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Inimigos do pix: Por que o governo Trump voltou a atacá-lo?

Matéria da BBC News Brasil indica o que os EUA podem fazer contra o xodó dos brasileiros nas operações instantâneas.

Inimigos do pix: Por que o governo Trump voltou a atacá-lo?
Matéria da BBC News Brasil indica o que os EUA podem fazer contra o xodó dos brasileiros nas operações instantâneas.


Quase dez meses depois de abrirem uma investigação comercial contra o Pix, os Estados Unidos voltaram a alfinetar o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro, reacendendo a discussão sobre as investidas do governo Trump contra ele e as possíveis medidas de efeito prático que pode tomar nesse sentido.


O Pix foi mencionado em um relatório de 31 de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas.


O documento foi elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (Office of the United States Trade Representative, USTR), a mesma agência que em julho do ano passado abriu um inquérito para apurar se considera o Pix uma "prática desleal", que fere a competitividade do setor produtivo americano.


O Pix é citado três vezes nas mais de 500 páginas do National Trade Estimate Report de 2026, em apenas um parágrafo:


"O Banco Central do Brasil criou, detém, opera e regula o Pix, uma plataforma de pagamentos instantâneos. Partes interessadas dos EUA expressaram preocupação com o fato de o Banco Central do Brasil conceder tratamento preferencial ao pix, o que prejudica os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA. O Banco Central exige o uso do pix por instituições financeiras com mais de 500.000 contas."


O governo brasileiro reagiu e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a afirmar que o "o Pix é do Brasil". "Ninguém vai fazer a gente mudar o Pix", ele declarou em entrevista na semana passada.


Investigação
A investigação da USTR ainda está em andamento e não tem data fechada para ser concluída. Enquanto se aguarda o desfecho, uma das perguntas que surgem no debate em torno do caso é: o que os EUA podem fazer de concreto contra o sistema de pagamentos brasileiro?


Os especialistas em comércio exterior e regulação econômica ouvidos pela reportagem frisaram que os EUA não têm jurisdição para agir diretamente contra o Pix.


As ferramentas à disposição dos americanos se concentram no âmbito comercial e estão descritas na própria legislação que foi usada para abrir a investigação contra o Brasil, a seção 301 do Trade Act de 1974.


Nesse sentido, uma fonte brasileira próxima às negociações diz ser difícil arriscar o que exatamente viria, caso a investigação de fato concluísse que as acusações contra o Brasil são pertinentes.


Historicamente, pondera a fonte, os EUA pouco usaram o instrumento da seção 301 do Trade Act de 1974 e, no caso específico da investigação contra o Brasil, o escopo de temas analisados pelo USTR é amplo e vai bem além do Pix.


O que está em jogo
Por que então os EUA voltaram a alfinetar o Pix? No relatório do USTR de março do ano passado, o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro não havia nem sido mencionado diretamente, ao contrário do que aconteceu no deste ano.


Do lado do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama atenção para a expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas especialmente para o fenômeno mais amplo no qual ele está inserido, de transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira internacional.


"O Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros", destaca Duran.


A professora aponta que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes às feitas ao Brasil a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de empresas estrangeiras".


"Em todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados nacionais", completa.


Da economia à política
Diante desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de pagamentos de outros países também está ligada a uma questão ainda mais ampla, de soberania.


O que está em jogo, diz ela, já não é apenas a concorrência entre empresas, "mas o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas".


"Nas minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram", afirma Duran.


"A moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento central do poder monetário estatal."


Isso ajuda a explicar por que as polêmicas em torno do Pix também mobilizam a arena política.

Desde o início dos ataques do governo Trump ao sistema de pagamentos a gestão Lula tem procurado usar os episódios para melhorar sua imagem apostando em um discurso focado justamente na soberania nacional.


Membros do governo também têm buscado usar a polêmica para atingir adversários políticos, especialmente aqueles ligados ao bolsonarismo, que têm um histórico de proximidade com a gestão Trump.


O assunto promete estar entre os temas de discussão da eleição presidencial de 2026.


Fonte: BBC News Brasil - Camilla Veras Mota, de São Paulo.

Crédito imagem: Agência Brasil




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Toni Remigio
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