Na Transamazônica: atravessados por rodovia, Pirahãs enfrentam malária sem fim, insegurança alimentar e disputa política.
Povo indígena de recente contato, avesso ao dinheiro, encara a persistência da doença entre crianças e busca garantir acesso a produtos básicos
O ESTADONET desta terça-feira, 26, reproduz reportagem feita pelos enviados do jornal Folha de S. Paulo, Vinicius Sassine e Lalo de Almeida, em que traçam um retrato da realidade enfrentada por aquela comunidade indígena.
Confira abaixo trechos da matéria:
Todo o modo de vida transfigurado em uma rodovia —baseado no dinheiro, no estabelecimento de uma língua predominante e na conexão entre núcleos urbanos— é rejeitado pelos pirahãs, que atravessaram o tempo de costas ao modo de vida ocidental, intencionalmente, como parte da própria organização política e diplomática do território.
A Transamazônica e esse povo se cruzam: o projeto da rodovia foi determinante para as crises sucessivas enfrentadas pelos indígenas. Ponte e estrada são espaços de passagem e, no período seco, pirahãs usam a via como espaço para trocas desiguais e para obtenção de alimentos com caminhoneiros e motoristas.
Mas, no dia a dia amazônico, o universo pirahã é a floresta, com rejeição a números, dinheiro, celulares, língua portuguesa, espaços fixos, cidades e até mesmo aos povos indígenas vizinhos, mais conectados ao universo não indígena. Coletivamente, eles ocupam territórios que formam um grande bloco de preservação da amazônia no sul do Amazonas, uma região que forma um arco de desmatamento com Rondônia e Acre.
No curso do rio Maici, que passa sob a Transamazônica, os pirahãs não têm conseguido se livrar de dois ciclos duradouros e perniciosos, que acabam por ditar o ritmo da vida no território: os surtos de malária e a insegurança alimentar.
A isso se soma uma espécie de disputa política nos arredores. Grupos de indígenas de outras etnias, associações e pessoas que se colocam como lideranças tentam obter cargos da Funai, da saúde indígena —uma responsabilidade do Ministério da Saúde— e da educação do município de Humaitá.
Essas funções têm o potencial de impactar diretamente a vida dos cerca de mil moradores da Terra Indígena Pirahã.
Como pano de fundo dessa disputa existem acusações de retenção e fraude em cartões de benefícios, como o Bolsa Família e aposentadorias. Os pirahãs precisam de mercadorias básicas para o cotidiano, mas não querem o dinheiro ou o cartão. Assim, dependem de uma intermediação para acesso aos benefícios, o que abriu as portas para fraudes.
Há ainda relatos de conivência com a exploração madeireira ilegal em territórios vizinhos. A 100 km do território pirahã, está Santo Antônio do Matupi, um distrito de Manicoré (AM) que é entreposto da madeira ilegal.
Entre os pirahãs do chamado alto Maici, que estão bem mais próximos da rodovia do que os indígenas que vivem no baixo Maici, as crises sanitária e alimentar e a briga alheia por cargos dominam o cotidiano, bem mais do que o tráfego de caminhões pesados pela Transamazônica, que margeia o território.
Desde a pandemia, a Funai passou a ter uma base —uma casa de madeira, na beira do rio— no alto Maici, a poucos quilômetros da rodovia. É esse o principal espaço da frente de proteção etnoambiental criada para servir de apoio aos pirahãs, com uma assistência mais direta e adaptada à realidade cultural de um povo de recente contato.
Os indígenas frequentam a base; um acampamento surgiu na outra margem do rio, uma demonstração do nomadismo característico dos pirahãs.
Saiba
mais aqui:
https://www.oestadonet.com.br/site/noticia/24551993/atravessados-por-rodovia-pirahas-enfrentam-malaria-sem-fim-inseguranca-alimentar-e-disputa-politica/
Crédito
imagem: reprodução
www.oestadonet.com.br -
Lalo de Almeida/Folhapress
