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A escolha de Pikachu

“Há decisões no futebol que não cabem apenas na planilha de salário, no tempo de contrato ou na promessa de vitrine nacional. Elas atravessam a memória afetiva, mexem com identidades coletivas e reescrevem — às vezes de forma irreversível — a relação entre um jogador e sua torcida. A ida de Yago Pikachu, cria do Paysandu, para o Clube do Remo, é uma dessas decisões.

Pikachu não é um jogador qualquer na história recente do Paysandu. Ele é símbolo de um momento importante, quando o Paysandu foi campeão paraense e subiu da terceira para a segunda divisão em 2012. Ele era um dos principais nomes e grande revelação do clube. Uma das poucas a vingar nos últimos anos. Tornou-se ídolo não apenas pelo que jogou, mas pelo que representou: um atleta que cresceu ali, que parecia carregar no corpo e na corrida a identidade do clube. Ídolos não se fabricam; eles se constroem lentamente, na repetição dos jogos, nas derrotas divididas, nas vitórias sofridas. 

A travessia da avenida não é um simples deslocamento profissional. No futebol de Belém — e em tantos outros contextos semelhantes — ela é simbólica. Ela rompe uma narrativa. Ao vestir a camisa do maior rival, Pikachu não apenas muda de clube: ele reescreve sua própria biografia esportiva. O que antes era lembrado como pertencimento passa a ser visto como ruptura; o que era gratidão vira ressentimento por parte da torcida. 

O argumento do profissionalismo é sempre o primeiro a surgir. Futebol é trabalho, carreira é curta, decisões precisam ser racionais. Tudo isso é verdade. Mas é uma verdade incompleta. O futebol só existe como mercado porque antes existe como paixão. Sem torcida, sem vínculo, sem memória, ele se reduz a um negócio qualquer — e é justamente essa dimensão simbólica que transforma jogadores em algo maior do que atletas. Eles se transformam em ídolos.

Ao optar pelo Remo, Pikachu provavelmente perderá essa condição no Paysandu. Ídolos sobrevivem à aposentadoria; contratos, não. E, ao mesmo tempo, dificilmente será ídolo no Remo. A torcida azulina pode até respeitar o profissional, mas dificilmente acolherá como símbolo alguém cuja história está profundamente ligada ao rival. Ele pode ser útil, pode ser decisivo, pode até ser campeão, mas ídolo é outra coisa. Ídolo nasce de identificação, não de transferência.

Resta a pergunta incômoda: vale a pena? Vale trocar um lugar consolidado na memória coletiva por um ganho imediato, sabendo que esse ganho não compra pertencimento nem reconstrói afeto? Cada jogador responde a isso de forma íntima, pessoal. Mas o futebol mostra, repetidas vezes, que o dinheiro acaba, o contrato termina, e o que sobra é a lembrança — boa ou amarga — deixada em quem cantou seu nome.

No fim, talvez a maior perda não seja técnica, nem financeira, nem sequer esportiva. É simbólica. Pikachu deixa de ser parte de uma história para se tornar apenas um capítulo um tanto controverso dela. E no futebol, onde a eternidade mora na arquibancada e não no extrato bancário, isso costuma pesar mais do que parece”

Por Ismael Machado




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Toni Remigio
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