Primeiras palavras: um amor maior que o Zico.
Meu pai, que tinha 1,60m, foi um gigante para a sua família.
O “Cabeça Branca” foi nessa. Paraibano de Sousa, nascido em 05 de julho de 1940, filho orgulhoso e amoroso de Severino e Eurides Gomes Remigio, Antonio Remigio de Araújo tinha um “grilo”.
Como seu Severino, o patriarca do seu clã, ele achava que morreria cedo; melhor, qual o pai, aos 50 e poucos… Deus, em sua infinita bondade, lhe concedeu viver satisfeito e com alto astral quase até os 85.
Pouco menos de dois meses de completar mais uma primavera, o seu Remigio foi diagnosticado com uma “neoplasia maligna” no fígado… Dali em diante, foram pouco mais de sete meses de pouco sofrimento físico, mas com limitações impostas que foram lhe minando as forças.
Novamente graças a Deus, pouco sofreu, a não ser a imposição de deixar em definitivo seus scotchs, pingas das boas, cervejas “pra lavar”, um vinho aqui, uma champa acolá e outros drinks que pintassem… Ele, que foi arrimo de família desde a partida do pai; que em silêncio tantos ajudou, tinha uma relação muito próxima com o álcool, sem jamais ultrapassar a linha da dependência, amém.
Desde o diagnóstico e iniciado o tratamento, tivemos o seu aniversário, o Dia dos Pais e, em outubro, o Círio de Nazaré com ele fisicamente conosco e as derradeiras chances de homenageá-lo em vida. Logo ele, que a amava tanto e de quem recebera muito.
Sousa, Cajazeiras e Campina Grande
Nascido e criado no alto sertão paraibano, Toinho Remigio era, desde cedo, além de muito trabalhador, um boêmio em formação. Gregário por natureza, muito inteligente, com a morte precoce do pai e o casamento com seu grande amor, minha mãe Lucíola, logo em seguida, sua estrela profissional começou a brilhar.
Contratado pelo Banco Industrial de Campina Grande, em razão das virtudes das quais era dotado, sua lealdade canina aos amigos e patrões, disciplina, capacidade de trabalho e honestidade pessoal, rapidamente galgou postos e fora transferido para a cidade vizinha de Cajazeiras, assumindo a gerência local.
Amigos para sempre
Em Sousa, foi amigo fraterno de um dos seus grandes orgulhos: o advogado, promotor de Justiça e Político com pê maiúsculo Antônio Mariz, que se somava ao médico “Mané Rabin”, Joquinha, Nonato Caboré (também do banco) e outros aos quais peço escusas pelo esquecimento imperdoável.
Eilzo Matos
Ainda entre nós, “mais antigo” que ele, o seu não menos querido amigo Eilzo Matos, intelectual brilhante e Político respeitabilíssimo, com quem falava semanalmente nos últimos anos e sobre o qual me recomendava rotineiramente que o fosse visitar em seu retiro paraibano.
No banco, além dos irmãos Newton e Nivaldo, dos quais dizia, após a venda da casa bancária, sua grande escola: “perdi os patrões e ganhei dois amigos”. O mesmo emprego responsável por dar um cavalo de pau no destino e trazê-lo para outro dos seus maiores e desmedidos amores: Belém do Pará.
Ali ele fez outros amigos de toda a vida; além dos donos, o diretor Edval Carvalho, seu Mesquita e outro dos seus grandes orgulhos, o poeta, advogado e político Ronaldo Cunha Lima. Das três vezes em que esteve em Belém, duas como procurador do banco e a última para ser homenageado pela Academia Paraense de Letras (APL), desta feita como governador da Paraíba, o poeta se hospedou em nossa casa.
Belém, 1969
Em Belém, onde passaria não mais que três anos e ficara 56 completados em janeiro de 2025, ele completara a sua família e, após fazer história na 15 de Novembro em cinco casas bancárias, fez a migração para outro dos seus amores indeléveis: as casas de caça e pesca que comprara ou inaugurara.
As três primeiras foram as Belcapes, contração de Belém, Caça e Pesca, que adquirira de um cliente dos bancos, seu Isaac Bemuyal, em parceria com outro, o advogado, educador e político, dr. Carlos Albuquerque.
Entre 1982 e 2012, ele foi dono das três unidades, da Belcapes Distribuidora, Loja das Armas, Casa do Pescador e Casa das Armas. Gerou dezenas de empregos e fez, como nos bancos, uma linda história.
Autodidata
Se seu xará Antônio Lemos foi um estadista que tinha apenas o liceu, até seus 53 anos, minha idade atual, financeira e profissionalmente falando, meu pai foi cem vezes mais longe que eu, que tenho dois diplomas e uma biblioteca iniciada (e custeada por ele em sua grande maioria) desde os 20.
Para sempre de novo
Aqui, onde optara por encerrar sua passagem por este plano, o Cabeça Branca consolidou sua trajetória de amar a vida, a família, o trabalho, os amigos, travando o bom combate e guardando a sua fé, conforme os ensinamentos do apóstolo Paulo.
Aliás, por falar em fé, ele amava como poucos o Círio de Nazaré. Neste chão que tanto honrou, seguiu construindo amizades para toda a vida, fazendo a sua história e conduzindo a nossa família com honestidade, proteção, conforto e seu exemplo de dignidade, simplicidade e carisma.
Tantas foram as suas relações de afeto, dos que se frequentavam entre si às amizades de rua e comércio, que seria injusto fazer uma lista das dezenas que marcaram as suas relações afetivas, vez que é inevitável os injustos esquecimentos.
Todavia, tão injusto quanto seria não citar aqueles que marcaram sua vida dos momentos mais felizes, àqueles em que a tristeza, infortúnios ou fatalidades, bateram à sua porta.
E, nesse particular, em ordem cronológica, três foram amigos ou compadre de todas as horas: Francisco Pio, Marcos Marcelino e José Barros. Todos inseparáveis até o fim, sem rusgas ou asteriscos. Fraternos e inesquecíveis. Dos três, apenas seu compadre Barros não era nordestino, vale o registro. In memoriam, citaria os saudosos tio Adelsígio, meu padrinho, Adilson Dourado, Rivail Teixeira e Pedro Lima.
Carta ao Pai
Papai,
Então chegou a hora do seu encontro tão desejado - esperamos nós -, com seu pai, vovó Eurides, tio Zé, tio Chico, tia Marlene e tanta gente boa que nunca saiu do seu coração. Por aqui, seguimos prenhes de orgulho, amor e gratidão ao Senhor Deus pela sua vida e partida menos sofrida o possível, amém.
Sei que quando “cair a ficha”, o senhor só terá cabeça para pensar em como a mamãe está. Dada a personalidade dela, que o senhor conhece melhor que todos nós juntos, difícil falar. Mas, com o seu neto Tony e a sua neta Tuttynha por perto, tudo vai ficar mais fácil ou menos sofrido.
Não esqueça que, de lambuja, tem o Pedro, carinhoso e atencioso como poucos, em São Paulo, a menina Alice, nos enchendo (como o irmão) de muito orgulho lá da Califórnia, as pequenas paixões dela, as Marias Beatriz e Antônia e, agora, o nosso rubro-negro Tomás, seu primeiro bisneto e o trineto precursor de dona Eurides.
Aliás, a nossa caçulinha, que não deixa de ser uma homenagem da sua amada nora Bruna ao senhor também, foi responsável pela última alegria sua aqui diante de mim, na sexta-feira, 05, quando lhe mostrei o vídeo dela cantando um canto do Mengão. A sua emoção ao assistir será a minha última lembrança do seu sorriso de piano ao vivo e a cores.
A despedida
Sua “última dança” foi à altura do seu merecimento. Por aqui, não faltaram emoções e gestos de apreço de quem tanto importava para o senhor. Nossa prima Holena, doce como sempre, fez-lhe uma linda homenagem.
Os filhos do seu Pio, Wilton (com a Socorro) e Ricardo foram lhe abraçar. Emocionadíssimo, com toda a dificuldade de mobilidade, Alexandre, com dona Graça e Viviane, também estiveram lá. Wanildinho, Mário Sérgio e Germana, representando meus queridos padrinhos Wanildo e Luzinete, também.
Seu Luís Soares e Gustavo, seu Djalma, o Acácio, seu inquilino por décadas, a filha do Nelson (CBC), Edgar, tanta gente querida que soube e também lhe deu um último tchau. E mais gente querida que agora a memória me trai.
Da outrora jovem guarda, já sabia que o brilhante Floriano gostava do senhor, mas não que era tanto. As homenagens e carinho dele não cessam. Mauricinho, Jacob, Marcelo, Alex, Faciola, Fábio (s), Paulinho, Isaac, Fernando, Frederico, Romeu, Mark, não faltaram amigos (as) conosco. Nicole e filha, Ana Bethânia… Quem soube e pôde, esteve lá.
Toninho e Dione, pelos quais o senhor tinha tanto afeto, lhe cercaram de carinho dia e à noite. Seus afilhados queridos Silvinha (com a Luciana) e Guga também estiveram lá nos comovendo a todos. Meu grande amigo Leonardo, que lhe apresentei no batizado da Tonton, foi lá lhe dizer adeus. Sua esposa, a querida Paula, sua bem sucedida colega de banco, fez uma linda homenagem no Instagram.
A emoção de todos, do Dr. Barros, sempre durão, e da dona Alacir, foram tocantes. Seus queridos vizinhos de Salinas, dona Graça e o dr Francisco Rocha, acompanhados do Carlos e Luís Alberto, também foram lhe dar o último abraço. Nosso amigo Denis Cavalcante, emocionado, também foi lá.
Sua querida amiga Vânia Augusta e os meus também consogros Auricélia e Jorge, e Eliana, ao lado da minha norinha Leli, Rodrigo, marido da Tutty, também se despediram. Zé Paulo, que o conhecia dos tempos do seu amigo Alberto Bendaham, foi outro a ir lhe abraçar.
Homenagens
O querido Rominho fez um registro carinhoso e inesquecível, como sempre, aliás, renovando os laços de amizade iniciado com o pai dele, a quem o senhor tanto admirava e era grato.
Emoção pra valer nos causaram os textos escritos pela Tutty, Tony e Bruna no Instagram. Haja coração…
A CDL e federações, a Taurus, enfim, foram muitas as emoções…Com receio da memória me trair, melhor parar por aqui.
Sobre nós, renovo aqui minha realização pessoal como filho. Como o senhor sempre dizia nos momentos de gáudio, “Deus foi bom pra mim” para além do dom da vida, me mandando neste mundo caótico o senhor e a mamãe como progenitores.
Ensinamentos
O senhor me ensinou a amar as nossas raízes para, ao cabo e ao fim, me dizer que era seu filho mais paraibano, uma honra e tanto pra mim. Na esteira, amar a família, ter fé, ser justo, não invejar a posse alheia e ir atrás dos meus sonhos…
Na sua prateleira, descobri a primeira edição dos clássicos da literatura da Abril, aqueles vermelhões dos anos 1970 e, talvez, daí tenha me distanciado do seu sonho de me fazer bacharel… esperança essa confirmada pelo seu grande orgulho e amor, seu neto Tony.
Entre 1972 e 1982, quando “era do banco”, nos víamos aos sábados e domingos, e foi quando o senhor me apresentou Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Tom e Vinícius, Nelson Gonçalves, Frank Sinatra, Dick Farney, Chico, Gil, Caetano e tutti quanti.
The Godfather
Lembro de uma madrugada, em Salinas, pelos idos de 1980, em que o senhor recomendou com emoção que assistisse O Poderoso Chefão I, saga que era mais que uma paixão sua, quase obsessão.
Em língua portuguesa, o senhor decerto tinha todos os livros do coautor do roteiro do filme, inspirado em seu livro, o escritor ítalo-americano Mario Puzo. Evidente que lemos todos…
Num dos dias em que comecei a partir, seu aniversário de 42 anos, em 05 de julho de 1982, tive meu pedido aceito e o almoço foi cozidão.
O que era para ser mais uma consagração da minha eterna seleção, virou a "Tragédia do Sarriá" e o escrete canarinho que encantava o mundo perderia para a Itália a vaga nas semifinais da Copa da Espanha. Inesquecível para mim.
Das lembranças que trago na vida… o senhor foi um pai herói do garoto e do adulto. A nossa “breve separação”, entre meus 20 e poucos anos, ficou para trás e o senhor tinha razão em quase tudo, o que lhe disse em vida.
Nosso gigante,
Tantas são as estórias que chamei este texto de “primeiras palavras”. Começo a me despedir lembrando das suas cenas de ciúmes quando confrontado com as minhas paixões clubísticas, intelectuais ou políticas.
Nos idos de 1978, uma cizânia num jogo de botão entre Palmeiras e outro time, fez o senhor sair em minha defesa e me apresentar o Mais Querido.
“Toni, por que você não torce pelo Flamengo? A camisa é linda, tem um super craque - o maior do Brasil, senão do mundo, o Zico - , é da cidade mais linda de todas, o Rio de Janeiro, e tem a torcida mais encantadora jamais vista?”
“Flamengo? Zico? Cadê?”
Tamanho foi meu amor à primeira vista, meu fanatismo pelo “Camisa 10 da Gávea”, que muitas vezes penso que o senhor tinha um leve arrependimento…
“Toni, você morre pelo Flamengo, mas o Flamengo não morre por você.” Quantas vezes o senhor me disse isso?
Paulo Francis? “Um vi$&**%”. Roberto Campos?, “Putanheiro, tínhamos um amigo em comum”. Carlos Lacerda?, “doido, um talento desperdiçado.”
ACM dizia que ciúme de homem é pior do que de mulher. Era ciúme do velho Remigio, tanto do semideus Zico, quanto dos gurus.
Papai, paro por aqui, pedindo desculpas pelos esquecimentos e, sobretudo, pelos meus erros.
O Senhor Deus teve piedade de mim até hoje me livrando incólume dos acidentes de carro, dos covardes da vida e até das ameaças de morte, quando tive armas apontadas pra mim em assaltos e na mira de um psicopata covarde, repito.
Mas foi pelas suas mãos, em todos os momentos, que Ele me salvou.
Ele e você NUNCA nos faltaram.
Quanto ao meu amor pelo senhor, fique tranquilo, pois nunca deu pra comparar qualquer outro ou gratidão, ao que sinto pelo senhor e a mamãe, ainda que diga que os maiores amores que recebi na vida foram da vovó Eurides e da Mel Catarina.
Não que o senhor e mamãe não fossem quase perfeitos quanto a isso, ocorre que elas duas, em matéria de amor por mim, não são deste mundo…
Com menção especial às tias Erivan e Baizinha (cupido e sua grande amiga), tios Luécio e Chico Queiroga; Tetela, vovó Dulce e vovô Zaqueu, vou ficando por aqui, registrando ainda todo meu amor pela sua família, da tia Zeneida, Jojó, Ângelo, Maninha, Josilda, Joselma (maridos, esposa e filhos), passando pela brilhante Mirella, chegando em Mariana, a caçula de Pacelli e Aurora.
E menções também honrosas aos seus primos Nêgo e o grande Jovaldo, o mais ilustre membro da família Gomes.
Ia me esquecendo dos abraços do Zé Olímpio e Felipe (com namorada), Jairton, Valéria, Jamile e marido, aos quais somo o lindo depoimento por whatsapp do tio Joaquim revelando, nesta altura do campeonato, mais um gesto nobre seu há mais de 50 anos.
Seu filho caçula, que carrega seu nome, regozijado, lhe digo:
Até um dia! Sempre seu e para sempre seu (como diria Churchill), a quem o senhor passou a admirar após meu livro sobre ele, que não deixou de salvar a minha vida também,
Antonio Remigio de Araújo Filho, Toni.
