Na BBC: O celular de Vorcaro — os pedidos de ministros do STF para acesso a conteúdo — e a reposta de Mendonça
Por meio de trocas de mensagens e documentos extraídos do celular do ex-banqueiro, a PF levantou uma série de suspeitas de irregularidades.
Julia Braun, da BBC News Brasil em Londres
Após sucessivas quebras de sigilos de documentos relacionados ao caso Master na quinta e sexta-feira, 10 e 11, o acesso ao conteúdo completo extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro virou novo tema de embate entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após
a determinação do fim do sigilo dos registros relacionados ao banco
na quinta-feira, 10, pelo presidente do Supremo, Edson Fachin, o
relator do caso, ministro André Mendonça, liberou o acesso a parte
dos documentos.
No
dia seguinte, Alexandre de Moraes apontou, em um ofício encaminhado
a Fachin, uma "escolha seletiva" de Mendonça na retirada
do sigilo. O ministro também pediu a liberação imediata de todo e
qualquer documento relacionado ao caso.
Em
dois ofícios seperados, os ministros Alexandre de Moraes e Cristiano
Zanin também solicitaram ao presidente do STF acesso ao conteúdo
completo extraído do celular de Vorcaro, um iPhone 17 Pro apreendido
pela Polícia Federal (PF).
"A
mídia solicitada encontra-se no gabinete de Sua Excelência e deve
ser compartilhada com os demais julgadores para que todos tenham a
mesma oportunidade de análise dos elementos relacionados ao aludido
processo", escreveu Zanin em seu pedido.
Mendonça
liberou, na noite de sexta, o sigilo de outros processos envolvendo o
Master, mas informou a Fachin que o celular de Vorcaro não está sob
sua posse, mas sim guardado nos depósitos da PF para preservar a
cadeia de custódia da prova.
O relator declarou que
possui apenas uma cópia de segurança em disco rígido
criptografado, que permanece lacrada.
Em
novo ofício, Zanin contestou a justificativa do colega, sustentando
que o lacre de uma cópia de segurança não impede o
compartilhamento com os demais membros do STF.
Neste
sábado, 12, o ministro Gilmar Mendes reforçou o pedido para que
todos os ministros tenham acesso integral à cópia dos dados
extraídos do celular, em mais um ofício enviado a Fachin.
No
documento, o decano do STF endossa os argumentos apresentados por
Zanin e solicita que, caso Mendonça não disponibilize os dados, a
presidência da Corte requisite "com urgência" à PF o
envio das mídias diretamente aos gabinetes.
"Reitero,
no ponto, os fundamentos deduzidos pelo eminente Ministro Cristiano
Zanin, no sentido de que tal providência é necessária para que
seja assegurado a todos os Ministros o conhecimento de todas as
informações relevantes para o julgamento, já que a subsistência
de acesso assimétrico ao acervo informativo compromete a paridade
entre os integrantes da Corte e, em última análise, a própria
colegialidade que deve presidir o julgamento", escreveu o
ministro Gilmar Mendes no pedido a Fachin.
Os embates entre os ministros em relação ao acesso aos documentos obtidos pela PF ao longo das investigações sobre o caso ocorre às vésperas de uma sessão marcada para a próxima terça-feira, 15, para discussão da grave crise que a Corte atravessa.
O
embate entre Moraes e Mendonça
Na semana passada, Mendonça protagonizou um embate com Moraes no âmbito dessas investigações.
Em
1º de setembro, através da petição 16.662, Mendonça levantou o
sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) com indícios de que
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria pedido conselhos e
trocado informações com Moraes.
Dois
dias depois, Moraes rebateu e retirou o sigilo de relatórios da
inteligência da PF sobre supostas condutas irregulares de Mendonça,
o qual teria agido contra Moraes e outros colegas de tribunal.
Até
então relator do polêmico Inquérito das Fake News, Moraes também
havia pedido a inclusão de Mendonça nesta investigação.
Na
quarta-feira, 09, Fachin decidiu tirar de Moraes a relatória deste
inquérito e agendar para 15 de setembro a sessão plenária para
tratar do caso.
Diante
da crise que se abriu no STF com a revelação das mensagens e as
decisões subsequentes de Mendonça, Moraes e do ministro Flávio
Dino, é possível que o julgamento seja ampliado para discutir
outros vários da "guerra" entre os ministros, explica
Emílio Peluso, professor de direito constitucional da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG).
O
que se sabe sobre o celular de Vorcaro
Ex-controlador do Banco Master, Vorcaro foi preso em novembro de 2025. Ele é investigado por suspeita de cometer fraudes financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões.
Por
meio de trocas de mensagens e documentos extraídos do celular do
ex-banqueiro, a PF levantou uma série de suspeitas de
irregularidades.
O
conteúdo do aparelho é relevante em duas frentes distintas: a
apuração dos supostos crimes financeiros ligados ao caso Master e
as relações de Vorcaro com autoridades políticas e do Judiciário.
No
caso do financiamento do filme Dark Horse — cinebiografia do
ex-presidente Jair Bolsonaro que acabou se tornando parte das
investigações — os investigadores afirmam ter encontrado
conversas, comprovantes e registros que indicariam a participação
direta de Vorcaro na liberação de recursos para a produção e na
discussão sobre a forma como esse dinheiro seria movimentado nos
Estados Unidos.
Os
documentos liberados por Mendonça na noite de sexta-feira apontam
especialmente para a relação com o senador e candidato Flávio
Bolsonaro (PL), descrito pela PF como interlocutor direto nas
tratativas para obtenção de recursos para o filme.
O
celular também continha mensagens — tornadas públicas após uma
decisão do ministro André Mendonça — que teriam sido enviadas
por Vorcaro a um contato salvo com o nome Alexandre de Moraes.
Há
também conversas de Vorcaro com funcionários do Master e pessoas
ligadas à família de Moraes.
Diálogos
envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA) também dão "robustos
indícios" de crimes de corrupção ativa e passiva e lavagem de
ativos, segundo um relatório da PF cujo sigilo foi retirado nesta
sexta.
Com informações e imagem: www.bbc.com/portuguese
