BBC News Brasil revela bastidores da operação de resgate que levou a BYD à lista suja do trabalho escravo
Revelação acontece após mais de um ano que uma grande operação resgatou 163 trabalhadores chineses do canteiro de obras da fábrica da montadora na cidade de Camaçari
Matéria assinada pela jornalista Camilla Veras Mota, do serviço brasileiro da estatal britânica BBC, em São Paulo, publicada nesta segunda-feira, 18, revela por que a montadora chinesa BYD entrou na lista suja do trabalho escravo.
A
revelação ocorreu no mesmo mês em que a BYD superou a Volkswagen e
se tornou em abril pela primeira vez líder de vendas de veículos no
varejo no Brasil.
Foram 14,9 mil modelos elétricos e
híbridos que chegaram às garagens dos brasileiros, contra 14,8 mil
automóveis da marca alemã.
“Foi
também nesse mês que a empresa entrou na ‘lista suja’ do
trabalho análogo à escravidão, mais de um ano depois que uma
grande operação resgatou 163 trabalhadores chineses do canteiro de
obras da fábrica da montadora na cidade de Camaçari, na zona
metropolitana de Salvador”, esclarece o texto.
“Vão
parar na lista suja empregadores flagrados submetendo seus
funcionários a condições degradantes de trabalho e a jornadas
exaustivas. Uma vez no cadastro, eles ficam ali por dois anos”,
diz.
Acrescentando
que a BYD ficou três dias, conseguindo uma liminar na Justiça para
que seu nome fosse retirado até que seu caso fosse julgado no
Judiciário.
Apesar
de gerar debates, a estratégia não é incomum. Cada vez mais
empresas procuram os tribunais na tentativa de obter decisões
temporárias que as retirem do cadastro, que existe desde 2004.
Isso
porque, além de uma possível crise de reputação, estar na lista
também pode significar maior dificuldade de acesso a novos
empréstimos, já que algumas entidades financeiras têm como
política não fazer negócio com quem está no registro.
O
que chamou atenção no caso foi o que aconteceu uma semana depois: o
titular da área dentro do Ministério do Trabalho responsável pela
elaboração da lista, Luiz Felipe Brandão de Mello, secretário de
Inspeção do Trabalho, foi demitido.
A
pasta se manifestou em nota na época afirmando que se tratava "de
ato administrativo de gestão, de prerrogativa de ministro de
Estado", sem dar mais detalhes.
Para
a associação de auditores-fiscais do trabalho (Anafitra), a
exoneração tem ligação direta com o caso da BYD.
Segundo
a entidade, o episódio seria o mais recente de uma sequência de
interferências políticas do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, na
atuação de servidores técnicos no combate ao trabalho análogo à
escravidão — uma conduta que, na visão da Anafitra, começou com
uma ação de Marinho em favor da JBS Aves um ano antes.
A
BYD e o ministério não responderam ao pedido de posicionamento
feito pela reportagem.
A
BBC News Brasil teve acesso ao relatório da fiscalização que
culminou no resgate dos 163 trabalhadores chineses em Camaçari e
conversou com fontes que atuaram de forma direta ou próxima do caso,
que pediram anonimato por medo de represálias.
Saiba
mais em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cevp0lmw83po
Crédito
imagem: Ministério Público do Trabalho (MPT)
