Na BBC: No aniversário de 250 anos, Trump reacende o debate sobre os limites do poder nos EUA.
Milhões de pessoas marcharam em protestos contra Trump nos Estados Unidos e em outros países, portando cartazes com os dizeres "sem reis"
Editora de América do Norte, da Dakota do Sul (EUA) para a BBC News
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece apreciar suas notórias exibições de poder pessoal.
Ele
se rodeou de um gabinete e outras autoridades que o elogiam em
público. Ele ataca líderes mundiais que perderam sua aprovação. E
pressiona algumas das maiores empresas americanas a fazer o que ele
deseja.
Ao
se aproximar da metade do seu segundo mandato na Casa Branca, Trump
declarou em entrevista que "não há limites" para o seu
poder.
Este
sentimento parece ser a antítese do chamado experimento americano,
iniciado 250 anos atrás, quando o país declarou independência do
poderio monárquico britânico.
O
que pensariam aqueles revolucionários sobre o atual chefe de Estado
americano? Não muita coisa, segundo os críticos.
Milhões
de pessoas marcharam em protestos contra Trump nos Estados Unidos e
em outros países, portando cartazes com os dizeres "sem reis",
"democracia, não monarquia" e "temos uma
Constituição, não um rei".
Eles
afirmam que Trump está forçando seu poder além do que ousaram
fazer os antecessores dele. Ele, por exemplo, não pediu autorização
do Congresso para iniciar a guerra no Irã.
E manteve a
maior parte dos legisladores no escuro sobre a operação militar na
Venezuela, que levou à captura do então presidente Nicolás Maduro.
Trump
também usou poderes de emergência para contornar a necessidade de
legislação para impor tarifas comerciais a todo o mundo. A Suprema
Corte, posteriormente, determinou que a medida era inconstitucional.
Ao
usar o Departamento de Justiça dos Estados Unidos para investigar e
processar pessoas consideradas seus adversários, como o ex-diretor
do FBI James Comey, Trump é acusado de ignorar a tradicional
separação entre a Casa Branca e os promotores federais, que existe
desde o escândalo de Watergate nos anos 1970, no governo Richard
Nixon (1913-1994).
"Não
me sinto um rei", declarou Trump recentemente, ao ser
questionado sobre os protestos.
"Preciso enfrentar o
inferno para que as medidas sejam aprovadas."
É
claro que Trump foi eleito com a promessa de criar mudanças
profundas e fundamentais em quase todas as áreas da política e do
governo dos Estados Unidos.
Muitos
eleitores que votaram em Trump em 2024 contra o ex-presidente Joe
Biden, sem dúvida esperavam mudanças radicais em relação à
imigração, ao comércio e às relações com aliados americanos
históricos.
Quatro
em cada cinco republicanos apoiam o trabalho desenvolvido por Trump,
segundo as pesquisas mais recentes do instituto YouGov.
Mas,
entre a totalidade dos eleitores americanos, sua aprovação caiu
abaixo de 40%, patamar significativamente inferior à do início do
segundo mandato do atual presidente.
Donald
Trump não é o primeiro presidente americano a tentar ampliar seus
poderes, segundo o professor de História e assuntos públicos Julian
Zelizer, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
Mas
ele destaca que não consegue se lembrar de "outro presidente
que tenha ido tão longe e que fosse tão apaixonado pelo poder".
Joshua
Treviño, diretor do centro de estudos conservador America First
Policy Institute, alerta para não confundirmos a imagem
cuidadosamente elaborada de Trump com a expansão dos poderes da
presidência.
"É
fácil confundir a estética com a substância do presidente Trump",
segundo ele.
Treviño cita Franklin D. Roosevelt (1882-1945) e Richard Nixon como presidentes do passado que tentaram ampliar os poderes do Executivo.
"Eu
rejeitaria veementemente a ideia de que Donald Trump estaria fazendo
algo qualitativamente único na história americana", destaca
ele.
Os
limites exatos do poder de um único político geram debates
acalorados há muito tempo nos Estados Unidos.
Já
no século 18, os pais fundadores do país se preocuparam muito com a
excessiva concentração de poder nas mãos de um único chefe de
Estado.
Tanto que alguns deles queriam um comitê
executivo para governar o país, em vez de um presidente.
Já
outros defendiam a concessão de mais poderes.
"Você
tem medo do único e eu, dos poucos", escreveu o segundo
presidente americano, John Adams (1735-1826), ao terceiro mandatário,
Thomas Jefferson (1743-1826).
"Estamos
em perfeito acordo de que os muitos devem ter representação
completa, justa e perfeita. Você está apreensivo com a monarquia;
eu, com a aristocracia. Por isso, eu teria concedido mais poder ao
presidente e menos ao Senado", explicou Adams em 1787.
Em
um dado momento, os pais fundadores chegaram a considerar alguns
títulos com aparência distintamente monárquica.
Eles
discutiram a possibilidade de se referir ao presidente como "Sua
Alteza", "Sua Excelência" ou "Sua Majestade
Eleita". Eles até pensaram em chamá-lo de "Sua Grandeza".
George
Washington (1732-1799), Benjamin Franklin (1706-1790) e Thomas
Jefferson podem ter debatido amplamente estas questões
constitucionais na Taverna Middleton, um bar mais velho que o próprio
país no litoral de Annapolis, hoje no Estado americano de Maryland.
O
local se orgulha de dizer que todos eles bebiam ali nos primeiros
dias da nova república.
É
ali que encontro Lorraine Ross, comemorando seu 60° aniversário.
Ela conta que também deseja celebrar o aniversário dos Estados
Unidos, mas está preocupada com o futuro do país.
"Não
vou sair por aí, correndo e dizendo 'viva, EUA, estamos livres'",
diz ela.
Ross
afirma estar particularmente preocupada com os cortes da assistência
financeira às famílias carentes e crianças com necessidades
especiais.
Ela
demonstra sua irritação com o Congresso, por "simplesmente
deixar [Trump] fora de controle, ignorando todas as leis" que
restringiram o comportamento dos presidentes americanos no passado.
Outros
americanos com quem conversei na taverna simplesmente aguardam as
festividades do Dia da Independência (4 de julho). O governo Trump
prometeu que elas serão as maiores e melhores comemorações já
realizadas.
John
Knox conta que não quer ficar preso à política em torno do atual
presidente. Ele veio de Atlanta, no Estado da Georgia, para visitar o
local.
Para
ele, se as pessoas discordarem de Trump, o momento para expressar sua
insatisfação são as eleições de meio de mandato, em novembro,
não durante as comemorações do dia 4 de julho.
Em
outro ponto do país, aviões militares voam sobre uma paisagem
cênica em Keystone, no Estado da Dakota do Sul, enquanto
funcionários do Serviço Secreto americano se preparam para a visita
do presidente ao local na sexta-feira, 03
Foi
ali que Donald Trump passou a véspera das comemorações dos 250
anos da independência americana, em visita ao Monte Rushmore, onde
os rostos de quatro presidentes foram esculpidos em granito.
Trump
foi objeto de memes que o colocaram na montanha, ao lado dos
ex-presidentes George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln
(1809-1865) e Theodore Roosevelt (1858-1918).
Muitos
dos seus apoiadores aprovam esta ideia. E existe até um projeto de
lei no Congresso americano, para que Trump seja acrescentado àquele
monumento icônico.
Terry
Davis e Tim Burke fazem parte de um grupo de velhos amigos que
atravessam a região central dos Estados Unidos, viajando entre um
parque nacional e outro. Eles tentaram conseguir ingressos para
assistir aos fogos de artifício do presidente na noite de
sexta-feira, 03, sem sucesso.
Pergunto
se eles conseguem imaginar o rosto de Trump acrescentado ao monumento
nacional do Monte Rushmore. Davis, de 72 anos, responde que Trump
deveria ser o maior rosto, no centro e na frente do monumento.
"Nunca
fiquei tão entusiasmado com nenhum outro presidente no passado, até
que ele tomou as rédeas deste país", afirma ele.
Os
motociclistas destacam o que eles ainda consideram como status de
outsider, de fora da política, de Donald Trump. E estão felizes por
verem o presidente usar seus poderes para enfrentar os democratas e
um governo federal que eles consideram muito invasivo.
"Muito
tempo depois que ele deixar a presidência, daqui a 20 ou 30 anos,
acredito que os historiadores irão dizer que ele foi um dos maiores
presidentes da história do nosso país, por tudo o que ele fez pela
nação", afirma Burke.
O
que o presidente americano faz com seus poderes não traz impactos
apenas para os cidadãos atuais do país. Ele pode definir também
como os futuros presidentes farão uso do mesmo poder.
Para Julian Zelizer, "cada capítulo da expansão do poder presidencial traz consequências a longo prazo".
"Ele
cria precedentes reais até então inexistentes, que os futuros
presidentes poderão utilizar. E também alimenta um processo de
normalização, que faz com que tudo simplesmente passe a fazer parte
daquilo que esperamos que os presidentes façam."
O
modelo do presidente americano foi estabelecido em 1789, quando o
país deu posse a George Washington como o primeiro mandatário do
país.
No
seu discurso de posse, Washington pareceu contido em relação ao
poder que recebeu. Ele afirmou que um líder "deve ser
particularmente consciente das suas próprias deficiências".
É
difícil imaginar Trump, que se autodeclarou "o maior presidente
da história", expressando um sentimento similar.
Crédito
imagem: reprodução redes sociais
