A natureza do escorpião e a vilania recorrente na metáfora da vida
“Perdoe
seus inimigos,
mas não esqueça seus sobrenomes”
John
F. Kennedy
Sábio
e velho amigo que esclarece complexas questões do cotidiano com
tiradas leves, curtas e certeiras, bate, como de hábito, um bolão, e manda a pelota
de novo pro fundo do gol:
“Remiginho, não te ilude:
porco é porco, leão é leão e cachorro é cachorro”.
Ou
seja, quis dizer o craque da vida: em relação ao comportamento (e
vilanias) humanos, quem é da espécie A, jamais se tornará ou se
transformará, por meio de ações e reações, sejam elas racionais
ou instintivas, naquilo que C ou D sobre ele ou ela almejam ou
projetam.
Especificamente falando, atitudes de
terceiros (as) que, se não causam (más) surpresas, mostram que quem
as tomou nada mais fez do que repetir aquilo que sempre foi. E
cometeu. E continua sendo. E aprontando.
Tantas são as toadas na marcha diária, idas e vindas, gestos e trapaças, que os últimos acontecimentos da semana finda ontem nos remeteram, imediatamente, após lembrar dos exemplos da fauna citada pelo sábio (e bom) malandro, da natureza do escorpião na metáfora da vida.
Fábula
Erroneamente
atribuída ao grego Esopo, uma das mais famosas fábulas que buscam
no comportamento animal fazer uma comparação com os enredos da
vida, trata-se, exatamente, daquela protagonizada por um aracnídeo e
um incauto sapo.
A
história narra o escorpião que pede ajuda ao sapo para atravessar
um rio, já que não sabia nadar. Temendo ser picado, o sapo hesita,
mas o escorpião argumenta que, se o picasse, ambos morreriam
afogados.
O sapo concorda e o carrega nas costas. No meio
do caminho, o escorpião pica o sapo. Antes de morrerem afogados, o
sapo pergunta por que ele fez isso. O escorpião responde que é da
sua natureza.
A moral da história ensina que a
verdadeira natureza de alguém não pode ser mudada,
independentemente das circunstâncias ou promessas feitas. É isso.
Cachorro é cachorro…, etc e tal.
Na metáfora da vida, os escorpiões vagam pelo vasto mundo à solta e delinquindo every single day desde o surgimento da espécie humana e daquele aracnídeo predador de oito patas, duas pinças e uma cauda segmentada e estreita onde, em sua ponta, encontra-se o ferrão venenoso.
Tese e antítese
“Fulano é o Pelé da arquitetura. Beltrano, o Ayrton Senna da engenharia e Sicrano, o Michael Jordan da medicina”. Ser o maior da sua categoria lhe proporciona tornar-se qual uma figura de linguagem hiperbólica.
Ou
seja: quando descrevemos esses seres considerados inigualáveis,
revolucionários e maiores expoentes em suas áreas, humanos capazes
de dividir a história das suas profissões em "antes" e
"depois" das suas respectivas atuações, nascem as teses
de adjetivar algo ou alguma coisa pelos nomes desses personagens
admiráveis e únicos.
A antítese desse raciocínio é exatamente entender e classificar aquele bicho escroto que, em suas variáveis, possui venenos letais.
“Aquele escorpião do fulano de tal aprontou de novo”. “Aquela víbora traiu o próprio pai, cuspiu no caixão e na memória dele”.
Cuidado!, na política, nos esportes, na vida empresarial, no serviço público e nas famílias, os escorpiões estão por toda parte. Ah, claro e evidente, que no judiciário também.
Esta
semana a justiça brasileira colheu mais vento fruto das tempestades
que planta cotidianamente.
Alexandre de Moraes, cujo
grupo trabalha diariamente para salvar sua pele tirando a quadrilha,
ops, família Vorcaro de trás das grades, foi considerado suspeito
por tribunal italiano.
Na política local, estadual, o escorpião mais letal que pontifica e vaga por essas amazônicas paragens atende pelo nome de Daniel Santos.
Um sujeito cuja marca maior é a trapaça contra todos que ora lhe estendem a mão (Manoel Pioneiro, PSDB, Helder Barbalho), e ora é flagrado em escândalos descarados de corrupção.
Com um discurso e marketing fajutos de tirar uma “ditadura” do poder, o indigitado mira o posto máximo da política estadual fazendo acordos que, de tão incoerentes, deixam claro que não se sustentam nem na iminente derrota quanto numa hipotética vitória.
Com efeito, esses escorpiões se multiplicam em terras onde plantam-se esquemas pra lá de suspeitos e se colhem a impunidade e a deteriorização do sistema de justiça.
Pecados
capitais
Numa rápida definição dos sete pecados (ou vícios)
capitais, encontramos explicações simples, objetivas e diretas
sobre suas características peculiares, são elas:
Dentre
os sete, atentemo-nos a quatro (soberba, avareza, inveja e ira) e
deixemos, ao menos por ora, os outros três de lado (luxúria, gula e
preguiça).
Soberbo é quem possui um “desejo
desordenado de ser superior, levando à arrogância e à
auto-suficiência”;
Avaro é aquele que tem “apego excessivo e a ganância por bens materiais e dinheiro”;
Invejoso é o ser abjeto que vive com uma “tristeza ou ressentimento ao ver o sucesso e as posses do próximo”;
E irado é o ser que possui uma “raiva descontrolada que se manifesta em ódio, violência ou desejo de vingança”.
Seres
humanos que somos (embora outros tantos mais pareçam bestas-feras
soltas no pasto), caso não freiemos ímpetos e instintos animais,
podemos nos transformar em pessoas capazes de produzir cada uma
dessas características vistas ou previstas desde que o mundo é
mundo.
E não esqueçamos: “os sete pecados (ou vícios) capitais são inclinações humanas que servem de raiz para outros pecados, e foram classificados pela tradição cristã para auxiliar no autoconhecimento e combate espiritual”.
Avarento e ganancioso
Chama atenção na vida terrena e contemporânea como os pecados capitais andam juntos, associados, parceiros. Você, estimada leitora, e o senhor, prezado leitor, já reparou ou se deparou com gente desse jaez?
Sim,
o sujeito que consegue ser ao mesmo tempo avarento e ganancioso. Os
mais “experientes” devem se lembrar do icônico personagem Nonô
Corrêa, interpretado magistralmente pelo veterano Ary Fontoura, na
novela “Amor com amor se paga”.
Me arrisco a dizer que
o “seu Nonô” possa ter ter sido inspirado no personagem central
de “O Avarento”, a comédia teatral escrita pelo francês
Molière, estreada em 1668, baseada, por sua vez, na obra clássica
Aulularia, de Plauto.
“A peça é uma sátira genial
sobre a ganância e a obsessão cega pelo dinheiro”, diz a sinopse
de uma das suas traduções. Harpagão, como seu Nonô, era um velho
viúvo e extremamente “pão-duro”.
Se o nosso Ayrton
Senna para tantos é o “Pelé” da Fórmula 1, seu Nonô virou
sinônimo de “pão-durismo”, avareza e ganância desde então.
Foi o que chamamos alhures de “tese e antítese”.
Os
piores
Dito isso e caminhando para o final, deixo aqui
consignado e registrado que o ovo da serpente, a raiz de todo o mal
dos piores seres com os quais tive o infortúnio de conviver ou
conhecer nessa lassa vida - todos - sem exceção, ora se valem de
parte ou os sete pecados capitais ou são verdadeiros lobos em
peles de cordeiros.
Este
último grupo, invariavelmente se faz de coitadinho, vítima, possui
voz mansa e quando deseja ou planeja algo, é capaz de gestos generosos,
gentis, educados, até nobres e solícitos.
O outro grupo,
dos avaros e gananciosos, não perde a pose ou a arrogância nem
quando sofre as piores e mais humilhantes derrotas.
Na metáfora da vida, infelizmente, esses tipos vulgares vagam por aí, quais hienas, em bando e aos montes nos quatro cantos do mundo, em todos os mares, terras e oceanos.
Parafraseando a epígrafe de John Kennedy, vos digo: “Reconheça um traidor incorrigível e fuja de gananciosos e avarentos”.
PS: Que futebolzinho mequetrefe o do Brasil contra o Marrocos, hein?
