Na BBC: Terceira Guerra Mundial? Por que a ideia de que o mundo já enfrenta um conflito global ganha força
Sensação de que o mundo já vive — ou está a poucos passos de viver — uma guerra mundial deixou de ser provocação acadêmica e virou tema corrente entre analistas
João Caminoto, de Paris para a BBC News Brasil
Um
navio iraniano afundado no Mar Cáspio por drones ucranianos. Trinta
mil soldados norte-coreanos a caminho da linha de frente russa.
Drones
Shahed, fabricados no Irã, caindo sobre Kiev havia meses — agora
sendo abatidos por especialistas ucranianos enviados ao Golfo Pérsico
para ajudar a proteger aliados americanos de outros drones Shahed,
disparados por outro país.
Há
dois anos, cada um desses fatos seria tratado como episódio isolado,
próprio de uma guerra regional específica. Hoje, cada vez mais
gente enxerga neles a mesma coisa: pedaços de um único conflito,
que se espalha.
A
sensação de que o mundo já vive — ou está a poucos passos de
viver — uma guerra mundial deixou de ser provocação acadêmica e
virou tema corrente entre analistas de segurança internacional,
colunistas e formuladores de política externa.
Não é
consenso, e ninguém está dizendo que o mundo caminha para uma
repetição das duas guerras do século 20.
Mas
a percepção de que os conflitos da Ucrânia e do Irã pararam de
correr em paralelo e passaram a se tocar diretamente veio ganhando
corpo nas últimas semanas — e os encontros do presidente
americano, Donald Trump, nesta terça-feira, 28, em Washington, com o
ucraniano Volodymir Zelensky e com o israelense Benjamin Netanyahu,
ajudaram a reavivar essa sensação, ao reunir na mesma sala, no
mesmo dia, os líderes dos dois lados de guerras que já deixaram de
correr em paralelo: de um lado, Rússia e Irã, que trocam armas e
inteligência entre si; do outro, Ucrânia, que agora troca tiros
diretamente com o Irã.
A tese de Paul Poast
"Os EUA continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem tudo menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã: fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento."
A
frase é do professor de Relações Internacionais e Ciência
Política da Universidade de Chicago, Paul Poast, em entrevista à
BBC News Brasil em maio — um dos primeiros a dar nome e substância
a essa sensação.
Para
ele, dois elementos bastam para justificar o conceito de guerra
mundial: duas grandes guerras simultâneas em continentes diferentes,
a da Ucrânia e a do Irã, e o envolvimento direto de grandes
potências em ambas, cada uma apoiando o
adversário da outra
no conflito oposto.
Poast
reconhece que a escala dos conflitos atuais está longe da devastação
das duas guerras do século 20, mas recorre a um paralelo histórico
menos óbvio: a Guerra dos Sete Anos, no século 18, que também
reuniu múltiplas potências em múltiplos teatros sem alcançar
aquele patamar de destruição.
"Essa
é uma analogia muito melhor para pensar o conceito de guerra
mundial", disse. Já em maio, via na China o fator mais
imprevisível da equação — o risco de Pequim interpretar o
desgaste americano na Ucrânia e no Irã como uma janela de
oportunidade sobre Taiwan. "Esse seria o grande ponto de
inflexão", afirmou.
Nesta
terça-feira, 28, Poast atualizou sua avaliação à BBC News Brasil:
"Os acontecimentos recentes e as informações mais
atuais reforçam como aquilo que talvez parecesse, em maio, uma
afirmação provocativa — a de que vivemos uma guerra mundial —
hoje é visto como plausível, talvez até amplamente aceito. Os dois
conflitos estão atraindo mais países, e nenhum dos dois parece
perto do fim."
O
professor repetiu, ainda, a ressalva que fizera antes: "Isso não
significa que os conflitos vão atingir o nível de violência da
Primeira ou da Segunda Guerra Mundial, mas isso não é necessário
para que um conflito se integre a uma guerra mundial."
O
aviso de Gideon Rachman
O comentarista-chefe de política externa do Financial Times, Gideon Rachman, tratou do mesmo fenômeno em artigo publicado na segunda-feira (27/7).
"Não
há dúvida de que tanto a China quanto os EUA estão se preparando
ativamente para uma guerra um contra o outro", afirma.
Para
Rachman, os conflitos da Europa, do Oriente Médio e da Ásia —
"ainda largamente distintos" — "começam a se
sobrepor".
Ele
lembra que as duas guerras mundiais do século passado envolveram
alianças identificáveis e conflito direto entre as maiores
potências do planeta, e nota que o conjunto atual de conflitos já
cumpre parte desses critérios: guerras sobrepostas em dois
continentes, com influência sobre conflitos na África, e uma
aproximação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte que
estrategistas americanos batizaram de "eixo dos adversários"
(ou "eixo da desordem").
Rachman
cita o ex-diretor sênior de planejamento estratégico da Casa Branca
no governo de Joe Biden, Thomas Wright, para quem "a China
ajudou a Rússia a reconstruir sua capacidade militar muito mais
rápido do que seria possível de outra forma, fornecendo
máquinas-ferramenta, microeletrônica e outras tecnologias cruciais,
além de cooperar na produção de drones".
Ele
pondera que a postura de Donald Trump em relação a aliados
tradicionais dos EUA, somada ao isolamento crescente de Israel na
Europa e em parte do Golfo, dificulta identificar um bloco unificado
de resposta a esse eixo. Mesmo assim, conclui:
"Conflitos
regionais e erros de cálculo entre grandes potências podem ser uma
combinação letal."
Ferguson:
'Não é uma pergunta absurda'
Nem todo mundo trata o tema com o
mesmo peso. O historiador britânico Niall Ferguson, do Hoover
Institution, em Stanford, vem tratando do assunto com mais cautela
desde março, quando publicou dois textos a respeito.
No
primeiro, escrito nos primeiros dias da guerra entre Estados Unidos,
Israel e Irã, lembrou que a mesma pergunta já havia surgido quatro
anos antes, com a invasão russa da Ucrânia: "Hoje, sete dias
depois do início da mais recente guerra contra o Irã, a mesma
preocupação ressurgiu. Não é uma pergunta absurda."
Sua
conclusão, porém, foi mais reservada que a de Poast: prefere falar
em "Guerra Fria 2" a uma Terceira Guerra Mundial
propriamente dita.
Duas
semanas depois, ao analisar o envio de fuzileiros navais americanos
ao Estreito de Ormuz, foi mais longe na descrição do que via: "A
guerra com o Irã é ainda mais futurista que a guerra na Ucrânia.
Os dois lados usam drones, e muitos ataques de precisão dos EUA e de
Israel têm alvos selecionados por inteligência artificial. Isso
pode entrar para a história como a primeira guerra de IA".
Para
ele, o movimento americano no Golfo Pérsico abre janelas
estratégicas para China e Rússia explorarem outros pontos de
estrangulamento globais — como o Estreito de Taiwan, do qual
depende a cadeia global de semicondutores.
A
leitura mais radical de Jeffrey Sachs
No outro extremo do
espectro está o economista americano Jeffrey Sachs, da Universidade
Columbia. Em entrevista ao podcast Greater Eurasia, do analista Glenn
Diesen — professor de Ciência Política na University of
South-Eastern Norway —, Sachs foi taxativo em março:
"Provavelmente estamos nos primeiros dias da
Terceira Guerra Mundial, e a questão será saber se ela ficará
contida."
E
ele completou, listando o que via como sintomas do mesmo fenômeno:
"A guerra na Ucrânia, claro, continua. A guerra no
Oriente Médio hoje se espalha por toda a região. A guerra entre
Paquistão e Afeganistão talvez tenha alguma relação com isso. Um
navio de guerra iraniano foi afundado na costa da Índia. Por todas
essas razões, há combates em todo o mundo. Esses combates estão,
ao menos frouxamente, ligados entre si. O que não sabemos é o quão
próxima é essa ligação".
Sachs
soma sua voz à de Poast e Rachman no diagnóstico de que os
conflitos deixaram de ser isolados — mas sua leitura das causas é
bem mais controversa, atribuindo o quadro a uma "busca delirante
de hegemonia global" por parte dos Estados Unidos.
Um
debate ainda em aberto
Nem todos os analistas endossam o
rótulo de guerra mundial. Andrea Kendall-Taylor, do CNAS (Center for
a New American Security, um dos principais think tanks de segurança
nacional de Washington), prefere falar em "eixo da desordem"
— cooperação real e crescente entre Rússia, China, Irã e Coreia
do Norte, mas sem aliança formal, e limitada pela cautela de cada
país em evitar confronto direto com os EUA.
Já a
ex-conselheira da Casa Branca Fiona Hill, do Brookings Institution,
chamou a atenção em junho para outro ângulo: tanto Washington
quanto Moscou estão consumindo seus próprios arsenais nas duas
guerras, o que fragiliza a confiabilidade de ambas as potências como
fiadoras de segurança para seus aliados.
Nenhum
dos conflitos dá sinal de que vai terminar em breve. E a cada semana
cresce a chance de mais um país ser puxado para dentro deles —
pela Coreia do Norte, pela China, por quem mais decidir que tem algo
a ganhar.
É
um cenário que preocupa mais gente a cada dia que passa.
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: Reprodução (arquivo) BBC News Brasil
