma gráfica, criou aos 22 anos um dos poucos dos poucos jornais do país ainda sob dominação britânica, a Gazeta da Pensilvânia.


Autodidata e muito trabalhador, ainda jovem aprendeu a falar francês, italiano, espanhol; tornou-se um líder cívico, criou a primeira biblioteca pública dos EUA, a polícia municipal, o corpo de bombeiros, organizou os correios local, fundou a Sociedade Filosófica Americana e a Universidade da Pensilvânia.


Inventor
Franklin inventou as lentes bifocais, o fogão de ferro que economizava combustível (até hoje chamado de “fogão Franklin”) e conduziu experimentos no campo da eletricidade que culminaram na criação do pára-raios.


Por toda essa biografia, ele, signatário da Declaração de Independência e um dos autores da Constituição dos Estados Unidos, foi enviado como o principal negociador do Tratado de Paris, que pôs fim à revolução americana.


As lições de Ricardo Modesto
Sob o pseudônimo de Richard Sanders, Benjamin Franklin publicou por cerca de 25 anos o Poor Richard’s Almanack, no qual, em meio a notícias sobre as fases da lua, previsões meteorológicas e outras informações úteis para fazendeiros, “O Almanaque de Ricardo Modesto” , na tradução de Lúcia Sweet-Lima, criara ou reformulara centenas de provérbios singelos e práticos, que atingiram grande sucesso de vendas nos EUA e noutros países ocidentais, fazendo com que sua fama atravessasse o Atlântico.


Em 1758, ele publicou O Caminho da Riqueza, um breve resumo da sagacidade e sabedoria de Ricardo Modesto. São inúmeras as lições de sabedoria e frugalidade contidas nas tiradas daquele grande e virtuoso homem.


Superego

Ouso dizer que Sanders fora o superego capaz de frear o ímpeto de Franklin, tamanho o sucesso e reconhecimento que adquirira, de sorte que esta prosperidade não lhe tirasse a essência que dera origem a tudo que conquistara: a simplicidade.


Em meio ao festival de “manda quem pode”, carteiradas, soberba, autoritarismo, arrogância, prepotência, intimidação, fica a síntese descrita em epígrafe deste texto, proferida por um estadista genial cujo legado sobrevive mais de dois séculos e meio após a sua morte.


E mais: cujas lições funcionam como bálsamo em meio a tanta mediocridade e desfaçatez travestidas de onipotência circunstancial que jamais deve servir senão para lembrar quais (maus) exemplos não se deve seguir em uma nação que luta para sair da várzea moral na qual está estagnada desde antes da partida de Benjamin Franklin, em 1790.


Enquanto isso, às vésperas do carnaval oficial do Bananão, quem sabe a gente volta com os adágios e aforismos do americano que vale a pena na semana que vem.






Créditos das imagens na ilustração: 

Daniel Vorcaro (reprodução)
Senado Federal (divulgação)
Banco Central: Agência Brasil


  




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Toni Remigio
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