O inefável prazer dos livros
Ainda me lembro benzinho da primeira vez na qual ouvi: “Esta é a caçula. Ela adora ler!” Era assim que papai costumava me apresentar aos amigos. Com uma distinção que me deixava toda prosa. Nunca fui bonita, nem expansiva, nem estudiosa. Eu era a filha que adorava ler. Cresci acreditando nisso, como um selo que validasse minha existência.
Os anos voaram e, por muito tempo, a leitura e música foram meus abrigos. Com a alma lapidada por Álvaro de Campos, o heterônimo de Fernando Pessoa, sempre me senti diferente, sem encontrar lugar no mundo. Mas era nos livros de Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Agatha Christie e na inesquecível Coleção Vaga-Lume, que me reconhecia.
Em maio de 2023, veio a péssima notícia: O Brasil ocupou a 52ª posição no ranking mundial de leitura. Ficou à frente, apenas, de países como Irã, Egito e Jordânia. As habilidades de leitura de crianças brasileiras estão entre as piores do mundo, segundo a pesquisa Pirls (sigla do inglês para Estudo Internacional de Progresso em Leitura). O estudo foi desenvolvido pela IEA (International Association for the Evaluation of Educational Achievement), que conduziu análises com crianças do 4º ano do ensino fundamental em 57 países.
Filhos costumam reproduzir hábitos dos pais. Nossas crianças ocupam essa incômoda posição no ranking mundial, também porque a avalanche de informações da era digital e a correria do mundo adulto tornaram o hábito da leitura um luxo. Lamento sequer lembrar do último livro que li. Perdão, pai.
Mas, na contramão desses tempos sombrios para os amantes das letras, existe um oásis chamado Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes. A 28ª edição da Feira começa neste sábado e vai até sexta-feira, 22. Das 09h às 22h, quem visitar o evento, no Hangar, irá mergulhar no mundo encantado dos livros e seus autores. Um passaporte para resistir aos tempos modernos e resgatar o incomparável prazer de cheirar um livro novo e se deliciar nas asas da imaginação.
