Precisamos falar sobre Danilo
Eu sei, precisávamos falar sobre o Flamengo. Mas como boa discípula de Nelson Rodrigues que sou, preciso, e prefiro, escolher meu “personagem da semana”, como meu Deus literário costumava fazer em suas crônicas esportivas.
Assim, meu personagem da semana, a despeito do ranço que tenho pelo time pelo rubro-negro, precisa ser ele: Danilo! O autor do gol que deu o quarto título da Libertadores ao Flamengo merece todos os holofotes, não só pela predestinação em jogos decisivos. Antes do gol do título contra o Palmeiras, ele já havia feito dois gols que valeram troféus, no mesmo ano de 2011: o do Sul-Americano, pela Seleção Brasileira sub-20, e o da Libertadores da América, pelo Santos.
Mas o zagueiro predestinado, raçudo, bem posicionado, que esbanja visão tática e senso de liderança, é também um jogador “fora da caixinha”, como se costuma dizer. Dessas preciosidades que eu tenho vontade de guardar na prateleira mais alta dos personagens do mundo da bola.
Durante essa semana, ao ser questionado por um repórter como se sentia ao ser o primeiro bicampeão da Libertadores e Champions League, Danilo citou o que a atriz norte-americana Viola Davis publicou em seu livro, algo como: “Só depois tive a consciência da minha importância”
A declaração de Danilo ganhou as redes sociais porque não é todo dia que se vê um jogador de futebol usando referências literárias em suas entrevistas. Mas Danilo é joia rara entre os boleiros. Recentemente, ao responder a uma enquete sobre o que não poderia faltar na mala de viagem, disparou mais uma cabeçada certeira: “livro!”
E o mais simbólico desse episódio, no qual Danilo referenciou Viola Davis, foi perceber que na semana em que o Brasil se estarreceu diante de tantos casos de feminicídios pelo país, um jogador de futebol citou uma mulher como inspiração e objeto de sua admiração. Um gol de placa genuinamente belo, porque Danilo o fez simplesmente porque é o que é: atento, sensível, assertivo, um jogador da mais fina estirpe no campo dos neurônios.
Confesso que não sabia quase nada do zagueiro antes dessa declaração, que me fez cócegas na alma. Fui pesquisar sobre ele e, cataploft!, Danilo é mineiro, como todos os poetas e músicos da minha paixão ? Como dizem os mineiros, em seu “égua” de admiração: “nuuuh!” Êta turma boa de me arrebatar, sô!
Que esse mineiro diferenciado, que carrega o número 13 nas costas da camisa rubro-negra, inspire outros jogadores. Mostrando ao mundo da bola que dá pra ler, escrever, ser articulado, e jogar futebol de alto rendimento. Fazendo a diferença dentro e fora de campo.
Crédito imagem: reprodução Instagram do atleta.
