Na BBC: a reação do governo Lula ao novo tarifaço de Trump.
'Seguiremos sem viralatice', diz governo do Brasil
Por Leandro Prazeres, da BBC News Brasil em Brasília
Um
dia após os Estados Unidos anunciarem tarifas de 25% sobre a
importação de uma série de produtos brasileiros, o governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escalou nesta
quinta-feira, 16, um grupo de ministros de Estado e o vice-presidente
Geraldo Alckmin (PSB) para responder diretamente tanto ao novo
tarifaço quanto às críticas feitas pelo secretário de Estado
americano, Marco Rubio, ao presidente brasileiro.
A
reação conjunta do governo brasileiro combinou acusações de
suposta interferência política promovida pelos EUA, críticas à
família Bolsonaro e o anúncio de que o governo brasileiro dará
início aos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada
pelo Congresso no ano passado.
Por
outro lado, integrantes do governo afirmam que continuarão aberto a
negociações com os Estados Unidos.
Um
dos mais contundentes foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que
classificou o novo tarifaço como uma tentativa de interferência dos
EUA no Brasil. Ele declarou que o governo não iria "baixar a
cabeça" e nem agir com "viralatice".
A
reação organizada dos ministros ocorre depois de Rubio
responsabilizar Lula pelo fracasso das negociações comerciais e
afirmar que as novas tarifas seriam uma consequência da postura do
presidente brasileiro.
"Que
não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e
seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu
Rubio no X (antigo Twitter).
"Suas
políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os
brasileiros. Durante o último ano, Lula priorizou seu próprio ego
em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro, e
essas tarifas são o preço a pagar por isso."
Um
diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter
reservado afirmou que o tom da resposta brasileira foi calibrado para
rebater o que o governo entendeu como um "desrespeito" por
parte de Rubio.
Segundo
ele, a manifestação de Rubio quebrou uma regra implícita da
diplomacia segundo a qual, por hierarquia, ministros de Estado não
devem criticar chefes de Estado.
Além
disso, a resposta foi uma tentativa de desmontar o argumento lançado
pelo ministro americano e reforçado pelo senador e pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Reação
em conjunto: 'Sem baixar a cabeça'
O primeiro a reagir
diretamente à fala de Rubio foi o ministro das Relações
Exteriores, Mauro Vieira.
Em um pronunciamento no início da tarde, ele classificou os ataques ao presidente brasileiro como incompatíveis com as relações entre países considerados amigos.
"As
declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na
madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas
contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo
brasileiros. Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de
Estado de um país amigo", disse Vieira.
Para
o chanceler, as críticas de Rubio revelariam uma insatisfação do
governo americano com a suposta resistência brasileira às
exigências apresentadas durante as negociações entre os dois
países.
"Claramente,
o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não
ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis
apresentadas durante o curso das negociações", complementou
Vieira.
Mais
tarde, o governo brasileiro organizou uma uma entrevista coletiva na
sede do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços (MDIC), em Brasília.
A
entrevista reuniu Durigan, Vieira, o titular do MDIC, Márcio Elias
Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o
presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o vice-presidente
Geraldo Alckmin e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa
Guimarães.
Durigan
chamou as tarifas de "interferência externa". "A
gente precisa colocar em pratos claros que (as tarifas) se tratam de
uma interferência externa do ponto de vista do governo (...) É
inadmissível que isso aconteça nessa altura do campeonato",
disse o ministro.
Durigan
afirmou ainda que a política econômica brasileira não poderia ser
orientada pelas prioridades de autoridades estrangeiras ou por
compromissos assumidos por grupos políticos com outro governo.
"A
política econômica de um país é feita para os seus cidadãos, não
para atender o secretário de Estado de um outro país, sinalizando
com um programa de governo de transição para atender as suas
prioridades estrangeiras."
A
fala foi interpretada como uma menção direta a Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), que, há poucas semanas, enviou uma carta a Marco Rubio
oferecendo a formação de um grupo de transição junto o governo
americano caso ele vença as eleições deste ano.
"E
por fim, nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a
interesses estrangeiros.
Com isso a gente vai seguir protegendo
o Pix. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania geológica sem
viralatice e nós seguiremos protegendo a nossa democracia contra a
interferência internacional indevida", complementou Durigan.
O
ministro disse, contudo, que o governo brasileiro ainda está
disposto a negociar com os Estados Unidos.
"Com
isso, nós não estamos dizendo que nós não estaremos abertos à
negociação, pois seguiremos abertos a diplomacia à negociação,
seja com os Estados Unidos, seja com qualquer outro país que nos
trate com o devido respeito".
Reciprocidade e
família Bolsonaro
A crítica de Durigan reforça a
estratégia do governo Lula de vincular as tarifas à atuação
política da família Bolsonaro.
Na
primeira manifestação oficial após o anúncio, divulgada ainda na
quarta-feira (15/7), o governo classificou a decisão americana como
um marco negativo na relação bilateral e mencionou, diretamente, a
suposta ação da família Bolsonaro pelas tarifas.
"É
triste constatar que o lamentável desfecho das investigações
baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa
colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que
arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país,
movidos por objetivos eleitoreiros."
Nos
últimos dias, porém, Flávio Bolsonaro tem dito que foi Lula quem
provocou a imposição de tarifas para tirar proveito eleitoral e que
chegou a tentar convencer Rubio e outros oficiais do governo
americano a não tarifar produtos brasileiros.
Em
uma segunda nota, divulgada no final da tarde, o governo rebateu a
acusação de Rubio de que o Brasil não teria se empenhado ou
negociado de boa-fé.
"O
Governo brasileiro se manteve aberto ao diálogo com as autoridades
americanas desde o início das investigações da seção 301, mesmo
não reconhecendo a legitimidade desse instrumento sem amparo nas
regras multilaterais de comércio. Desde julho de 2025, foram mais de
30 reuniões entre as duas partes."
Hoje,
Durigan voltou a mencionar que o governo poderá adotar retaliações
comerciais contra os Estados Unidos em resposta às tarifas.
"Para
concluir, nós levaremos esse grupo de ministros ao presidente Lula a
retomada do processo de reciprocidade conforme determina a lei
aprovada por unanimidade por todos os partidos políticos, por todas
as lideranças políticas nacionais, aprovado por unanimidade no
Congresso Nacional e o presidente Lula nos dará orientação a
respeito disso."
Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil afirmou que o governo ainda analisa o impacto prático das novas tarifas, que só deverá se manifestar sobre isso nas próximas semanas.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito
imagem: Agência Brasil
