O juiz
Meu ideal de escrita, nas crônicas que aqui trago semanalmente, seria ser costumeiramente um portador de boas notícias, ou, ciente da utopia residente nesse afã, um emissor de alivio cômico e intelectual diante da tão grave e penosa realidade imposta a todos nós. Sempre advoguei no sentido de que as representações artísticas, além de seu papel crítico e pedagógico, deviam carregar em si uma espécie de analgesia, quiçá, até uma temporária rota de fuga para a sufocante rotina. Nesse tom, livros, musicas, peças teatrais, filmes, ao meu sentir, devem possuir um efeito profilático em nosso dia-a-dia.
Noites atrás, imbuído nessa ideia e perseguindo o sono que tem estado arredio, passei a revirar os títulos disponíveis nas locadoras online em busca de um filme que não me fizesse pensar demais ao ponto de me exigir aguçada atenção, mas que de igual modo não fosse tedioso ao ponto de me levar ao desinteresse. Árdua tarefa! Entre um e outro, o título: O Juiz, me chamou a atenção. Lembrei de já o ter visto quando de seu lançamento. Entretanto, doze anos atrás, eu ainda não era quem sou hoje, nem a realidade é a mesma, a percepção é algo intermitente, muda com o escoar do tempo e das experiências adquiridas. Findei por assistir novamente a película.
O título narra a história de Hank Palmer, advogado de sucesso que retorna a sua cidade natal, um pequeno lugar no interior dos EUA, para acompanhar os ritos fúnebres de sua mãe. Entre a dor do luto e o encontro com lembranças incomodas Hank precisa lidar com sua conturbada relação com o pai, o juiz local, Joseph Palmer (Robert Durval em grande forma), que já ocupa o cargo por quatro décadas. No desenrolar da trama, pai e filho tentam acertar suas diferenças enquanto enfrentam o processo criminal e o diagnóstico de Alzheimer do juiz, que busca, com todas as forças, manter intacto seu legado como magistrado honrado e honesto. O longa-metragem traz consigo toda a carga dramática de Hollywood, mas também, curiosamente, mensagens atuais e importantes sobre o funcionamento das instituições e o papel de quem exerce a jurisdição.
Ao assistir, buscando um refrigério para a cabeça, me pus, na verdade, a traçar um paralelo entre realidade e ficção. A honradez do judge Palmer e a forma como, a duras penas, o magistrado tenta a todo momento durante a obra blindar seu cargo e, portanto, seus jurisdicionados, de qualquer ilegalidade ou a eventual anulação de seus casos se perfaz em paralelo perfeito com os juízes da atualidade.
Aos conhecidos juízes que se curvam a nulidades, que com notada desfaçatez empenham a toga a finalidades escusas, que longe de servir a justiça servem tão somente a interesses próprios. E é nesse ponto em que realidade e ficção se transmutam. Diante dos episódios mais recentes, e da enxurrada de manchetes no mínimo desanimadoras para a nação, passamos a viver em uma espécie de pesadelo geral, de delírio coletivo em estado de negação quanto a veracidade das notícias. Não por ter fé na honestidade desses homens, mas por registrar a magnitude do mau-caratismo de seus atos.
Desejei com todas as minhas forças que esses juízes fossem os ficcionais, e que o juiz Palmer fosse o juiz real, com poderes reais no pleno gozo do poder legal. Se mostrássemos a um extraterreste o perfil do juiz da ficção e os perfis e tramas dos supremos juízes brasileiros e perguntássemos a ele qual acharia ser o juiz real e qual o de mentira aposto alguns cruzeiros que o alienígena vaticinaria sem pestanejar que os nossos juízes só poderiam ter saído de uma bem escrita trama policial, e que o juiz do filme, seria, enfim, o juiz de alguma longínqua comarca dos rincões do Brasil.
Contudo, afirmo a você caro leitor, que aqui mesmo em nossa cidade ainda existem juízes como o do filme e que nem tudo está perdido, a justiça brasileira, como a ave fênix, ressurgirá em algum momento, só espero ainda estar por aqui para testemunhar tal fato. Até lá, não percamos tempo assistindo a sessão de logo mais que nada de novo nos trará, às vezes, a ficção é a melhor escolha.
Ps. O filme, o juiz, está disponível na plataforma HBO.
