E, SE.
Extraio da realidade que me cerca tudo quanto me toca. Aquilo que ouço, vejo, ou sinto me seduz e ordena a escrita se transformando em rascunhos avulsos que um dia, quem sabe, se traduzirão em crônicas ou ensaios. Pois bem, já de há muito venho tentando localizar um pequeno papel no qual esbocei uma ideia para crônica que a época julguei ser excelente. Contudo, o mesmo vento que traz a inspiração também carrega a insipidez, findei por, definitivamente, perder papel e concepção, só tendo me restado a excitação pungente que senti ao registrar a centelha de imaginação.
O intrigante é que a nuvem da ideia ainda me ronda, não dela propriamente dita, afinal, não lembro, mas sim do que ela poderia ter sido. Ah se eu pudesse lembrar da ideia...
O
não vivido “por um triz”, o não conhecido, o inexplorado,
permeiam a psique humana e assim tem sido através dos séculos, o
incêndio da biblioteca de Alexandria em 48 a.c nos permite constatar
tal fato, quais mistérios da humanidade restavam ali arquivados, e
se hoje tivéssemos acesso a tal acervo? São indagações e
conjecturas ainda hoje feitas sob um fato longínquo no tempo das
quais não teremos respostas.
Outrossim, todo amante de futebol sabe que o gol mais bonito do rei Pelé não foi registrado em vídeo, ficou, verdadeiramente, registrado na retina de dez mil torcedores que estavam presentes na rua Javari no dia dois de agosto de mil novecentos e sessenta e nove no certame disputado entre Santos e Juventus. A pintura ecoa até hoje como a obra prima do rei. Infelizmente, nunca a veremos. E se um clandestino registro fosse afinal encontrado, será que ainda diríamos ter sido o tento mais bonito anotado pelo eterno camisa dez?
Aquilo que nunca foi visto resta insulado na imaginação sempre apoiado na esperança de ser melhor do que o conhecido, do que o vivido, e o fato de não ter sido experimentado é justamente o que o torna especial. Isto transborda dos registros históricos e desagua em nossas vidas. Me refiro a quase amizades, quase amores, quase viagens... o mistério fomenta a observação e a hipótese, especialmente quando não há o experimento.
Quando menino, em Icoaraci, apreciava, da margem do rio, ao fim da tarde o retorno de pequenos barcos pesqueiros. Não era raro ver enormes piraíbas (para quem não sabe, o nosso filhote) de mais de um metro e setenta serem arrastadas a muito custo para terra firme. Mais comum ainda era ouvir os pescadores dizerem: “o que escapou era muito maior”. Por óbvio que havia um tom quase sempre jocoso nessas afirmações, entretanto, o rumor de uma piraíba de dois metros e meio que vivia escapando das linhas e redes de pesca ecoava pelas paredes do combalido mercado distrital e a ideia de sua existência nos fazia confabular e imaginar se um dia o gigante bagre seria de fato apanhado. Pelo que sei, nunca foi.
Todavia, é bem possível, que as expectativas que circundam esses mistérios históricos e privados, não sejam nada além de meros devaneios utópicos inflados pela curiosidade e imaginação próprias de nossa espécie. É possível que se ainda existente a biblioteca de Alexandria não nos revelasse nada além do que já é conhecido. É possível que o gol da rua Javari tenha sido apenas mais um golaço do Rei, contudo, menor em importância e beleza comparado a tantos outros belos e importantes gols por ele anotados. É possível que o grandioso bagre das águas icoaracienses, uma vez capturado, não rendesse mais do que uma ou duas fotos e logo mais fosse consumido e esquecido, bem como seus parentes igualmente grandes. É também possível que o rascunho que perdi não resultasse em crônica nem ensaio, ou, uma vez resultando, não fosse tão bom como imaginei que fosse. No fim das contas, é bem possível que a preparação para a festa seja sempre bem melhor do que a festa.
