Na BBC: O número que pode definir a eleição presidencial em 1º turno — e os fatores que apontam contra isso
Para vencer no 1º turno, é preciso mais de 50% dos votos válidos, que excluem brancos e nulos. Desde a redemocratização, só Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu isso, em 1994 e 1998
Rute Pina, da BBC News Brasil em São Paulo
As
campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)
têm animado seus eleitores sobre uma possível decisão das eleições
em primeiro turno.
Na
reta final da campanha, ambos os candidatos têm repetido a
possibilidade em entrevistas e palanques.
"Eu
sinceramente acho que vou ganhar as eleições em primeiro turno.
Acho que as eleições vão ser definidas domingo", disse Lula
na quinta-feira, 1º, durante entrevista ao podcast Flow. O
presidente decidiu conceder a entrevista no lugar de participar do
debate antes marcado pela TV Globo.
Em
entrevista à TV Band em 27 de setembro, o petista também afirmou
que seria "simples a escolha do povo". "Eu tô com uma
leve impressão de que não haverá segundo turno", afirmou
Lula.
Por
sua vez, Flávio Bolsonaro também tem dito à sua base que está em
contagem regressiva para vencer já no próximo domingo, citando
"arrancada" para uma vitória.
"Eu
não vou perder essa eleição. Eu digo mais, vou ganhar no primeiro
turno", disse Flávio em sabatina à Globo no dia 28 de
setembro.
O
candidato do PL, que também desistiu de participar do último debate
presidencial, de última hora, fez uma live no mesmo horário em que
reiterou a possibilidade o voto útil.
"Se
você estava pensando em não votar, compareça e vá votar no
domingo. Se você está pensando em votar em algum outro candidato,
que são meus concorrentes contra o Lula, a única candidatura que
pode superar o Lula é a do Flávio Bolsonaro. Me dê o seu voto de
revolta, me dê o seu voto inteligente já no primeiro turno."
Para
vencer no primeiro turno, é preciso mais de 50% dos votos válidos,
que excluem brancos e nulos. Desde a redemocratização, só Fernando
Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu isso, em 1994 e 1998.
Às
vésperas do primeiro turno, uma pesquisa Datafolha publicada nesta
quinta mostrou Lula somando 45% das intenções em votos válidos,
que excluem brancos, nulos e indecisos, ante 40% de Flávio
Bolsonaro.
Já
no segundo turno, em votos totais, o instituto mostra empate técnico:
48% para o presidente e 45% para o senador fluminense.
No
Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, feito em parceria com a
consultoria Polling Data, Lula aparece com 42% das intenções de
voto no primeiro turno, e Flávio, com 39%.
Augusto Cury
(Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) têm 3% cada.
Romeu Zema (Novo) pontua 1%. Indecisos somam 8%.
Com
a concentração da disputa acirrada para a Presidência da
República, candidatos menores perdendo espaço e um eleitorado pouco
entusiasmado, cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil
divergem sobre a possibilidade de a eleição presidencial ser
decidida no domingo.
A
maioria dos especialistas ainda considera o segundo turno o cenário
mais provável. Mas eles divergem sobre o peso do voto útil, da
abstenção e da desidratação dos candidatos menores.
Quatro
fatores que podem levar a uma decisão em 1º
turno
Para o cientista político Hilton Fernandes, professor
da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)
e sócio da empresa de pesquisas de opinião e análise de dados
Veris, mesmo considerando as últimas pesquisas de intenção de voto
às vésperas do primeiro turno, o cenário ainda indica ser mais
provável haver uma segunda rodada de votação.
No
entanto, ele afirma que não está descartada a possibilidade da
decisão ocorrer já no próximo domingo.
O
professor afirma que a desidratação da intenção de votos de
candidatos como Renan Santos, Cury e Caiado pode ser um fator para
esse fenômeno.
"Na
última semana, os dois principais candidatos somaram dois pontos
percentuais cada em suas intenções, depois de um longo período de
estabilidade, ao mesmo tempo em que os demais candidatos foram
perdendo eleitores", nota o analista.
E
uma possível explicação para isso é o chamado voto útil, quando
os eleitores podem deixar de votar em seu candidato favorito para
impedir a vitória do candidato que rejeitam.
É
o principal fator para que a decisão seja antecipada já em um
primeiro turno, observa a analista Cila Schulman, CEO do Ideia
Instituto de Pesquisa. Ela avalia que a chance de definição no
primeiro turno é a maior desde 1998.
Com
45% e 40% dos válidos no Datafolha, sobram 15 pontos. Lula
precisaria de um terço deles para passar de 50%; Flávio, de dois
terços. Ainda assim, Schulma avalia que, se houver definição no
primeiro turno, o favorecido seria Flávio.
"Temos
esse fenômeno que chamo de 'antipetismo de chegada', que é quando
esse eleitor, que está indeciso ou que está num desses candidatos
que a gente chama de terceira via, migra para o candidato que ele
julga ser mais forte para vencer o Lula", afirma.
Já
a cientista política Luciana Santana, professora de Ciência
Política na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), vê que a
possibilidade de encerramento no primeiro turno vale para qualquer um
dos lados, tanto Flávio quanto Lula, se eleitores de Caiado, Zema e
Cury abandonarem seus candidatos.
No
entanto, ela faz a ressalva de que nenhuma pesquisa dá evidência
suficiente para afirmar isso. "Apesar de não ser tão provável,
não é impossível que aconteça agora uma definição da eleição
no primeiro turno", afirma.
"Temos
ainda uma quantidade de indecisos que podem se reverter em voto útil
na reta final da campanha e favorecer alguns dos candidatos. Um dos
dois candidatos que estão à frente."
Santana
afirma que é preciso estar atento aos redutos eleitorais nos
estados, principalmente São Paulo, Rio e vários estados do
Nordeste. "Isso vai dizer muito sobre a possibilidade ou não de
se definir a eleição no primeiro turno."
O
segundo fator é a rejeição elevada aos principais concorrentes.
Segundo Hilton Fernandes, como ambos são muito conhecidos, o eleitor
tende ao voto "no menos pior", em vez de pulverizar
escolhas.
"Como
os dois líderes também são muito rejeitados, empatados com 45% de
rejeição cada (segundo o DataFolha), é possível que ainda recebam
votos de quem que neste está com Cury, Caiado ou Renan, candidatos
que não têm chance de vitória", afirma.
Além
do voto útil e da rejeição a Flávio e Lula, uma alta abstenção
é um terceiro fator que pode impactar o cenário, ao diminuir a
contabilização do total de votos válidos.
Nas
últimas eleições gerais, em 2022, o número de eleitores que não
compareceram às urnas foi o maior desde 1998: 33 milhões ficaram de
fora do primeiro turno — ou seja, 20,95% do eleitorado daquele ano.
Segundo
Fernandes, historicamente, a abstenção pesa mais sobre a base de
Lula, de menor escolaridade e mais idosa. Mas homens, segmento em que
Flávio lidera, costumam comparecer menos que mulheres, entre as
quais o petista vai melhor.
A
decisão pelo 'não-voto'
"Boa parte desse número se
explica por impossibilidade de participação, como pessoas com
problemas de mobilidade, falta de atualização do registro
eleitoral, problemas de saúde; e outros por terem o voto
facultativo, em especial pela idade", diz o professor da Fespsp.
"Mas
eleitores que estão desiludidos com a política ou que não percebem
seus candidatos com chance de vitória podem decidir não comparecer
no dia das eleições. Se isso ocorrer, o maior impacto seria entre
quem não vota em Lula e Flávio, e isso levaria a uma diminuição
da quantidade de votos válidos e, consequentemente, a uma maior
chance de encerramento já no primeiro turno."
A
probabilidade de a eleição terminar no primeiro turno será alta se
o não-voto (que soma brancos, nulos e abstenções) chegar a uma
zona entre 31% e 32%, calcula Cila Schulman.
Quanto
menor for o total de votos válidos usado para calcular a maioria,
menor será a quantidade de votos necessária para um candidato
vencer.
Além
dos 20,95% de eleitores que não foram votar, mais de 5 milhões de
brasileiros – ou pouco menos de 5% do eleitorado que compareceu às
urnas – votaram branco ou nulo no primeiro turno de 2022.
Por
fim, o quarto fator que pode fazer com que a campanha se encerre já
neste domingo é a campanha esvaziada. Segundo Schulman, os
candidatos fora da polarização ficaram sem exposição, e os
debates perderam força.
O último, o tradicional debate da TV Globo, estava marcado para quinta, mas foi cancelado após decisões judiciais que mexeram na configuração do evento e a desistência de Lula e Flávio.
"Foi
uma não-campanha, uma campanha com baixíssima energia. Eu chamo de
a 'campanha dos anestesiados', em que o eleitor está votando muito
olhando para o retrovisor, para dois nomes que, na cabeça dele, ele
já experimentou e não gostou", afirma.
O
que pesa para decisão em 2º turno
O volume
de votos que não vão para Lula nem para Flávio é o primeiro
fator. Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, Cury,
Renan Santos, Caiado e Zema acumulam 10% do eleitorado às vésperas
da eleição.
A
cientista política Luciana Veiga, da Unirio, aposta que esse
contingente não deve cair a menos de 7%. "Ou seja, há um
percentual de votos nos outros que impede que você tenha essa
eleição no primeiro turno", afirma.
Mesmo
que haja um "esmagamento" dos concorrentes sem chances na
reta final, diz, a chance de resolver no primeiro turno é muito
pequena.
O
segundo é a falta de entusiasmo, que reduz o apelo do pedido de voto
útil, seja de Lula ou de Flávio. Veiga cita os escândalos
envolvendo as duas candidaturas e avalia que os apelos não terão
efeito.
"Por
mais que Lula faça um discurso de apelo ou até mesmo o Flávio
Bolsonaro faça, eu acho que não vai dar resultado. Particularmente
porque estamos tendo muitos escândalos envolvendo as duas
candidaturas", afirma.
"Não
tem uma agenda que atraia, que faça com que as pessoas venham e
falem: 'Puxa, eu vou votar no primeiro turno porque essa candidatura
está merecendo'. Você não tem um entusiasmo que justifique alguém
querer dar a todo custo uma eleição no primeiro turno."
Cila
Schulman acrescenta que o caso Master e a pauta do STF levaram muitos
eleitores a concluir que "todo mundo é corrupto".
Para
ela, o terceiro que deve adiar a decisão é o "teto de votos"
de Lula. Sozinho no campo da esquerda, ele não conta, na avaliação
de Schulman, com votos de Ciro Gomes e Simone Tebet, como em 2022.
A margem de crescimento está entre quem aprova o
governo, mas não declara voto nele, e é pequena. "O mercado de
votos para Lula é muito restrito nessa campanha, porque ele está
sozinho no campo da esquerda", afirma.
A analista vê
ainda um dilema para o PT: se as pesquisas divulgadas no sábado, 03,
como as do Datafolha e da Quaest, mostrarem Lula perto de vencer,
isso pode estimular a migração de votos para Flávio.
"Pode
dar a impressão de que ele pode ganhar no primeiro turno no final. E
aí ele pode amplificar essa migração de votos em favor do Flávio",
argumenta. Nesse contexto, as declarações dos dois candidatos sobre
vencer no domingo funcionam também como apelo ao voto útil.
O
quarto é o menor número de candidaturas. Neste ano, foram
registradas 20,5 mil candidaturas, segundo o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). Esse é o menor número desde 2010: a disputa deste
ano tem 8,5 mil postulantes a menos do que em 2022, uma queda de
quase 30%.
Com
menos candidatos a deputado pedindo voto e mobilizando eleitores, o
pleito presidencial teria menos estímulo ao comparecimento.
O
que observar no domingo
Independentemente de terminar em
primeiro ou segundo turno, Hilton Fernandes diz que a judicialização
será questão importante na reta final.
"Pelo
menos desde a redemocratização, nunca houve tantas interferências
da Justiça no processo eleitoral nacional, justamente em um momento
de grande questionamento dos ministros do STF e suas relações",
afirma. Para ele, a situação causa insegurança e pode comprometer
as eleições se houver contestações aos resultados das urnas.
A
votação termina às 17h, no horário de Brasília, e a divulgação
dos resultados começa a partir do fechamento das urnas.
Além
do total de votos de Lula e Flávio, os analistas recomendam olhar o
comparecimento, o volume de brancos e nulos e o desempenho nos
grandes colégios eleitorais, como São Paulo, Rio e estados do
Nordeste.
Se
nenhum candidato passar de 50% dos votos válidos, o segundo turno
será no dia 25 de outubro.
Com informações: www.bbc.com/portuguese
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