Remo precisa jogar o que ainda não jogou para sobreviver diante do Flamengo
*Texto de Sergei Rodrigo
“Na vice-lanterna da Série A, pressionado por uma sequência de resultados ruins e cercado por turbulências fora de campo, o Remo recebe no domingo um Flamengo que chega a Belém a um ponto da liderança do Campeonato Brasileiro. O cenário não poderia ser mais contrastante. O Flamengo aparece entre os principais candidatos ao título, com 51 pontos, apenas um atrás do Palmeiras, além de ostentar o melhor ataque e a melhor defesa da competição.
O Remo, por outro lado, soma 23 pontos, ocupa a 19ª colocação e tenta encontrar forças para deixar uma zona de rebaixamento que aperta a cada rodada.
Antes da paralisação do calendário para a Copa do Mundo, o momento azulino era outro. O Remo chegou à pausa ainda dentro do Z-4, mas havia conquistado 10 dos últimos 15 pontos disputados e dava sinais de evolução sob o comando de Léo Condé. A equipe parecia mais organizada, competitiva e capaz de reagir dentro do campeonato. A retomada, porém, mudou o cenário. Nos sete jogos disputados após a paralisação, o Remo conquistou apenas uma vitória, além de dois empates e quatro derrotas, somando cinco pontos em 21 possíveis.O único triunfo aconteceu diante do Vitória, por 2 a 0, no Mangueirão, ainda em julho.
A derrota para o Coritiba, na última segunda-feira, pesou ainda mais no ambiente. O Remo tinha uma oportunidade concreta de sair da zona de rebaixamento, jogou em casa, criou muito, finalizou 32 vezes e chegou a virar a partida, mas acabou derrotado por 3 a 2, sofrendo o gol decisivo já nos acréscimos. Talvez por isso o resultado tenha sido tão doloroso para o torcedor. Não foi uma atuação apática. O Remo produziu, pressionou e teve momentos de superioridade. Ainda assim, saiu novamente sem pontos. E a tabela não leva em consideração desempenho moral.
O Leão permanece com 23 pontos, dois atrás de Internacional, Vasco e Mirassol. A distância para sair do Z-4 ainda é pequena, mas o tempo começa a ficar menor e o calendário não oferece qualquer conforto. É nesse contexto que Léo Condé chega ao confronto de domingo.
O treinador vive seu período de maior pressão desde que assumiu o clube. A sequência sem vitórias, a permanência na zona de rebaixamento e a frustração acumulada pela torcida colocaram seu trabalho no centro das discussões. Depois do jogo contra o Coritiba, Condé reafirmou convicção no que vem sendo feito, mas, neste momento da competição, convicção precisa caminhar junto com resultado.
A vitória contra o Flamengo não resolveria todos os problemas do Remo, mas manteria o clube vivo na disputa para sair da zona de rebaixamento e devolveria confiança a um ambiente claramente desgastado.
Depois da derrota de segunda-feira, o clima entre os azulinos ficou pesado. Há frustração, desconfiança e a sensação de que o time desperdiçou uma das melhores oportunidades recentes para respirar no campeonato. Ainda assim, o torcedor não abandonou o Remo. A procura por ingressos foi alta, o setor visitante está esgotado, o Lado A destinado aos remistas também teve sua carga vendida e o clube passou a comercializar o Lado B. Mesmo diante da fase ruim, o Mangueirão deve novamente receber um grande público.
Fora de campo, o momento também é turbulento. O Remo vive intensa movimentação interna, especialmente em razão da campanha eleitoral do presidente Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão. A exposição política do mandatário, em meio à luta do clube contra o rebaixamento, provocou críticas entre parte dos torcedores e aumentou a sensação de instabilidade. A candidatura é uma decisão pessoal e legítima, mas não caiu bem em um momento no qual o futebol exige atenção total da diretoria. Para uma parcela da torcida, a impressão é de que o clube não deveria dividir protagonismo com qualquer projeto político enquanto luta pela permanência na Série A.
E, justamente nesse ambiente, aparece o Flamengo. O adversário chega a Belém disputando a liderança, com um dos elencos mais fortes do continente e vivendo uma realidade completamente diferente da azulina. Enquanto o Remo tenta escapar da parte de baixo da tabela, o Flamengo busca assumir o primeiro lugar da Série A. No primeiro turno, no Maracanã, o Rubro-Negro venceu por 3 a 0. Agora, o cenário será o Mangueirão, com maioria azulina nas arquibancadas e um Remo pressionado pela necessidade de reagir.
Não será suficiente repetir contra o Flamengo o volume de jogo apresentado diante do Coritiba. Será necessário aproveitar as oportunidades, reduzir erros defensivos e manter concentração durante os 90 minutos. Contra equipes desse nível, qualquer falha costuma ter preço alto. O Remo também não pode entrar em campo pensando apenas em sobreviver ao adversário. A situação na tabela já não permite tratar derrota como algo natural apenas porque o outro lado é tecnicamente superior. Se quiser permanecer na Série A, o Remo precisará começar a ganhar partidas consideradas improváveis.
O Flamengo talvez seja hoje o adversário mais difícil possível. Tem elenco, organização, poder ofensivo, confiança e disputa diretamente o título brasileiro. É justamente por isso que uma vitória teria peso muito maior do que três pontos. Para vencer no domingo, o Remo terá de apresentar uma atuação diferente de tudo aquilo que mostrou até agora na competição. Não basta competir, não basta jogar bem por alguns momentos e não basta finalizar mais. Será necessário ser eficiente.
Porque, diante do Flamengo, o Remo não estará tentando apenas vencer um dos melhores times do continente. Estará tentando provar que ainda consegue mudar o rumo de uma temporada que começa a escolher seu destino antes que o próprio clube o faça”
Texto escrito por Sergei Rodrigo , do Canal “Chaves Remista”
