Na BBC: Por que o Brasil ainda não sabe quantos entregadores se acidentam no trabalho?
Procuradas pela BBC News Brasil, as plataformas afirmaram que a segurança dos entregadores é prioridade
Rute Pina, da BBC News Brasil em São Paulo
Após
um acidente, o entregador
Silvio Luiz Pinheiro pensou em desistir da profissão. Quando entrou
na central para devolver uma bicicleta
alugada, ele ainda estava machucado. O ombro doía, o braço quase
não acompanhava os movimentos.
Pouco
antes, na Avenida Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, o freio
dianteiro da bicicleta elétrica havia travado de repente. Ele
precisou desviar de pedestres que estavam no meio da ciclovia. Com
areia perto da pista, a bicicleta perdeu a estabilidade, e ele caiu.
"Para
não machucar o rosto, eu coloquei o braço esquerdo na frente, um
reflexo natural que a gente tem", conta.
Ele
levou a bicicleta alugada até o balcão da central de locação, em
Pinheiros, também na Zona Oeste da capital paulista, explicou que
estava devolvendo o equipamento porque havia sofrido um acidente e
esperou alguma reação.
Os
funcionários fizeram os procedimentos necessários, confirmaram a
devolução e encerraram o atendimento. A preocupação parecia ser
apenas uma: registrar que a bicicleta havia voltado, diz ele.
Este
foi o momento em que Silvio quase desistiu da profissão. "Foi
uma coisa muito fria", lembra. "A preocupação deles é
você devolver a bicicleta, pagar e não gerar muita preocupação
para o aplicativo."
O
resultado foi a clavícula e o cotovelo machucados, e uma recuperação
mais lenta do que imaginava.
“Eu
achava que era uma lesão leve. Mas depois eu percebi que mexer com o
ombro foi difícil até para voltar a fazer atividade física”,
diz. Hoje, ele avalia que está "99,9%" recuperado.
A
experiência fez Silvio abandonar temporariamente as entregas e
voltar a um emprego de carteira assinada em um restaurante.
"Voltei
para a CLT por causa do convênio, porque a plataforma não te dá
essa segurança."
Hoje,
ele voltou às entregas por aplicativo, atraído pelos benefícios de
saúde do ciclismo. Pré-diabético, descobriu que passar o dia
pedalando o ajudava a controlar o peso. E também lhe devolveu um
prazer antigo, já que gosta da bicicleta muito antes de ela virar
instrumento de trabalho.
Silvio
gosta de trabalhar depois das 20h, quando os carros deixam de
disputar cada centímetro de asfalto. Há menos motoristas, menos
calor e, segundo ele, um risco menor de voltar para casa machucado.
Geralmente,
sua jornada se estende até meia-noite. Em dias bons, continua
pedalando até uma ou duas da manhã pelos bairros da República, da
Santa Cecília e da Barra Funda.
O
acidente mudou sua forma de enxergar o trabalho, mas não eliminou os
riscos. Enquanto pedala, ele divide a atenção entre trânsito,
pedestres e notificações do aplicativo, tentando equilibrar
velocidade e segurança a cada cruzamento.
Todos os dias,
sai de casa com uma meta: faturar, idealmente, R$ 200. No mínimo, R$
100.
"A
gente anda com cuidado o tempo todo, mas é uma coisa que um dia pode
acontecer. Desde que não seja fatal, pode acontecer com qualquer
um."
Os
acidentes que o Brasil não consegue contar
O
trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram
1,7 milhão de pessoas nessa modalidade, segundo o IBGE, o
equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado. Em dois anos, houve
um crescimento de 25,4%, com a entrada de mais 335 mil trabalhadores.
A
maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já
os entregadores representam 29,3% — ou seja, 485 mil pessoas. O
grupo não é homogêneo: os trabalhadores que atuam em entregas se
dividem principalmente pela idade e pelo veículo utilizado.
A
renda média dos trabalhadores plataformizados, na época, era de R$
2.996 com jornadas acima de 40 horas semanais. O rendimento médio da
população brasileira atinge R$ 3.367 em 2025.
Medir
o tamanho dos riscos que os entregadores enfrentam ainda é um
desafio. O principal obstáculo é a falta de dados oficiais que
permitam identificar se uma pessoa acidentada estava trabalhando no
momento da ocorrência.
Sistemas
estaduais registram acidentes de trânsito, e o Ministério da Saúde
reúne notificações de atendimentos hospitalares.
No
Estado de São Paulo, um dos que mais concentram o uso de aplicativo,
os dados do Detran indicam que acidentes fatais envolvendo ciclistas
cresceram nos últimos cinco anos.
Em 2021, foram registradas 320 situações que envolveram mortes. Já em 2025, 409 — um aumento de 27,8% em cinco anos.
Esse
número se refere a ciclistas em geral, não especificamente a
entregadores de aplicativo, já que essas bases historicamente não
diferenciam se os envolvidos nos acidentes estavam trabalhando ou
não.
Segundo
o procurador do trabalho Rodrigo Castilho, coordenador nacional de
Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do Ministério Público
do Trabalho (MPT), essa lacuna levou o órgão a criar um projeto
estratégico voltado à subnotificação de acidentes de trabalho
entre trabalhadores plataformizados.
Os
formulários do sistema de saúde (Sinan) não registravam se a
vítima trabalhava para aplicativos — e, mais importante, se estava
de fato em jornada de trabalho no momento do acidente.
Após
o projeto, o Ministério da Saúde publicou, em abril de 2025, uma
nota técnica orientando profissionais de saúde a registrar essa
informação.
Mesmo
assim, um ano depois, não existem estatísticas consolidadas. "Não
temos ainda o dado compilado para saber se realmente esses agravos
estão sendo registrados", afirma Castilho.
O
próximo passo do MPT, segundo ele, é verificar se a orientação
está sendo de fato aplicada pelas unidades de saúde.
Para
o procurador, essa ausência de dados impede que o país conheça a
real dimensão do problema. "O senso comum é que esses agravos
têm aumentado. Mas não temos os dados compilados para traçar o
perfil desse aumento."
Além
das falhas nos registros de saúde, Castilho aponta um segundo
obstáculo: a opacidade das próprias plataformas.
"As
empresas não vão fornecer o número de ciclistas acidentados
trabalhando", diz, classificando a situação como incomum na
atuação do MPT.
"São
as únicas empresas que o Ministério Público do Trabalho não tem
nenhuma informação, porque, sob a alegação de que o algoritmo é
como se fosse uma pedra filosofal, um segredo que ninguém pode saber
por conta da concorrência, nenhum dado é prestado por essas
empresas", continua o procurador do trabalho.
"Nem
ao menos o número de trabalhadores que estão ativos, quantos
trabalhadores realizam entregas por mais de doze horas por dia, por
dez horas, por oito horas. A gente não tem acesso a nenhum dado."
Milhares
de trabalhadores como Silvio seguem nas ruas todos os dias, em um
setor que ainda busca regulamentação específica.
Em
março de 2024, o governo federal apresentou uma proposta de
regulamentação para motoristas de aplicativo — mas os
entregadores ficaram de fora, e as negociações sobre essa categoria
seguem sem consenso.
Embora
muitos rejeitem a ideia de um vínculo empregatício tradicional,
isso não significa satisfação com a ausência de proteção
social.
"Eu
acho que o entregador poderia ter uma ajuda no sentido de um
convênio. A plataforma tem condição de dar melhorias para o
entregador e, às vezes, ela não dá. Seja para o motoboy, seja para
o ciclista, seja para o motorista de carro", defende Silvio.
Para
Rodrigo Castilho, a vulnerabilidade não está apenas no atendimento
imediato após um acidente, mas na ausência de rede de proteção de
longo prazo: o empregado formal tem proteção previdenciária de
aposentadoria e de afastamento por doença, acidente ou invalidez
temporária — cobertura que os seguros oferecidos por algumas
plataformas, geralmente restritos a morte, não substituem.
Procuradas
pela BBC News Brasil, as plataformas afirmaram que a segurança dos
entregadores é prioridade.
O
iFood informou que não incentiva comportamentos de risco, que os
tempos de entrega consideram trânsito e distância, que entregadores
podem recusar pedidos sem prejuízo, e que oferece seguro para
acidentes pessoais, auxílio financeiro durante afastamentos e canal
de comunicação de acidentes.
A
99Food disse que utiliza tecnologia para definir tempos de entrega,
orienta o respeito às leis de trânsito e oferece seguro contra
acidentes pessoais com cobertura durante o período conectado ao
aplicativo.
Já
a Keeta afirmou que sua operação prioriza a segurança, que os
prazos são calculados sem estimular excesso de velocidade, e que
mantém políticas de prevenção de acidentes e cobertura
securitária.
Para
Castilho, no entanto, falta comprovação: "A empresa alega. Mas
eu não tenho como nem confirmar, nem desconfirmar, a informação.
Quantos trabalhadores foram de fato beneficiados por essa
assistência?"
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: Reprodução / Vitor Serrano/BBC
