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A morte do boto e a agonia do STF

Pesquisa AtlasIntel/Estadão mostra André Mendonça como o único juiz da Corte que tem avaliação popular positiva maior que negativa

 “(...) o atual Pretório Excelso pegou
fama como o pior tribunal de todos os tempos”.
Elio Gaspari



Um axioma da cidade: a soma de chuvas torrenciais com alta das marés resulta em caos urbano na capital paraense. Dito isso, Belém viveu mais uma semana típica do “inverno amazônico" diante desse cenário instalado. Há décadas.


Engarrafamentos, ruas alagadas, bueiros entupidos, população exasperada e motoristas à beira de ataques de nervos. Nada de novo no front, portanto, como se viu.


Desta feita, o ineditismo se deu pela notícia de que um boto da espécie cor-de-rosa fora encontrado quase agonizando no canal União, um braço do rio Tucunduba, provavelmente levado até ali pelas supracitadas chuvas e maré alta.


Marco
O canal é localizado no bairro do Marco, o mesmo que, na sua região mais vulnerável, aquela que faz fronteira com os vizinhos Canudos e Terra Firme, sofre há décadas com a falta de saneamento básico e as fortes chuvas da época.


Viral
Em meio a viralização da inusitada notícia, vez que algo ainda surpreenda alguém nesta paisagem subdesenvolvida e equatorial, fez-se a célere e variada repercussão.


Folclore
Memes, debates, suspeitas e, evidente, versões sobre o folclórico mito do boto fizeram a festa de belenenses e moradores da sua região metropolitana até a revelação de que o cetáceo era fêmea e, em seguida, que não resistira às consequências da errática escolha que o levara até o canal e a nêmesis que a mãe natureza e mão do homem lhe infligiram.


Fêmea

Confirmada a informação de que a espécie não viera atrás de engravidar nenhuma moçoila desavisada, posto que tratava-se de uma fêmea, as ilações e especulações passaram a gravitar em como o animal chegara até o local inóspito responsável por seu calvário e falecimento.


Especialistas
Após o resgate por bombeiros e biólogos da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), a fêmea fora levada para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e, em seguida, até o Instituto Bicho D'Água, em Castanhal.


Sobre o ineditismo, especialistas reforçaram a questão do impacto da urbanização e das mudanças climáticas na desorientação desses animais em áreas urbanas.


Inverno do boto
Tivesse acontecido algo análogo no Rio de Janeiro, e lá iam os irreverentes cariocas associarem a temporada ao fato inusitado. Por aqui fica a certeza de que este período chuvoso ficará marcado, para além dos transtornos, como o inverno do boto.


Inferno astral

A semana seguiu no restante do Brasil com mais uma canetada estupefaciente de Gilmar Mendes, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), anulando a quebra de sigilo do fundo de investimento Arleen.


O Arllen foi quem comprou, em 2021, de dois irmãos do ministro Dias Toffoli, parte das cotas que eles tinham no Tayayá, o paradisíaco e agora famigerado resort na fronteira entre Paraná e São Paulo.


Reag e PCC
O fundo, cumpre lembrar, era administrado pela Reag Investimentos, aquela mesma corretora controladora de um fundo que recebeu mais de um bilhão de reais de empresas ligadas à lavagem de dinheiro do PCC, e cujos dados foram recebidos (e divulgados) pela CPI do Crime Organizado.


Pesquisa
Na sexta-feira, 20, foi divulgada pesquisa realizada em parceria pela AtlasIntel/Estadão mostrando que o único juiz do STF que tem avaliação popular positiva maior que negativa é André Mendonça. Ponto.


Descrença
Moral da história: No STF, André Mendonça tem melhor avaliação e Dias Toffoli é o mais rejeitado. Para 66% dos entrevistados, ministros do STF têm envolvimento no caso Master. Apenas 14,9% rejeitam essa hipótese, enquanto 18,9% dizem não saber.


Desgaste
O desgaste foi intensificado após revelações sobre relações comerciais envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e integrantes do tirbunal. O levantamento também indica que a desconfiança em relação ao caso não se limita à hipótese de participação direta.


Influência externa
Para 89,9% dos entrevistados, há algum nível de influência externa no julgamento do Master na Corte, enquanto apenas 6,1% consideram que as decisões são estritamente técnicas.


Foram ouvidas 2.090 pessoas entre os dias 16 e 19 de março, por meio de recrutamento digital aleatório, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.


Elio e Merval
As edições impressa e online de O Globo deste domingo, 22, trouxeram mais uma evidência de que a paciência com os mandos e desmandos de parte da Corte Suprema, tanto do periódico, quanto de dois dos seus principais colunistas, Elio Gaspari e Merval Pereira, estão minguando a cada semana.


Gilmar e anulação
Na página 2 do primeiro caderno, o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) jogou no ventilador sua impressão fundamentada em empirismo puro e simples: a virada de Gilmar Mendes na Lava-Jato, para supor e intuir que o decano trabalha para anular o “Caso Master”.


Futurologia
Em exercício de futurologia, imaginar mais um caso de impunidade entre criminosos do colarinho branco só vai agravar ainda mais essa descrença na mais importante corte de justiça do arcabouço institucional do país. Agravar e tencionar, diga-se de passagem.


Pesadelo
Afinal, de instituição garantidora dos direitos e deveres constitucionais do cidadão, a Suprema Corte vive seu inferno astral e pior momento desde, no mínimo, a redemocratização do Brasil e a promulgação da Constituição Federal de 1988.


O pior
Para completar a exasperação, Elio Gaspari, acusado por seus adversários intelectuais de ser Lula até o último fio dos seus escassos cabelos grisalhos, se sai com essa de que o atual Plenário da Corte é considerado o pior de todos os tempos.


Farsa
Para este que vos fala, estimada leitora e caro leitor, que nunca caiu na esparrela de que o carrasco de Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes, fora o guardião da democracia entre os idos de novembro/dezembro de 2022 e o julgamento do 08 de janeiro de 2023, soa como música ler a afirmação na nota derradeira da coluna dominical daquele que é considerado para muitos colegas da segunda mais antiga profissão em terras bananeiras, entre os que ainda habitam este mundo caótico, o GOAT da categoria. Tômate!


Herói
Na certeza qual 2 + 2 são 4, de que se há um herói da infante democracia pátria no crepúsculo do governo de Jair Bolsonaro, este um atende pelo nome de Marco Antônio Freire Gomes, cuja patente é a de general de Exército (quatro estrelas), o qual comandava aquela força militar na hora do pega pra capar, em 2022.


Mas isso é outra história, digo, coluna.


Fui.


 Crédito foto: Victor Piemonte (STF)


Fonte: Pesquisa AtlasIntel/Estadão







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Toni Remigio
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