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Domingos

É domingo de manhã, estou às voltas tentando, em vão, achar o melhor assunto para esta primeira crônica, aliás, já por várias ocasiões havia dedicado boas frações de tempo nesse intento, desde que o dono do jornal me fez o convite para aqui escrever meus devaneios tenho procurado marcar um golaço logo de cara, nem sempre é possível. Minhas sinapses nervosas não me proporcionam nada que me pareça interessante para este nosso primeiro encontro, mancho o papel com pequenas frases soltas e metidas a besta, palavras rebuscadas ao lado de desenhos geométricos sem sentido. Sem maiores introduções uma voz passa a soprar em meus ouvidos: “escreve sobre os domingos... escreve sobre os domingos…”. Mas escrever o que sobre essa paroxítona trissílaba com acento tônico na penúltima sílaba? Essa parte minha inspiração mandrake não me trouxe. Resta o que posso observar.


A manhã é clara, no céu, as nuvens não demonstram interesse em seu ofício, apenas vagueiam calmamente, ou melhor, preguiçosamente! Afinal, é domingo. E embora eu não seja nenhum telúrico gasto tempo as acompanhando e admirando as plantas do jardim. Nas calçadas fogareiros são acesos e um amealhado de aromas invade as copas das mangueiras perfumando a cidade. As feiras fervilham. Os botecos levantam suas portas e abrem suas cortinas para receber os ávidos por um refrigério. O boêmio bissexto disputa espaço com o boêmio profissional. Domingo é positivamente o dia dos bissextos seja ele boêmio, churrasqueiro ou devoto, esse último busca a missa tentando cumprir o terceiro mandamento em troca da indulgência divina. Vale tudo para a salvação.


Mas é em casa que o sumo do domingo é de fato extraído, logo ali, nos corredores, tropeça-se em um monte de saudade. Saudade dos almoços na casa dos avós, da família reunida, dos abraços e dos sorrisos, das panelas chiando, das tampinhas de cerveja rolando pelo chão quente, da mesa farta. Domingo é dia de festa, ainda que silenciosa, ainda que interior, ainda que solitária. Enquanto escrevo esse parágrafo João Bosco executa com perfeição seus acordes dissonantes e me transporta direto para os melhores domingos que já vivi. Salve os domingos!


O dia escoa, o sol ameniza, as ruas fazem uso do silêncio outorgado pelo recolhimento nos lares. Alguns mais valentes aproveitam e ousam uma atividade física antes que o sol encerre o expediente, já outros, lotam os shoppings em busca de comida e entretenimento artificiais. A melancolia que na infância era trazida pela volta da casa de minha avó aoO cair da tarde agora começa a germinar no subconsciente ornada por um belo pôr do sol. Passa-se a pensar na semana que logo iniciará, nas tarefas a cumprir, nas contas a pagar, nos medos e anseios, será que tudo realmente dará certo? Será que estou sendo o bastante? Será que sobrou algo do almoço? Indagações típicas de um domingo terminal.


A festa e o luto, o sagrado e o profano de modo tão peculiar se amontoam pela sala de estar. Como podem alegria e melancolia caberem tão bem em um só dia? Sob essa perspectiva contemplamos vários dias dentro de um só. Tenho me programado para daqui oitenta anos morrer em um domingo. Assim, meus convidados poderão beber o morto à lá vontê e ao cair da noite, tomados pela analgesia dominical, chorar a partida sem vergonha ou sem culpa, e após, na segunda, viverem suas vidas. O fim perfeito.


Mas até lá, vivamos. Domingo é o dia mais cheio de vida dentro da semana e exatamente por isso o mais esperado. O dia só finda para nos lembrar que nenhuma felicidade é eterna, mas que a tristeza também termina, pois logo ali, após seis dias, ele chega novamente, aguça nossos sentidos, acalenta nossa alma, nos traz lembranças caríssimas ao espírito e nos abandona silenciosos e pensativos ansiando pela sua volta.


E assim, como um domingo, eu gostaria que fosse essa primeira crônica neste periódico. Alegre e melancólica, pois a alegria só é bonita quando acompanhada de uma pitada de tristeza.


Semana que vem nos encontramos. Até!   





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Toni Remigio
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