Olympia 114 anos: Tradicional espaço está de volta com restauração histórica.
Obra resgata elementos originais, moderniza estrutura e devolve a Belém o cinema mais antigo do Brasil em funcionamento como símbolo vivo de memória, cultura e futuro
Poucos locais resistem ao tempo com a força simbólica de atravessar gerações, transformações urbanas e mudanças tecnológicas sem perder a essência. Em Belém, o Cine Olympia é um desses marcos raros.
Mais do que um
prédio histórico, é registro concreto de uma cidade já
considerada a “Paris na América”, palco de encontros, memórias
afetivas e da evolução da sétima arte.
Ao completar
114 anos, o Olympia ressurge em meio a um cuidadoso processo de
restauração que não apenas recupera a estrutura, mas reconecta
passado e presente em um mesmo cenário cultural.
No próximo
dia 24 de abril, o Cine Olympia celebra mais um capítulo da
trajetória como um dos símbolos da cultura e da memória de Belém.
Mais antigo cinema em atividade do Brasil, o espaço
passa por um momento decisivo: uma restauração profunda e inédita,
que resgata características originais que estavam escondidas há
décadas — como o arco da fachada, redescoberto durante as obras.
Com cerca de
80% dos trabalhos de restauro concluídos e previsão de entrega no
segundo semestre deste ano, a intervenção em curso representa um
marco na preservação do patrimônio histórico da capital paraense.
Trata-se de um reencontro com o passado e de um investimento no
futuro da cultura local.
Das origens
na Belle Époque ao símbolo cultural de Belém
Inaugurado em 24 de
abril de 1912, o Cine Olympia foi construído em meio ao auge
econômico do ciclo da borracha, período em que Belém vivia a fase
mais próspera e sofisticada.
Inspirada nos padrões
europeus, especialmente franceses, a cidade ganhou ares de metrópole,
consolidando-se como um polo cultural.
“O Cinema
Olympia é fruto de uma Belém glamourosa, marcada pela riqueza e
pela influência da Belle Époque, quando a cidade era conhecida como
a ‘Paris na América’”, contextualiza o arquiteto do
Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de
Cultura de Belém (Secult), Jorge Pina.
Segundo ele, o
cinema foi idealizado pelos empresários Antônio Martins e Pedro
Teixeira, que perceberam a necessidade de ampliar a oferta cultural
em um território já movimentado por espaços como o Theatro da Paz
e a Praça da República.
Inicialmente
dedicado ao cinema mudo, o Olympia contava com um piano para
acompanhar as exibições — um elemento que agora retorna como peça
central da história do espaço.
Ao longo das décadas, o
prédio passou por diversas transformações arquitetônicas,
transitando do estilo eclético, com influência neoclássica e art
nouveau, para o art déco e, posteriormente, para o modernismo.
O atual
processo de restauração ganhou um capítulo inesperado — e
decisivo — quando, durante inspeções estruturais, técnicos
identificaram vestígios da fachada original do cinema, que se
acreditava perdida.
“O arco
original estava lá, apenas camuflado pelas intervenções feitas ao
longo do tempo. Foi um achado extremamente significativo”, destaca
Jorge Pina.
A descoberta
levou à revisão do projeto inicial, que previa uma fachada moderna.
A partir de então, equipes técnicas optaram por resgatar
integralmente os elementos originais, devolvendo ao prédio
características do início do século XX.
A decisão exigiu um
trabalho minucioso de preservação, alinhando técnicas
contemporâneas de engenharia à valorização histórica. A obra é
executada pela empresa GM Engenharia, com acompanhamento de
especialistas e instituições voltadas à conservação do
patrimônio.
A coordenação do projeto é do Instituto
Pedra, com financiamento viabilizado por meio de recursos da Vale, do
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do
Banco da Amazônia (BASA), através da Lei Rouanet.
Ao todo, o
investimento soma R$ 16.152.270,29 — valor referente ao projeto
cultural como um todo, que inclui ações de preservação, memória
e requalificação do espaço.
Reta final das obras e modernização do espaço
Atualmente, as
obras no Cine Olympia estão em fase de acabamento. De acordo com a
engenheira Gabriela Cascais, os trabalhos avançam para a conclusão.
“Estamos na
fase final, com revestimentos, pintura, instalação de forros,
esquadrias e portas. A parte civil deve ser concluída em breve,
dando espaço para a instalação dos equipamentos e mobiliário”,
explica.
Durante a
obra, foram necessários reforços estruturais após o surgimento de
fissuras nas paredes, além da recuperação total do telhado com
mantas metálicas.O projeto também incorpora soluções modernas,
como equipamentos de projeção de última geração, para garantir
qualidade técnica compatível com os cinemas contemporâneos.
O novo Olympia
contará com 255 poltronas — número reduzido em relação à
capacidade original, mas adequado ao perfil atual dos cinemas de rua
— e um bar interno com estrutura envidraçada, permitindo que o
público acompanhe as sessões enquanto consome no espaço, sem
interferir na plateia principal.
Memória
preservada e novos usos culturais
Um dos destaques do
projeto é a criação de uma sala de memória, que funcionará como
um pequeno museu dentro do cinema.
O espaço reunirá
peças históricas, como o antigo projetor e o piano
utilizado na época do cinema mudo — recentemente
adquirido pela Prefeitura de Belém para integrar o acervo.
Além disso, o
local será dedicado a ações de educação patrimonial, com
atividades voltadas à valorização da história do cinema, da
cidade e do próprio prédio, conectando diferentes gerações ao
legado cultural do Olympia.
Um
renascimento cultural para a cidade
Para a secretária de Cultura, Raphaela Segadilha, a restauração do Cine Olympia simboliza muito mais do que a recuperação de um edifício histórico.
“O cinema mais antigo do Brasil completará 114 anos. Apesar de estar inativo desde 2020, é imprescindível a sua preservação, pois trata-se de uma memória cultural de várias gerações, que prestigiaram obras desde o cinema mudo até produções contemporâneas”, afirma.
“Sua
restauração representa um renascimento cultural, preservando essa
herança, educando novas gerações e reacendendo a sétima arte como
ponte entre passado e futuro”, completa.
Com a
conclusão das obras e a posterior instalação de equipamentos —
muitos deles ainda em processo de aquisição, inclusive no exterior
—, a reinauguração do Cine Olympia está prevista para o segundo
semestre deste ano.
Restaurado e
requalificado, o espaço reafirma a vocação cultural e se
reposiciona como palco de novas histórias, sem perder as marcas que
o tornaram um dos maiores símbolos de Belém.

Com informações e imagens: Secom-PMB
