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PCC na Bolívia: região virou refúgio em meio à dificuldade para desmantelar facções criminosas no país.

País vizinho é o principal fornecedor de cocaína para o PCC. Para analistas, ida de membros do grupo para lá se deve à localização estratégica e facilidade de subornar autoridades.

 Matéria publicada no site da BBC no Brasil neste sábado, 04, revela tentáculos do Primeiro Comando da Capital (PCC) no país que é um dos maiores produtores de folha de coca, base da cocaína traficada para o Brasil e países da Europa, entre outros destinos para onde a droga é traficada.


O texto inicia falando da prisão, no último dia 13 de março, de um dos traficantes mais procurados da América Latina, Sebastián Marset, líder do chamado Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), capturado enquanto dormia em sua casa na capital de Santa Cruz, considerada a cidade mais rica e elitizada da Bolívia.

Durante o período em que viveu no país, chegou a usar uma identidade brasileira falsa para jogar na liga de futebol de Santa Cruz e cultivou vínculos com grupos criminosos poderosos como o PCC.

Em um vídeo publicado em suas redes sociais em outubro de 2025, ele apareceu fortemente armado ao lado de um grupo de pessoas encapuzadas e um símbolo do PCC, afirmando que estavam "preparados para fazer guerra com quem fosse".


A sua prisão, entre outras recentes, refletem um padrão que tem consolidado a cidade como refúgio de lideranças do crime organizado, inclusive de facções brasileiras, diz a matéria.


Líder do PCC
“Em maio do ano passado, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, foi preso durante uma operação conjunta das autoridades bolivianas e da Polícia Federal. Ele foi identificado após tentar renovar sua identidade usando um documento falso”, escrevem as autoras do texto, Ayelén Oliva, da BBC News Mundo e Iara Diniz, do escritório da BBC News Brasil em São Paulo.


Segundo o Ministério Público paulista, Tuta era um dos principais coordenadores de um esquema internacional de lavagem de dinheiro vinculado ao PCC e estava na lista vermelha da Interpol, a Organização Internacional de Polícia Criminal.

O Ministério Público acredita que outros integrantes da facção, que estão foragidos, possam estar escondidos na Bolívia.


Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que Santa Cruz se tornou um "hublogístico e financeiro para o tráfico", ao concentrar localização estratégica e infraestrutura que facilitam a atuação do crime organizado.

"É um local que dá condições operativas para esses grupos se fixarem e estabelecerem seus negócios", diz Rodrigo Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Refúgio do PCC

Mas o que tem levado líderes de organizações criminosas de outros países a se estabelecer em Santa Cruz? Os analistas concordam que, em primeiro lugar, isso se deve à localização estratégica da região.


O leste boliviano compartilha uma extensa fronteira com o Brasil e o Paraguai e, embora não tenha saída para o mar, possui acesso a rios que conectam o país aos vizinhos.

"Santa Cruz ocupa territorialmente uma posição privilegiada do ponto de vista logístico do tráfico, por sua proximidade com o Brasil — que abriga um dos principais portos, o de Santos — e com a hidrovia Paraguai-Paraná, por onde a cocaína é exportada para a Europa", diz Gabriela Reyes Rodas, especialista boliviana em tráfico de drogas e comércio ilícito.


O pesquisador Rodrigo Chagas aponta que essa posição está diretamente ligada à estrutura logística necessária para o funcionamento do tráfico em escala internacional.


"É chave para grupos como o PCC terem acesso a portos, aeroportos e rotas de escoamento. Estamos falando de toneladas de droga e de dinheiro. A logística é central — como movimentar, ocultar, dar aparência legal a essas operações", ele afirma.


O fenômeno também está ligado ao crescimento econômico exponencial de Santa Cruz, impulsionado por investimentos privados de grandes empresários do país, que movimentam o setor imobiliário.


"É um lugar muito fácil para ocultar lavagem de dinheiro. Ele pode se misturar a investimentos legais em comércios e imóveis", acrescenta Reyes.


Por que a Bolívia atrai facções

A facilidade de subornar autoridades e viver com documentos falsos é apontada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime

Organizado de São Paulo (Gaeco), como um dos motivos que levam integrantes do PCC a se esconder na Bolívia.


Em entrevista ao G1 em maio de 2025, logo após a prisão de Tuta, Gakiya afirmou que os faccionados têm "grande facilidade para ir e vir" no país, sem serem incomodados.


"O PCC domina a Bolívia. Nos anos 1990 e 2000, eles se escondiam no Paraguai, depois migraram para a Bolívia por essa facilidade de viver com documento falso, contando com a corrupção de policiais e autoridades locais", disse o promotor, que há duas décadas investiga o PCC.


Há indícios, inclusive, da formação de um núcleo da chamada Sintonia Final do PCC em Santa Cruz de la Sierra, com objetivo de fortalecer, manter e expandir o tráfico de drogas, segundo as investigações.


"A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína para o PCC. Os integrantes da facção têm contatos próximos com criminosos de lá", disse Chagas.

"Estão próximos das áreas produtoras de cocaína e, ao mesmo tempo, em um espaço mais seguro em relação à Justiça, fora do alcance das autoridades de outros países."


Com informações: site BBC Brasil




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Toni Remigio
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