O grande José Bonifácio: Na semana da Independência, um breve retrato do seu patriarca
A semana do dia da Pátria, 204 anos após aquele 07 de setembro de 1822 completados nesta segunda-feira, inicia em meio a mais um escândalo sem precedentes envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o qual, de “defensor da democracia”, tornara-se, em face do seu estilo e teratologias decisórias, o mais singular membro contemporâneo daquela Corte de justiça.
O mesmo que, em sua trajetória de juiz que tudo
pode e nada deve de satisfação ao distinto público, ao menos
diante do espelho e do que pensa sobre si próprio, e cuja imagem vem
sendo calcificada na impunidade que grassa entre os inquilinos do
poder hoje e alhures.
Os fatos revelados na semana passada, nos quais as evidências retratam como ele assessorava o bandido do colarinho branco Daniel Vorcaro, somados a foto captada pelo repórter fotográfico de O Globo, Brenno Carvalho, que mostrou ao Brasil as indecorosas gargalhadas dele e de alguns pares um dia após a divulgação de conversas que mantinha com o presidiário, e a sucessão de notinhas plantadas nos espaços dos suspeitos de sempre defendendo o indefensável, ou seja, as artimanhas de Moraes em sua relação com Vorcaro, tudo isso e muito mais revelam um pouco (ou muito) sobre os rumos que o Brasil vêm tomando escândalo após escândalo desde, pelo menos, o início do “consulado lulopetista” em 2003.
Quase um quarto de século depois da chegada do operário ao cargo máximo da democracia pátria, com a dívida pública da nação atingindo cerca de ⅘, 80% do PIB, novamente me valho de quem tem biografia, serviços prestados – e que serviços – por um patrício que merece todas as homenagens e reverências: José Bonifácio de Andrada e Silva, como antídoto contra todos os males que uma casta de usurpadores da Res publica insiste em esfregar na cara das pessoas comuns nascidas nessas paragens.
A
“coisa do povo” tem sido, infelizmente, nos mandatos do operário,
muito mais a “coisa de poucos”, pouquíssimos, que se apropriaram
das instituições e passaram a conspurcá-las de forma despudorada
diante da omissão de muitos e a conivência de outros
mais.
Bonifácio, cuja ilustração dessas mal traçadas é
a homenagem que recebera nos Estados Unidos, mais precisamente no Bryant Park, em Nova York, integra, em qualquer
lista que se preze, a posição de um dos mais destacados,
importantes, ilustres, magníficos brasileiros de toda a história
nacional desde 1500, ano da descoberta do País pelos
portugueses.
Nascido na cidade de Santos, ele era neto de
portugueses. Em Portugal, passou quase quatro décadas entre estudos,
pesquisas, trabalho e militância política. Ele retornara ao Brasil
com mais de 50 anos – quase 60 –, e aqui tornara-se o principal
assessor e conselheiro do príncipe regente, Dom Pedro I, a quem
influenciaria na declaração de independência, naquele 07 de
setembro de 1822.
Mas
não se engane o incauto leitor ou a ingênua leitora, o “patriarca
da Independência” travou dezenas de batalhas políticas,
intelectuais, muitas delas inglórias, na medida em que, na defesa
dos seus ideais, que incluíam a construção de uma nação soberana
e desenvolvida, além de dezenas de outras iniciativas consideradas
“progressistas” para a época, Bonifácio fora alvo do status quo
de então.
Como se vê, ao olhar a sua história; sua
luta pela integridade e unidade daquela jóia da coroa portuguesa
custou-lhe caro: demissão, humilhação, prisão, desterro e exílio.
José Bonifácio defendia a modernização
do Brasil fundamentada em quatro eixos: abolir a escravidão,
integrar o indígena, promover a mestiçagem e civilizar o povo e a
elite segundo padrões europeus.
No exílio forçado
após as divergências com o imperador Pedro I em razão dos caminhos
que o monarca optara no texto da Carta Constitucional de 1824, ele
dedicara-se à leitura, aos estudos, pesquisas e o convívio entre
familiares.
A este breve, brevíssimo resumo da sua vida
excepcional, cumpre registrar a sua atividade de cientista,
naturalista com foco na mineralogia, atividade que lhe rendeu a
descoberta de quatro minerais, entre eles a petalita, antecessora da
elemento lítio, hoje considerado um dos “minerais raros”,
recurso estratégico disponível e farto no solo brasileiro.
Letrado em filosofia, letras, direito; poeta, estadista,
ministro, governante, intelectual, erudito, inquieto, brigador,
temperamental, tutor, Bonifácio fora um polímata que pagou caro
pelas ideias que defendia em favor do Brasil desenvolvido com o qual
sonhara.
Quase duzentos anos após a sua morte, em 1838,
tendo descendentes seus na vida pública praticamente até hoje,
Bonifácio é luz em meio à treva institucional que o Brasil
atravessa.
Na metáfora da existência, a cada Gilmar Mendes e
Alexandre de Moraes que pontificam na vida nacional; ao vermos
grassar o “tudo posso” por meio de gestos e atos de cada um
desses, olhar para o retrovisor e observar as lutas, guerras, feitos,
legado e crenças de um José Bonifácio, às vésperas de mais um 7
de Setembro, se não torna-se um antídoto, ao menos serve de consolo
e farol.
Viva
o Dia da Pátria! E louve-se para todo o sempre o seu patriarca e
benfeitor da nação brasileira.
