Comunismo só para oprimidos: BBC expõe império bilionário da elite secreta de Cuba.
Fortuna de cerca de US$ 20 bi de holding das Forças Armadas Revolucionárias contrasta com a situação econômica de Cuba, “um país praticamente falido”, diz reportagem.
Atahualpa Amerise, do serviço da BBC no Brasil, publicou nesta segunda-feira, 20, reportagem sobre os benefícios exclusivos da casta do regime tirano que domina ilha caribenha com mão de ferro e fuzilamento de opositores no Paredão há quase 70 anos.
Confira e cuidado com os engulhos que a desfaçatez e cinismo desses facínoras causam em gente de bem.
“Enquanto Cuba enfrenta a escassez e os apagões, um conglomerado empresarial vinculado às Forças Armadas do país administra secretamente bilhões de dólares”, inicia o texto.
A Gaesa (Grupo
de Administración Empresarial S. A.) não tem website, nem endereço
de correio eletrônico institucional conhecido, nem canais oficiais
de contato. Ela não publica balanços, nem aparece no orçamento
estatal.
A Assembleia
Nacional do Poder Popular e a Controladoria Geral da República de
Cuba não podem auditar suas contas — mesmo com a empresa
embolsando praticamente cada dólar recebido pelos negócios mais
rentáveis do regime cubano: turismo, remessas financeiras, comércio
exterior e missões médicas no estrangeiro.
Holding
A
holding pertence às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR),
mas também não está sob seu controle.
Em 2024, ela
possuía bens no valor de pelo menos US$ 17,9 bilhões (cerca de R$
89,4 bilhões), incluindo mais de US$ 14,4 bilhões (cerca de R$ 71,9
bilhões) em contas bancárias, segundo documentos vazados para o
jornal americano Miami Herald.
A BBC não
conseguiu verificar estes dados de forma independente.
Esta fortuna é maior que as reservas internacionais de países como o Equador, o Paraguai ou a República Dominicana. Ela ilustra a magnitude do império econômico representado pela Gaesa.
Tudo isso
contrasta com a situação econômica de Cuba, um país praticamente
falido, com queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos e
insolvente frente aos seus diversos credores internacionais.
Quase nove a
cada 10 cubanos vivem em condições de extrema pobreza ou
"sobrevivência", segundo estimou em 2025 o Observatório
Cubano dos Direitos Humanos.
E, neste ano, a crise no
país se intensificou com apagões de várias horas por dia e com a
escassez ainda maior de alimentos, combustíveis e medicamentos.
Nos últimos
meses, o governo do presidente americano Donald Trump intensificou as
sanções contra a ilha, com um bloqueio de facto do fornecimento de
petróleo, que agravou os problemas de energia e abastecimento.
O contraste
entre um Estado em bancarrota e a existência de uma entidade obscura
que suga as principais fontes de receita sob o guarda-chuva militar
levanta questões importantes que tentaremos responder a seguir.
Como opera a Gaesa? Quem está por trás dela? Onde ela guarda e investe o dinheiro?
Até que ponto esta economia paralela é responsável pela miséria que assola Cuba?
A BBC News
Mundo (o serviço em espanhol da BBC) tentou entrar em contato com o
governo cubano por diversas vias, mas não recebeu resposta até a
publicação desta reportagem.
Qual é a sua origem e
como ela opera
"A Gaesa funciona como uma grande
holding, um polvo de vários braços que se apropriou da economia
cubana em quase todos os seus setores rentáveis ao longo dos últimos
15 anos", explica Emilio Morales, presidente da consultoria
Havana Consulting Group, que estuda a economia cubana.
Mas
a Gaesa nasceu muito antes, na década de 1990. Ela era um mecanismo
criado dentro das FAR para administrar empresas que operavam com
divisas em plena crise econômica (o chamado Período Especial), após
a queda da União Soviética (1922-1991).
Seu objetivo
inicial era relativamente limitado: gerar recursos para as próprias
Forças Armadas por meio de negócios vinculados ao turismo, comércio
exterior e outros setores que captavam dólares.
Mas, com
o passar do tempo, essa estrutura se transformou em um império
financeiro.
A deterioração da saúde de Fidel Castro
(1926-2016), até então líder hegemônico de Cuba, levou à
ascensão ao poder do seu irmão Raúl, interinamente em 2006 e
formalmente em 2008.
Desde então, o conglomerado começou
a se expandir rapidamente e absorver empresas estatais estratégicas,
entre elas a maior de todas: a Cimex.
"Ao se
apropriar da Cimex, a Gaesa adquiriu toda a sua rede de empresas,
dentro e fora de Cuba: corporações localizadas em paraísos fiscais
como o Panamá, comércios varejistas em moeda local e em dólares,
postos de gasolina, negócios imobiliários, exportação,
importação, atacadistas...", explica Morales.
A
holding foi englobando outras empresas rentáveis, como as
especializadas no setor turístico Gaviota e Habaguanex, parte da
operadora de internet Etecsa e a gestão do porto comercial de
Mariel, o maior do país.
A Gaesa assumiu também o
controle do Banco Financeiro Internacional (BFI), que opera as
transações de Cuba com o exterior.
Na prática, a
holding monopolizou quase todos os negócios que atraem dólares: o
turismo, comércio, telecomunicações, bancos, remessas financeiras,
logística e construção.
No papel, Cuba
funciona em um sistema socialista, no qual a economia é monopólio
do Estado. Mas a Gaesa não presta contas à Assembleia Nacional e
mantém seus balanços em sigilo.
"Seus
balanços são secretos, a imprensa cubana não a menciona e ela
trabalha em total obscuridade", explica à BBC o economista
Pavel Vidal, um dos maiores especialistas nas finanças de Cuba.
"E, na
verdade, também não paga impostos e não aparece nos orçamentos do
Estado, já que tem um orçamento independente. É uma economia
dentro de outra", define ele.
Sigilo em
torno deste império na sombra é enorme.
Em julho de 2024, a então controladora-geral de Cuba, Gladys Bejerano, foi exonerada após 14 anos no cargo. Ela havia admitido, em um aparente descuido durante uma entrevista à agência de notícias EFE, que o Estado não teria jurisdição para auditar a Gaesa.
Três anos
antes, em 2021, o então ministro das Forças Armadas de Cuba,
Leopoldo Cintra Frías, foi suspenso, segundo fontes, pouco depois de
tentar promover uma investigação interna sobre a holding
multimilionária ligada à sua pasta.
Não se sabe
ao certo, em nenhum dos dois casos, se as destituições foram
relacionadas às suas incursões nos assuntos da Gaesa ou se foram
meras coincidências. Bejerano e Cintra Frías eram septuagenários
quando foram afastados dos seus respectivos cargos.
O grupo
empresarial foi presidido por anos pelo general Luis Alberto
Rodríguez López-Calleja (1960-2022), ex-genro de Raúl Castro e
considerado um dos homens mais poderosos do país.
Foi sob seu
comando que a Gaesa assumiu o controle das principais empresas
estatais, até se tornar a gigante que é hoje em dia.
Após a morte
de Rodríguez López-Calleja, em 2022, a presidência do grupo passou
para a sua vice, a generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres.
Estes são os dois únicos nomes conhecidos deste conglomerado empresarial multimilionário. Mas quem forma a elite que controla a Gaesa e seus bens?
Quem
são seus donos
Identificar os proprietários e
diretores da Gaesa não é uma tarefa fácil.
Sua estrutura
empresarial é extremamente obscura. Não se sabe quem lidera seus
órgãos de decisão, não há um organograma oficial e boa parte das
suas empresas operam por meio de redes societárias de difícil
rastreamento.
Mas investigações jornalísticas,
documentos vazados e relatórios de acadêmicos que passaram anos
estudando o grupo oferecem importantes indícios sobre a elite deste
poderoso conglomerado.
Segundo Emilio Morales, o poder é
concentrado em um grupo seleto e reduzido. "Não ultrapassa 15
pessoas", revela ele.
"Não são
nomes públicos, são muito herméticos. Eles têm designado a cada
empresa um profissional de informática, um contador e um oficial da
contrainteligência, para supervisionar toda a parte contábil",
prossegue Morales, mencionando o testemunho anônimo de um
ex-funcionário da Gaesa.
Ele afirma que
a holding usa o aparato militar para garantir que o controle das suas
empresas e operações permaneça sem ser questionado, mas quem
realmente manda não são os generais das Forças Armadas.
"Na
Venezuela, havia muitos arquipélagos de poder", compara ele.
"Diosdado [Cabello, ex-presidente da Assembleia Nacional] tinha o dele, [Vladimir] Padrino [ex-ministro da Defesa] o seu, [Nicolás] Maduro, Delcy [Rodríguez, atual presidente] etc."
"Mas o
caso de Cuba é diferente. Raúl Castro nunca quis que os generais
tivessem poder financeiro. Os generais existem para controle
político."
Neste sentido, o presidente da plataforma acadêmica Cuba Século 21, Juan Antonio Blanco, explica à BBC News Mundo que Raúl Castro sempre tentou "evitar que os generais se corrompessem, tendo acesso a grandes valores em dinheiro".
Por isso, "a
Gaesa foi reservada para um grupinho de elite da família Castro e os
mais próximos", garante ele. "Existe um ou outro general,
sim, mas não porque sejam generais, mas porque eram incondicionais,
historicamente próximos da família de Raúl Castro."
Assim, a elite
do colosso empresarial (ou parte dela) seria o entorno familiar e
militar do general Raúl Castro, hoje com 94 anos. Oficialmente
aposentado, ele continua sendo o homem mais poderoso de Cuba, segundo
os analistas.
Raúl Castro
tem quatro filhos: Déborah, Mariela, Nilsa e Alejandro Castro Espín.
E também vários genros, netos e parentes próximos, que são
vinculados a negócios e instituições importantes do poder.
Entre eles,
estão seu influente ex-genro Luis Alberto Rodríguez López-Calleja,
morto em 2022, e o seu neto e guarda-costas Raúl Guillermo Rodríguez
Castro, conhecido como o "Caranguejo".
Rodríguez
López-Calleja foi o artífice da grande transformação da Gaesa,
antes uma limitada rede de empresas militares, em um gigantesco
conglomerado que controla praticamente todas as atividades rentáveis
do país.
Já em relação
ao "Caranguejo", suas frequentes viagens ao Panamá na
última década (foram mais de 20 entre 2024 e 2025, segundo fontes,
muitas delas em aviões particulares) levaram muitas pessoas a
associá-lo diretamente aos negócios milionários da holding.
Os
especialistas também acreditam que o papel da atual
presidente-executiva da Gaesa, Ania Guillermina Lastres, é
principalmente operacional: ela representa e supervisiona a empresa,
mas não faz parte do seu núcleo de proprietários, com poder de
decisão e acesso aos seus fundos multimilionários.
O nome de
Lastres é o único que se dá a conhecer neste emaranhado, já que
não existe um organograma oficial.
Perguntar
sobre o lado interno da Gaesa é como encontrar um muro pela frente.
Muitas das suas empresas são estruturadas em redes de companhias e
filiais, que ocultam os verdadeiros donos dos negócios.
"Os
acionistas de uma empresa podem ser outra empresa; e, desta, uma
outra empresa — uma cadeia de companhias, para que não se consiga
realmente chegar ao verdadeiro dono", segundo Morales. "E,
no fim, você encontra um nome que é colocado ali como testa de
ferro."
Este tipo de
estrutura é frequente em paraísos fiscais ou jurisdições com
baixa transparência corporativa. Ela também dificulta seguir o
rastro do dinheiro.
Daqui, surge
outra pergunta importante: onde está e qual é o destino do dinheiro
da Gaesa?
Onde está
o dinheiro
O conglomerado passou mais de duas décadas
ampliando sua presença em setores fundamentais do país, sem que
ninguém conseguisse avaliar a magnitude do seu império
econômico.
A Gaesa mantém suas contas em segredo e opera
fora do escrutínio público. Mas o vazamento de documentos internos
publicado no ano passado pelo Miami Herald trouxe um facho de luz, ao
fornecer números específicos pela primeira vez.
Com
informações: https://www.bbc.com/portuguese
Crédito
imagem: Revolução Cubana - divulgação
