Na BBC: Viagens internacionais, jatinho de Vorcaro e os vínculos de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz, alvo da PF no escândalo do INSS
Segundo reportagem do jornal O Globo de 18 de setembro, ambos fizeram cinco viagens internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025
Após os primeiros impactos do caso Dark Horse, que aproximou o candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) ao escândalo do Banco Master, sua campanha enfrenta outra fonte de desgaste a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições.
O
foco das notícias negativas é sua amizade com o advogado Willer
Tomaz, alvo de uma operação da Polícia Federal no início de
agosto, dentro das investigações que apuram fraudes bilionárias no
pagamento de benefícios do INSS.
O
objetivo da operação era apurar um esquema de lavagem de dinheiro
que teria beneficiado o senador Weverton Rocha (PDT-MA), com suposta
participação de Tomaz. Segundo a PF, a esposa do senador, Samya
Rocha, teria recebido mais de R$ 11 milhões de empresas relacionadas
ao advogado.
Nos
últimos dias, diferentes veículos revelaram mais detalhes dos
vínculos entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro.
Segundo
reportagem do jornal O Globo de 18 de setembro, ambos fizeram
cinco viagens internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025,
para destinos como Estados Unidos, África do Sul e Europa.
Procurado, o senador não respondeu sobre quem custeou as viagens.
Já
nesta quarta-feira, 23, a revista piauí revelou
detalhes sobre uma dessas viagens. Segundo a publicação, o
candidato do PL viajou com sua família da Flórida (EUA) a Brasília
em janeiro do ano passado em um jatinho que pertencia a Willer Tomaz
em sociedade com uma empresa de Daniel Vorcaro, banqueiro que está
preso acusado de fraudes bilionárias no Banco Master. O advogado
também estava no voo.
A
revista informou ainda que se trata do mesmo jato executivo de alto
padrão, de prefixo PP-NLR, que transportou o ministro do STF
Alexandre de Moraes em agosto do mesmo ano. Na ocasião, o escritório
da esposa dele, Viviane Barci, tinha um contrato com o Banco Master
que lhe dava acesso a aeronaves do banqueiro.
Flávio
Bolsonaro se manifestou sobre as revelações em um post na rede
social X de forma curta e irônica. "Ainda bem que na época o
avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no
avião de Alexandre de Moraes".
Já
Willer Tomaz negou que Vorcaro tenha relação com a viagem de
janeiro, em nota enviada à BBC News Brasil. O advogado diz que arcou
com todos os custos do voo e não sabia que o banqueiro era sócio na
aeronave.
"O
voo de janeiro de 2025 não tem — e nunca teve — qualquer relação
com Daniel Vorcaro. A aeronave não era dele. Pertence à Fraction
024 Administração de Bem Próprio S.A., dividida em três cotas
iguais, uma delas de empresa de Willer Tomaz desde 2023".
"Aquele
trecho foi solicitado, escalado e integralmente custeado por Willer
Tomaz, debitado das horas da sua cota. Vorcaro não pagou, não
cedeu, não autorizou e não participou daquele voo — nem direta,
nem indiretamente. Quem viajou o fez como convidado de Willer Tomaz:
carona entre amigos, sem custo, contrapartida ou benefício de parte
a parte".
O
advogado diz ainda, na nota, que não conhece Vorcaro nem tem
negócios dele.
"A
venda da cota de terceiro à Prime You ocorreu sem o conhecimento e
sem a anuência de Willer Tomaz. Ao tomar ciência, em abril de 2026,
denunciou o contrato e está desde então em litígio com a Prime
You. Atribuir aquele voo a Daniel Vorcaro é falso".
O
advogado também nega ser investigado por irregularidades no INSS. "A
apuração diz respeito tão somente à propriedade de um imóvel. A
hipótese da investigação é de que o imóvel pertenceria a um
parlamentar", diz a nota.
Procurado
pela BBC News Brasil por meio de sua assessoria de imprensa, Flávio
Bolsonaro não se manifestou até a publicação dessa reportagem.
Já ao jornal O Globo, ele também negou saber que a aeronave usada em janeiro também pertencia a Vorcaro.
"Na
época, o avião era do Willer, eu tive zero contato com Vorcaro.
Fizemos uma viagem em família, mais nada. O avião era dele. Não
sabia da cota da empresa (Prime You). Para mim, o avião era do
Willer. Qualquer coisa além disso é distorção da realidade".
Na
semana anterior, ele também disse ao jornal manter "relação
de amizade" com Willer "legítima" e que "qualquer
tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal
é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos".
O
candidato não respondeu se as cinco viagens internacionais
realizadas entre janeiro e maio de 2025 foram todas bancadas pelo
advogado.
Segundo
a revista piauí, um apartamento também ligaria Flávio
Bolsonaro, Willer Tomaz e o Banco Master.
De
acordo com reportagem, o senador teria usado como base para sua
campanha em São Paulo um imóvel emprestado pelo advogado. Esse
apartamento, diz a revista, foi comprado por Willer Tomaz de Fabiano
Zettel, cunhado de Vorcaro que também está preso, acusado de ser
operador financeiro das fraudes bancárias.
A
reportagem diz que a transação ocorreu em 10 de fevereiro de 2026,
quando o amigo de Flávio pagou R$ 3,5 milhões pelo imóvel, R$ 2
milhões a menos do que Zettel desembolsou ao comprar o apartamento
em abril do ano anterior.
A
revista diz que entrevistou moradores do edifício, que confirmaram a
presença do senador e de sua equipe no local. Procurado pela
revista, porém, Flávio disse que se hospedou em hotéis na região
e não respondeu sobre que uso foi feito do imóvel.
Já
Willer Tomaz enviou uma nota à Piauí afirmando não conhecer
Fabiano Zettel nem Daniel Vorcaro, e que jamais teve qualquer
"relação pessoal, comercial ou societária" com os dois.
Relembre
o caso Dark Horse
Para além do uso consciente ou não de um avião de Vorcaro, Flávio Bolsonaro realizou negociações diretas com o banqueiro em 2025 em torno do financiamento do filme Dark Horse, em homenagem a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O caso foi revelado em maio pelo portal Intercept Brasil.
Flávio
é investigado formalmente desde julho por suposta lavagem de
dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes no financiamento do
filme junto ao Banco Master.
Segundo a Polícia Federal,
o contrato previa um repasse de US$ 24 milhões para a obra (na época
equivalentes a cerca de R$ 134 milhões), dos quais cerca de metade
foi pago.
O
relatório da PF que embasou o pedido de investigação contra o
senador destaca o descompasso entre os valores de Dark Horse e
aqueles observados no mercado audiovisual brasileiro.
"Embora
não caracterize por si só qualquer ilícito penal, reforça a
necessidade de aprofundamento da investigação acerca da efetiva
destinação dos recursos e da compatibilidade econômica da operação
financeira identificada", diz o documento.
Os
contatos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro para a liberação dos
valores ocorreram quando Vorcaro já estava no radar da PF, ao longo
de 2025, e mesmo após sua primeira prisão, em 17 de novembro.
Ambos se reuniram ainda no final daquele mês, quando o
banqueiro estava em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica.
O
senador nega qualquer irregularidade sobre o financiamento do filme
sobre seu pai e insiste que se trata apenas de um patrocínio privado
para uma obra privada, sem uso do dinheiro público.
Em
sabatina ao Jornal Nacional, porém, ele foi cobrado sobre a falta de
detalhamento sobre os recursos obtidos e como eles foram gastos. O
caso Dark Horse
As
investigações apontam que o equivalente a mais de R$ 60 milhões
chegaram a ser liberados para a obra, mas, até o momento, a
produtora do filme não detalhou e comprovou a utilização dos
recursos.
Pressionado pelo Jornal Nacional a apresentar o contrato para o patrocínio e uma planilha detalhada sobre o uso dos recursos no filme, o candidato do PL insistiu que já prestou os esclarecimentos e que se trata de um financiamento privado para realização de uma "obra de arte".
"Eu
não fui buscar dinheiro em recursos públicos, e esse foi um
patrocínio, na verdade, que não tem nenhuma transferência para
Flávio Bolsonaro. É um patrocínio para um filme privado sobre o
meu pai".
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito
imagem: EPA/Shutterstock, via BBC News Brasil
