O utilitarista: Davi Alcolumbre, o prodígio do baixo clero e do fisiologismo que chegou lá.
A piauí de abril e o perfil do senador pelo Amapá que atormenta e é atormentado pelos caminhos e escolhas no poder central na capital federal.
Quem classificou o
presidente do Congresso Nacional, senador pelo Amapá e filiado ao
União Brasil, Davi Alcolumbre, de “utilitarista”, foi o seu ex-colega de partido, Onyx
Lorenzoni, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
No Dicionário Oxford Languages constam duas definições para o vocábulo:
de utilitarista
1.1. relativo ao ou próprio do utilitarismo.
1.2. adjetivo e substantivo de dois gêneros; adepto do utilitarismo; utilitário.
Tradução
Com sua
alegria de viver, carisma, simpatia, alto astral e bom humor, o
político chegou a Brasília após ser eleito deputado federal pela
primeira vez, em 2002, ano do penta, se comportando como um
verdadeiro mister simpatia para uns e, pelo que também se depreende
da matéria, "bobo da corte", para outros. Enfim, querendo
agradar a todo mundo, desde que este agrado lhe trouxesse algum
benefício. Eis o utilitarismo.
Derrota e senso
de oportunidade
E pelo visto, nunca pensou que fosse chegar
tão longe, sobretudo após uma derrota pra lá de dolorosa, em 2018,
quando perdera a disputa ao governo do estado, e viu seu futuro
político ameaçado de maneira real.
Baixo e sem
voz
Empossado em Brasília pela primeira vez em 2003, a reportagem da revista piauí,
edição 235, de abril de 2026, assinada pelos repórteres Camille
Lichotti e Allan de Abreu, destaca que ele começou sua carreira de
parlamentar federal integrando o chamado baixo clero, “formado pela
massa de parlamentares que atuam com a precisão das águias na
defesa de seus interesses, mas não têm voz nas grandes questões
nacionais”, diz o texto.
Com quem andas
Davi iniciou em Brasília como aprendiz, boy de luxo,
carregador de pasta, do então ainda todo poderoso senador José
Sarney, aquele do Centrão, da hiperinflação, que terminou seu
governo tão impopular, que viu na mudança de domicílio eleitoral
para o “estado feudal” de Alcolumbre, o Amapá, uma saída para fugir do ostracismo que se avizinhava.
Quando Alcolumbre chegou à
capital federal, “(..) sua principal ocupação era servir de
mensageiro do ex-presidente José Sarney, seu mentor e aliado no
Amapá. Ele frequentava ministérios e gabinetes, resolvendo
demandas do ex-presidente”, revela a matéria. “Era
convidado para as reuniões, festas e jantares na casa de Sarney, nos
quais não dava palpite, mas observava a atuação dos cardeais da
política”, acrescenta o texto.
Nossa opinião
inicial:
É inequívoco, que fruto das dualidades mundanas,
finalizadas as vinte e duas laudas da reportagem, pode-se traçar um
perfil político de Davi Alcolumbre como um multimilionário em poder
e influência na seara política.
Para tanto, basta fundamentar-se no
fato de que, sobre a escola que escolheu seguir na Câmara Alta, ele
aprendeu como usar o poder de fato - quase o “poder total” - nos
caminhos da “pantanosa”, além de seca Brasília, qual um
“coronel”, oligarca, fisiológico, clientelista e adepto do patrimonialismo típico e registrado na obra sociológica brasileira do século XX.
Vencedor
Davi,
até aqui, chegou lá, ainda mais, vez que se olhe para o estado minúsculo
e periférico em importância e poder político que, até o governo
herdado de José Sarney, fora um antigo Território Federal com
indicadores de pobreza e baixa densidade demográfica, sempre
oscilando entre os últimos dentre as unidades da federação, nos
índices socioeconômicos dispostos no IBGE.
“Fenômeno”
Dito isso, nesses perfis já tradicionais da publicação que vai completar duas décadas de existência em outubro deste 2026, chamados de “Vultos da república”, que já ajudaram a derrubar ou revelar figurões e seus negócios pra lá de suspeitos, lê-se que suspeitas e acusações de participação em escândalos e versões mal contadas, acompanham a vida pública de Davi Alcolumbre desde que elegera-se em 2002 deputado federal, então no meio do seu primeiro mandato político como vereador de Macapá.
Brasil brasileiro
Com o que fora revelado ali, um forasteiro ou ET que seja capaz de ler a reportagem da revista, decerto restará incrédulo como pode um político que se diz novo, com práticas tão velhas, ter chegado tão longe. Todavia, não fossem as escolhas dos seus pares e apoiadores, jamais ele teria sido eleito presidente do Senado, sendo eleito novamente seis anos depois.
De trás pra frente,
não há confusão das grandes em que não apareçam as suas
digitais, quer nos bastidores, quer por meio dos seus indicados,
parentes e prepostos. Para ele, não existe essa de vácuo de poder. Sua sede por
cargos e defesa de interesses pessoais e verbas é reconhecida em todos os
espectros da política brasiliense; do Parlamento, ao Executivo,
passando pelo trânsito, desenvoltura e relacionamento com amplos setores do
Judiciário.
Onipresente
No
perfil de fôlego, padrão piauí, a questão fática, a quantidade
de provas documentais citadas, os testemunhos em “on e off”, votações e
negociações públicas e políticas que resultaram em Orçamento
Secreto, Emendas do Relator, duto de 28 bilhões em verbas públicas e sobre o qual não se sabe para onde foi.
Mais recentemente, os escândalos do INSS e do Banco Master. Com efeito, para onde quer que se aponte, enfim, Davi Alcolumbre tem seu nome citado direta ou indiretamente.
Na parte final da
matéria há uma constatação fática - mais uma -, e a conexão
com a obra seminal sobre a figura do coronel, do saudoso e eminente
Victor Nunes Leal. Seu livro, "Coronelismo, enxada e voto", de 1948. Das ironias e
coincidências da vida, o autor foi ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), cassado pelo AI-5, de 13 de dezembro de 1968,
publicado naquela noite, data e período do nascimento de Alexandre de
Moraes, o supremo enrolado até o último fio raspado da sua careca “estilo
Ronaldinho”, no escândalo do Banco Master, segundo revelado pelo
jornalista Augusto Nunes. O trecho:
Governador de
facto
“Com sua influência no governo local, nos
principais órgãos de controle e na Justiça estadual, com seus
aliados ocupando cargos em empresas públicas e autarquias e seus
múltiplos tentáculos em Brasília, e com sua notável “política
de grupo, de entrega”, Alcolumbre é tratado como governador de
facto do Amapá, reavivando a figura histórica do coronel, descrita
no clássico Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal.
Gravíssimas
No
que se refere às revelações e rolos com
dinheiro público que constam no texto,desde que Alcolumbre fora
eleito deputado federal em 2002, é óbvio que tratam-se de
questões delicadas e comprometedoras sobre a sua atuação pública.
O modus operandi
e as consequências, pra citar somente estes dois últimos
escândalos, o do INSS e do Master, a parceria com o Careca do INSS,
o rombo (ou roubo) de 400 milhões no Instituto de Previdência do
Amapá, ambos dão uma breve medida das razões que o fizeram e fazem
conspirar contra a CPI que se encerrou, do INSS.
Da mesma forma, a que ele veta dia e noite, a do Master, o banco responsável pelo rombo de (ou roubo) de 50 bilhões e suas festas, surubas e conexões pra lá de tóxicas e lesivas ao interesse coletivo à aposentadoria de incautos idosos e toda sorte de investidores lesados.
Dual
Seu retrato é traçado contando as origens da sua família em Macapá, seu lado bonachão e o inverso, levando à reflexão de que na vida, de nada adianta apenas apontar o dedo se achando capaz de definir alguém.
Afinal, quem somos nós? Numa
democracia de verdade, resta ao cidadão ter direito de opinião. E como disse Einstein, tudo é relativo.
Davi Alcolumbre é
um fenômeno político e isso já se disse aqui. Todavia, antes de
passar ao que reproduz a reportagem como um todo, convém destacar duas
passagens do texto que tratam da promessa de campanha e da primeira
fala do senador após a primeira vitória, aquela de 2019.
Discurso novo
Primeiro, após eleito em 2019 presidente do Senado, a afirmação de que ele
prometia acabar com a divisão entre alto e baixo cleros, atendendo
aos pares de maneira igualitária quando “pedia uma chance para renovar a
política, apresentando-se como um jovem senador cheio de energia”, diz a revista.
Velhas
práticas
Segundo, também revela o texto, "(sentado) na cadeira
de presidente, tomou ar, suspirou aliviado, foi aplaudido de pé pelo
plenário e, em seu primeiro pronunciamento, apresentou-se como o que
há de novo na política do país, prometendo superar ‘os conchavos
das elites partidárias’”.
Donde se constata, ao ler a reportagem, que ele agia e permanece agindo exatamente de maneira contrária, empiricamente falando, em seu estilo de presidir o
Senado federal.
Com vocês, um resumo das 22 laudas (fonte arial 11) do perfil de Davi Alcolumbre.
O bonachão
“O senador Davi Alcolumbre é um bonachão. Gosta de boa comida, boa bebida, música alegre. Na juventude, depois de encerrar o expediente na loja dos seus pais, a Shalom Autopeças, ligava as caixas de som automotivo e convocava os amigos para uma festa com música alta e bebida farta ali mesmo, na calçada da loja”.
Esse é um
Davi Alcolumbre, o bonachão. Há outro.
Beto
Louco
Segundo o portal UOL, as canetas Mounjaro que ele
distribhuía entre colegas a partir de 2023, eram presentes de um
personagem radioativo, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva,
conhecido como Beto Louco, hoje foragido da Justiça por falcatruas
no mercado de combustíveis e suspeitas de ligações com o Primeiro
Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país.
Era, outra vez, uma modesta mostra de sua rede explosiva de relações
pessoais.
Cartão de
visitas
Logo na estreia em Brasília, seu nome apareceu
em gravações interceptadas pela Polícia Federal, nas quais o então
prefeito de Macapá e um empresário atribuíam ao jovem deputado a
definição de valores de emendas parlamentares destinadas a obras
públicas com licitações fraudulentas. A investigação não
avançou.
Em 2013, reapareceu em interceptações telefônicas, desta vez em conversa com o doleiro Fayed Traboulsi, participando de um esquema de lavagem de dinheiro e desvios de fundos de pensão. As provas acabaram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.
Davi, primo de
Pierre
David Samuel Alcolumbre Tobelem – ele usa a
grafia “Davi” e o sobrenome da mãe – vem de uma família de
judeus marroquinos que chegaram ao Brasil no início do século XX.
No Amapá, a
família Alcolumbre transformou-se numa potência local. Tem 35
empresas em atividade, cujo capital social remonta a 35 milhões de
reais. O império dos Alcolumbre inclui 16 postos de combustíveis, 4
emissoras de rádio e tevê, 1 construtora, 1 metalúrgica, 4
empresas agropecuárias, 4 imobiliárias, lojas de variedades, 1
supermercado, 1 terminal portuário, 1 factoring e até 1 cemitério.
Da penca de tios
e primos, Alcolumbre se aproximou de Pierre, filho do tio Alberto.
Ele foi registrado em cartório como filho dos avós – razão pela
qual é chamado de “tio Pierre”, quando na verdade é primo. O
patrimônio de Pierre explodiu depois da primeira eleição de
Alcolumbre para deputado federal, em 2002.
Das dezenove
empresas em seu nome e de seus filhos, catorze foram abertas a partir
de 2003, com um capital social, somado, de 19 milhões de reais. São
imóveis rurais de quase 10 mil hectares, parte deles sobrepostos a
um assentamento rural do Incra e a um quilombo. Uma parte das terras
foi adquirida por Pierre com depósitos de dinheiro vivo na boca do
caixa, feitos em Belém por uma beneficiária do auxílio emergencial
pago durante a pandemia de Covid.
Derrota e
depré
Depois de quatro anos de uma atuação tímida no
Senado, Alcolumbre lançou-se candidato ao governo do Amapá –
cargo que almeja desde o início da vida pública.
O baque
Um mês depois, o primo Pierre teve motivos para comemorar: comprou, de uma só vez, seis salas comerciais no sétimo andar do edifício The Office Araguary, um dos mais modernos da capital amapaense. Pagou a módica quantia de 700 mil reais à vista e em dinheiro vivo, de acordo com as escrituras registradas em cartório.
Em uma das salas funciona o escritório político de Alcolumbre. Sete pessoas ouvidas pela piauí sob anonimato para evitar retaliações afirmam que Pierre, na prática, opera em nome de Alcolumbre nos negócios.
Apesar da
derrota, Alcolumbre também ganhou motivos para celebrar no final da
campanha de 2018. Ele soube, dias depois, que ele precisaria assumir
a presidência do Senado interinamente, já que era o terceiro
suplente da Mesa Diretora e todos os demais senadores na linha de
sucessão haviam perdido o mandato nas urnas.
No final do ano,
durante um jantar, chamou num canto o colega gaúcho Onyx Lorenzoni,
futuro ministro da Casa Civil, e plantou a semente: Será que o
futuro presidente Jair Bolsonaro não gostaria de apoiá-lo à
presidência do Senado? No dia seguinte, Lorenzoni levou a proposta a
Bolsonaro, que nem se lembrava do senador amapaense e hesitou.
“Chefe, deixa
eu dizer uma coisa para o senhor: o maior construtor de relações do
Congresso se chama Davi Alcolumbre”, Lorenzoni lembra de ter dito.
“É um craque. Ele abraça todo mundo e as pessoas gostam dele de
graça.”
Alcolumbre
prometia acabar com a divisão entre alto e baixo cleros e atender
todos os colegas de maneira igualitária. Pedia uma chance para
renovar a política, apresentando-se como um jovem senador cheio de
energia.
Escola pefelista
Na cadeira de
presidente, disse: “Obrigado, meu Deus”, finalizou, com a voz
embargada. “Me dê sabedoria para daqui desta Mesa conduzir o
destino do Brasil.”
Assumiu o posto como quem dirige um trator. Demitiu, de uma só vez, 150 funcionários do Senado, incluindo até garçons, o pessoal da copa e servidores ligados a políticos do MDB.
Fatura e
utilitarismo
Nos primeiros
meses do novo comando do Senado, Lorenzoni, já empossado na Casa
Civil, entendeu que o apoio de Alcolumbre não era gratuito. A conta
chegou assim que o governo de Bolsonaro começou a colher os
resultados positivos da aliança com o senador.
“Como ele é
um utilitarista, para trabalhar tem que ter a diretoria de não sei
do quê, da Caixa Econômica, do Banco do Brasil… Se puder, ele
pede o lugar inteiro”, disse Lorenzoni à piauí em julho passado,
num café de Brasília. “Naquela época, o Davi queria o mundo.”
Emplacou aliados
na Agência Nacional de Mineração, no Conselho Nacional do
Ministério Público, na Agência Nacional de Saúde Suplementar, no
Banco do Brasil, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, na
Comissão de Valores Mobiliários, na Agência Nacional do Petróleo,
nos Correios, na Agência Nacional de Telecomunicações e segue a
lista.
Nasce o
orçamento secreto
De saída, reuniu os líderes dos
partidos e anunciou que tinha 150 milhões de reais em emendas “dele”
para cada bancada distribuir entre seus integrantes, o que dava cerca
de 2 milhões por senador. Orientou que cada um fizesse as indicações
do destino do dinheiro por meio de ofícios. Era o embrião do que
mais tarde viria a ser conhecido como “orçamento secreto.
Também conseguiu aprovar um projeto de sua autoria que
incluiu o Amapá na área de atuação da Codevasf, a principal
destinatária das emendas do orçamento secreto.
À semelhança do
que o deputado Arthur Lira (PP-AL) fazia na presidência da Câmara,
Alcolumbre também integrou a turma que promoveu uma farra ilimitada
no Congresso com os recursos orçamentários.
Farra de
28 bi
Calcula-se que, entre 2020 e 2022, período em que
existiam as chamadas “emendas de relator”, cerca de 28 bilhões
de reais saíram pelo escaninho do orçamento secreto, ou seja, verba
que os parlamentares despachavam para onde bem entendessem sem ter
que se identificar, com sinais eloquentes de desvios do dinheiro pelo
meio do caminho.
Emendas de
Comissão
Assim, em fevereiro de 2021, quando deixou a
presidência do Senado e tomou posse no comando da Comissão de
Constituição e Justiça, Alcolumbre manteve seus métodos e seu
controle na distribuição das emendas. Quando não era atendido em
seus pleitos junto ao governo, jogava pesado.
Mendonça e
Aras
No movimento mais evidente de sua gestão na CCJ,
travou por quase cinco meses a votação da indicação de André
Mendonça para ministro do STF. Queria que o indicado fosse Augusto
Aras, então procurador-geral da República. (Até hoje, o ministro
André Mendonça e o senador não se bicam.
Rachadinha
A
passagem de Davi Alcolumbre pela presidência do Senado ocupou muitas
páginas do noticiário político, mas também foi generosa em
notícias policiais. Seu gabinete, por exemplo, chegou a ser flagrado
aplicando o golpe da rachadinha, o mesmo que alçou à fama o senador
Flávio Bolsonaro.
Rememorando: o
parlamentar contrata alguém para trabalhar em seu gabinete por um
determinado salário, mas pede que o novo funcionário devolva todos
os meses uma parte da remuneração. Seis mulheres pobres, moradoras
dos arredores de Brasília, contaram à revista Veja, em reportagem
publicada em 2021, que aderiram a uma proposta de rachadinha feita
pelo senador e seu chefe de gabinete da época, Paulo Boudens.
Como
o nome de Alcolumbre surgiu em meio à investigação, a Polícia
Legislativa teve de encaminhar as informações coletadas à
Procuradoria-Geral da República, na época chefiada pelo amigão
Augusto Aras. O órgão, por sua vez, excluiu Alcolumbre da
investigação e fez um acordo com seu chefe de gabinete, que pagou 2
milhões de reais à União em troca da suspensão do caso.
INSS e Master
Os
nomes do senador e aliados aparecem também em dois dos maiores casos
de corrupção em curso no país: o desfalque do INSS e a fraude
histórica do Banco Master. Em agosto do ano passado, quando
tentava salvar seu banco da liquidação, o banqueiro Daniel Vorcaro
apareceu na residência oficial de Alcolumbre, de onde saiu à
meia-noite.
Depois, em troca de mensagens acessadas pela Polícia Federal,
Vorcaro comentou que a reunião fora boa e mencionou que um novo
encontro aconteceria dias depois. A intimidade entre o senador e o banqueiro não é o único laço.
O nome de Alcolumbre também apareceu no rolo que envolve a
Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá, que investiu
400 milhões de reais nos papéis podres do Master. É o segundo fundo de pensão que mais aplicou no banco. A operação da Amprev foi realizada sob a presidência de Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre indicado para o cargo pelo próprio senador.
Atualmente,
Jocildo Lemos, que já esteve preso sob a acusação de fazer tráfico
de influência, despacha numa sala comercial em Macapá. Onde? Numa
daquelas seis salas que foram compradas pelo primo Pierre no edifício
The Office Araguary. (Depois de sofrer uma operação de busca e
apreensão em fevereiro deste ano, Jocildo Lemos renunciou à
presidência da Amprev.)
A influência de
Alcolumbre sobre o fundo de previdência não se limita a Jocildo
Lemos. O senador também
indicou para a entidade seu irmão, Alberto Alcolumbre, que atuou
como conselheiro fiscal entre 2023 e 2025, período em que o
investimento de 400 milhões foi feito.
As conexões do
senador com o Master talvez expliquem sua resistência em instalar a
CPI para investigar o escândalo.
O União Brasil de Alcolumbre está com os dois pés fincados no Master.
Rueda
Um
dia depois de negar publicamente “qualquer relação” com
Vorcaro, dono do finado Master, o presidente do União Brasil,
Antonio Rueda, admitiu ao repórter Breno Pires, da piauí, que seu
escritório de advocacia tinha contrato com o banco, para o qual fez
“mais de 1 000 audiências” e “aproximadamente 400 acordos”.
Não disse quanto recebeu pelos serviços. No caso do INSS,
Alcolumbre também comparece
Alcolumbre e Careca
A CPI que investiga o esquema de corrupção
identificou que um ex-chefe de gabinete do senador recebeu 3 milhões
de reais do personagem central do escândalo – o empresário e
lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do
INSS.
O ex-assessor é o mesmo Paulo Boudens da "rachadinha”,
hoje lotado no Conselho de Estudos Políticos do Senado. Em setembro
do ano passado, a CPI do INSS recebeu requerimentos para convocar
Boudens a prestar depoimento.
Nenhum deles foi apreciado
pelos integrantes. Seu sigilo bancário chegou a ir à votação, mas
a maioria dos membros da CPI votou contra a medida. Antes disso,
Alcolumbre decidiu decretar sigilo de 100 anos nos registros de
entradas do Careca do INSS no prédio do Congresso.
A medida impediu
a CPI de saber quem o lobista costumava visitar em suas visitas ao
Parlamento. E Alcolumbre tem feito tudo – até o que não está ao
seu alcance – para enterrar a investigação do INSS o quanto
antes. Recebeu uma ordem
do ministro André Mendonça, do STF, para ler o documento que
mandava dar mais prazo para a CPI trabalhar.
Tinha 48 horas para
fazê-lo. O senador simplesmente ignorou a ordem judicial e não leu
o documento. Tinha um duplo
temor. Se reunisse o Congresso para prorrogar a CPI do INSS,
Alcolumbre também teria que ler outro documento, aquele que instala
a investigação mais temida por todo o mundo político: a CPI do
Master. No dia 26 de março, o STF derrubou a ordem de prorrogação
emitida por André Mendonça.
Reeleição
e perseguição
A matéria cita, também com profundidade,
como Alcolumbre cooptou seu antigo adversário, Waldez Góes, para o
seu projeto de reeleição, e a escaramuça contra o ex-prefeito de
Macapá, Dr. Furlan, que foi afastado pelo ministro Flávio Dino,
junto com seu vice, pouco antes do prazo de desincompatibilização, o
que levou ambos a renunciar em seguida.
Prefeitura de
Macapá
O grupo de Alcolumbre tomou a prefeitura como que
de assalto. Entraram no prédio e ordenaram que servidores de pelo
menos quatro secretarias – Finanças, Saúde, Educação e
Comunicação – retirassem seus pertences imediatamente e passassem
senhas de acesso.
Segundo um servidor que falou com a
piauí em condição de anonimato, eles pediram a relação dos
contratos firmados por essas pastas, com a intenção de revisá-los,
e trocaram a fechadura das portas. Em que pese seu temor inicial de
um ano ruim, 2022 foi vitorioso para Alcolumbre. Não só renovou seu
mandato no Senado, como apoiou o candidato certo para o governo do
Amapá.
Raposa no galinheiro
Clécio Luís,
eleito pelo Solidariedade e hoje também filiado ao União Brasil,
venceu com 53,7% dos votos no primeiro turno.
Nos últimos
anos, o senador estendeu seu domínio para mais um espaço típico do
coronelismo: a regularização fundiária do Amapá, um estado jovem,
que só deixou de ser território federal em 1988.
Aconteceu o
seguinte: em 2019, quando ocupou a Presidência da República
interinamente por dois dias, Alcolumbre assinou um decreto
regulamentando os termos pelos quais a União pode se desfazer de
suas propriedades urbanas e rurais no estado.
Cunhada
A
operação passa pela Superintendência do Patrimônio da União no
Amapá. Há anos Alcolumbre instalou no comando da SPU um dos seus,
no caso, a cunhada Leily Gonçalves de Andrade. Com isso, qualquer
interessado em comprar imóveis ou terras no Amapá em posse da União
precisa negociar com o órgão – na prática, com Alcolumbre.
Alcolumbre não quis dar entrevista à piauí.
19 perguntas
A
revista, então, enviou uma lista com dezenove perguntas ao senador,
que respondeu todas elas, embora nem sempre abordando o ponto
central. O tema em que o senador mais se alongou diz respeito às
emendas do orçamento secreto. A respeito de pressões junto ao
Judiciário para prejudicar adversários, o senador negou qualquer
movimento neste sentido.
Lula
3
De volta a Brasília, Davi Alcolumbre participou
da transição do governo Bolsonaro para o governo Lula, no fim de
2022. Com seu jeito despojado e brincalhão, logo conquistou a
simpatia do presidente.
O governo sabia que Alcolumbre exercia mais influência sobre os senadores do que o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Nos bastidores da transição, Alcolumbre pediu que todas as indicações de segundo escalão que precisam passar pelo Senado – agências, conselhos – fossem feitas pela própria Casa, método que ele implementou nos tempos de Bolsonaro.
O senador
aproveitou para indicar, em sua cota pessoal, dois nomes para compor
o primeiro escalão. Em fevereiro de 2025, a recondução de
Alcolumbre à presidência do Senado não teve nada a ver com a
tumultuada eleição de 2019.
Sem adversários, ele venceu com 90% dos votos.
Um ex-senador do
alto clero – que pediu para não ser identificado, pois atua
como consultor na iniciativa privada em Brasília – contou à piauí
que já convidou Alcolumbre diversas vezes para debates públicos e
eventos temáticos com empresários.
“É um presidente de Câmara de Vereadores. Mas o Senado também virou uma Câmara de Vereadores. Rebaixou-se muito o nível de discussão, de tema, de agenda.”
Em maio do ano
passado, quando o governo Lula publicou dois decretos alterando as
alíquotas do IOF, os parlamentares se insurgiram contra a iniciativa
dizendo que interferia nas atribuições do Legislativo.
Como o governo
vinha atrasando o pagamento das emendas parlamentares, Alcolumbre
aproveitou a crise dos decretos para o que realmente interessava:
abrir uma brecha para pressionar pelo dinheiro. Junto com Hugo Motta,
articulou a derrubada dos decretos presidenciais.
“Que esse exemplo do IOF, dado pelo governo federal, seja a última daquelas decisões tomadas pelo governo tentando de certo modo usurpar as atribuições do Poder Legislativo.” Em mais de trinta anos, foi a primeira vez que o Congresso aprovou um decreto legislativo para anular decretos do Executivo, que tem competência para publicá-los.
Depois da
derrubada, Alcolumbre fez um longo discurso. Finalizou dizendo que o
papel do governo “agora é, a partir de amanhã, construir a agenda
do Brasil e dos brasileiros, sem açodamento e, se possível,
conversando um pouco mais com o Congresso brasileiro”. Dois dias
depois, o governo liberou o pagamento de 474 milhões em emendas –
valor recorde do ano – para 149 parlamentares.
Entre eles, Davi
Alcolumbre foi o que mais recebeu recursos. No fim, o governo superou
a crise, mas saiu desgastado. Davi Alcolumbre mundiou, mundiou e
mundiou a crise, e levou 20 milhões de reais do orçamento.
Até agora, não há notícia de que o primo Pierre tenha comprado mais salas comerciais.
Frases:
“Você
vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?”,
senador Plínio Valério (PSDB-AM).
Ao comentar sobre
o comportamento de seu antigo adversário, o ex-senador Gilvam
Borges, que perdeu para Alcolumbre em 2014, recorre a um verbo
próprio da Região Norte: “mundiar”, que segundo ele significa
algo como espreitar, rondar, aturdir.
“Quando tu vês
uma cobra na mata cercando a presa, ela fica rondando e rondando os
bichos até deixá-los zonzos. Aí, ela ataca”, compara. “O Davi mundia
bem.” Mundiou Sarney, chegou ao Senado e, com a posse de Jair
Bolsonaro no Palácio do Planalto, Alcolumbre percebeu que havia mais
degraus a galgar”, conclui.
Planta no
deserto - Expressão usada por um ex-senador – que pediu para
não ser identificado – ao descrever Davi Alcolumbre. Significado:
a planta que cresceu na terra arrasada do governo Bolsonaro.
Crédito foto ilustração: reprodução Facebook Davi Alcolumbre
