Guerra lá, valorização cá: conflito no Irã fez ações da Petrobras baterem recorde.
Em razão da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o setor petrolífero mundial vive uma enorme disparada de preços.
A recente valorização das ações preferenciais PETR4 da Petrobras
(títulos que oferecem prioridade aos acionistas no recebimento de
dividendos e compensações, geralmente não dão direito a voto e
servem de referência para avaliação do valor de mercado da
companhia) na Bolsa de Valores (B3) reflete a alta da principal
commodity da estatal: o
petróleo.
Mesmo
assim, a corrida aos papéis da Petrobras talvez não ocorresse com a
mesma intensidade sem a retomada de investimentos exploratórios e a
modernização do parque de refino.
Oportunidade
Essa
é a opinião de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, que
enfatizam as oportunidades abertas para a Petrobras diante da crise
no Oriente Médio, classificada por analistas do banco
norte-americano Goldman Sachs como um autêntico choque do petróleo
- o terceiro dos últimos 50 anos - , depois dos registrados em 1973
e 1979.
Autossuficiente
Diferentemente
dos choques anteriores, que apanharam o Brasil na dependência
radical dos grandes exportadores no Oriente Médio, o atual encontra
o país autossuficiente em produção de petróleo bruto, do qual é
exportador.
Segundo balanço da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) divulgado na quarta-feira, 1º de abril, a produção brasileira de petróleo e gás natural bateu recorde em fevereiro, alcançando 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d).
"Considerando
que todos os outros fatores permaneçam inalterados, os preços do
petróleo em alta poderiam aumentar exportações e receitas
tributárias do Brasil, assim como dividendos fluindo para o
Tesouro", afirmam os economistas István Kecskeméti e Zoltan
Horváth em análise divulgada no dia 11 de março no site da
consultoria húngara OTP Global Markets.
O
país ainda necessita importar, entretanto, derivados como diesel,
gasolina e querosene de aviação.
Lula
esbraveja
Preocupado com os reflexos da crise sobre sua
imagem e a campanha pela reeleição, o presidente Lula reagiu com
indignação a um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP), o
popular gás de cozinha, da Petrobras, que vendeu o produto às
distribuidoras com preços até 100% maiores do que os cobrados na
tabela da companhia.
"Foi
feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem que
fizeram", disse. Ele ameaçou anular o processo, mas isentou a
direção da Petrobras de responsabilidade pelo episódio.
Para
o professor do Programa de Pós-graduação Profissional em Economia
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maurício Weiss,
o comportamento das ações da estatal brasileira de petróleo pode
ser descrito com mais precisão como uma
"síntese de
fatores conjunturais e estruturais".
"Este
ano, a Petrobras já subiu mais de 50% [em valor de mercado]. Em
março, ela subiu 18%. Isso decorre, de fato, do conflito no Oriente
Médio, com a alta dos preços dos combustíveis", explica
Weiss.
Pré-sal
Maior
empresa da América Latina em valor de mercado, estimado em mais de
US$ 130 bilhões, a Petrobras teve seu perfil incrementado pela
descoberta e exploração das reservas situadas na camada pré-sal
das águas territoriais brasileiras no Atlântico, entre 5 mil e 7
mil metros de profundidade, a partir de meados da década de 2000.
Na
década seguinte, porém, a companhia foi alvo de um megaescândalo
de corrupção, investigado pela chamada Operação Lava-Jato, que
levou ao processo e condenação de pelo menos quatro diretores da
estatal por crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e
evasão de divisas.
O
caso foi decisivo para o impeachment da então presidente Dilma
Rousseff (PT), em 2016.
Pressão
externa
Sob pressão da alta do petróleo a partir do início
da guerra no Oriente Médio, o governo Lula adotou uma série de
medidas mitigadoras como a redução a zero do PIS/Cofins sobre o
diesel, o subsídio de R$ 0,32 por litro desse combustível e a
redução de alíquotas de Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Serviços (ICMS) pactuada com todos os 27 governadores.
A
China, por outro lado, embora continue sendo a maior importadora de
petróleo do mundo, aposta na diversificação da sua matriz
energética. O país tem petróleo, carvão e minerais críticos, mas
tem apostado nos últimos anos na não-dependência do petróleo.
Com informações: BBC Brasil
Crédito foto: Fernando Frazão - Agência Brasil
