Pé de milho
Há um pé de milho crescendo no quintal! Foi com certa surpresa que recebi essa exclamação quando de minha chegada para o almoço. Dei de ombros, seria apenas mais um alarme falso, como das vezes anteriores em que acreditamos haver um pé de milho crescendo no quintal. Certa feita levou mais de um mês para descobrirmos que não se tratava de pé de milho, mas sim de pé de sorgo, um cereal semelhante que deve ter fecundado no solo de nosso apertado canteiro após ter sido levado no bico por algum pássaro, mas que morreu antes mesmo de produzir seus grãos. Ao sentir minha hesitação em apurar o fato meu rebento me tomou pela mão e me puxou peremptório para o fundo do quintal apontando com o dedo para a planta de não mais que um metro e meio com duas espigas muito bem formadas. Dessa vez era verdade, havia mesmo um pé de milho crescendo no quintal.
Procurei não me interessar demasiadamente, não percebia muitas chances de vida para o pé de cereal que imponente insistia em crescer naquelas poucas braças de terra. Entretanto, não pude deixar de notar que muitas formigas transitavam pelo seu esverdeado caule fato esse que, confesso, me trouxe média preocupação sobre a expectativa de vida da planta. O dia foi avançando, e conforme a luz solar se esvaia, me encontrei pensando cada vez mais na infestação de formigas no canteiro das plantas. Me pus, portanto, a pesquisar a respeito de antídotos que pudessem conter os pequenos insetos. Achei alguns remédios caseiros que prometem dar cabo ao problema. Li também, sobre como cuidar para que o pé siga prosperando de modo que dê mais de uma safra. Aos poucos, estou me especializando no assunto, afinal, há um pé de milho crescendo no quintal.
A surpresa da existência do vegetal se deu pelo fato de nosso jardineiro apesar de ter mãos rápidas não ter nelas muita habilidade, logo, qualquer golpe de sua afiada foice poderia facilmente ter perpetrado uma tragédia mortal contra o pé de cereal. Ocorre, e assim fiquei sabendo depois, que, afortunadamente, o hortelão havia recebido rígidas recomendações sobre dar a cana de milho total imunidade contra seus golpes. Mais do que isso, assim que chegou para seu turno de trabalho lhe foi requisitado o maior cuidado possível ao tratar dos arbustos, já que, havia, contra todas as probabilidades, um pé de milho crescendo no quintal.
A razão para a existência e prosperidade do milheiral de um só pé é bem simples, meu guri é um entusiasta da matéria prima. Adora degustar espigas e mais espigas quentinhas com suculenta manteiga derretida, ou mesmo, coloca-las já mais frias em seu prato de almoço como um acompanhamento da refeição. Sendo assim, trataram de plantar as espigas debulhadas em areia preta numa quimera de que ali brotariam vários pés. A intenção foi boa e a execução por mais estabanada que tenha sido rendeu frutos (literalmente). Em breve me tranquilizarei em retirar da lista de compras as espigas de milho, poderei colhê-las direto do pé junto com meu filho, o que certamente nos trará boas memórias. Outrossim, passarei a tentar executar algumas receitas com meus milhos. Canjicas, bolos, pipocas... tudo isso sem precisar ir à feira, já que no fim das contas há um pé de milho crescendo no quintal.
Me alegro ainda em notar, que mesmo entre tanto concreto e tantas paredes cinzas as plantas seguem brotando. Mesmo que em espaços minúsculos ainda é sim possível plantar e colher. Sem chuva de agrotóxico, sem controle de vigilância e sem pagar os olhos da cara por uma procedência orgânica impossível de se verificar. Meus milhos, nunca irão compor um grande milharal, porém também não irão parar nas prateleiras das grandes redes atacadistas. Serão apenas de quem os plantou e quem sabe de alguns poucos amigos que receberão em doação um punhado deles, como se fazia em um tempo de maior decência. Afinal, se não para isso, qual seria a graça de poder dizer que há um pé de milho crescendo no quintal.
Por fim, me regozijo em notar que os pássaros seguem levando sementes em seus bicos e o clico da vida segue acontecendo diante de nossos olhos à revelia de nossa falta de atenção. Ao contemplarmos a finitude da existência somos convencidos a crer que a morte sempre ganha a batalha de uma forma ou de outra e que tudo um dia acaba. O que em certa medida é verdade. Contudo, me permitam discordar, sempre que vejo uma pequena planta crescendo entre duas placas de concreto me convenço cada vez mais que a vida sempre vence. Vence porque as plantas ainda nascem, porque as crianças seguem sento trazidas pela cegonha e porque a renovação da humanidade nunca foi interrompida em todos esses milhões de anos.
E tais reflexões, assim como essa crônica só puderam ser realizadas por haver, pasmem, um pé de milho crescendo no quintal.
Ps. Dedico essa crônica a João Gabriel, meu filho e meu amigo.
