Na BBC: Por que essa pode ser a eleição mais difícil para Lula desde 2002
Diferença entre ele e Flávio Bolsonaro em um eventual 2º turno é a menor se comparada ao mesmo período quando o petista enfrentou José Serra, e em 2006, e Geraldo Alckmin
Marina Rossi, da BBC News Brasil em São Paulo
Em
meio ao que pode ser a eleição mais disputada da história desde a
redemocratização, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
oficializa sua candidatura à reeleição neste domingo (2/8) na
convenção do PT em São Paulo.
A
convenção partidária, um rito exigido pelo Código Eleitoral,
marca o início oficial de uma campanha centrada, novamente, em Lula
e Bolsonaro, representado neste ano pela candidatura de Flávio
Bolsonaro (PL).
As
pesquisas mostram que, mesmo com uma campanha cheia de turbulências
para Flávio Bolsonaro — com dificuldades para formar alianças, a
briga com Michelle Bolsonaro, e seu nome atrelado ao escândalo do
Banco Master — Lula não consegue se firmar num patamar confortável
de intenções de voto.
A
dois meses do primeiro turno, os levantamentos apontam que esta
eleição pode ser ainda mais acirrada que a de 2022, quando a
diferença entre Lula e Jair Bolsonaro (PL) ficou em 1,8% dos votos
válidos. Aquele havia sido o pleito mais disputado desde a
redemocratização. Até o momento.
Hoje,
a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo
turno é a menor se comparada ao mesmo período de 2002, quando o
petista enfrentou José Serra (PSDB), e em 2006, contra Geraldo
Alckmin (na época no PSDB), segundo levantamento realizado pelo
agregador de pesquisas PollingData para a BBC News Brasil.
Até
mesmo em 2022, quando Lula disputou com Jair Bolsonaro (PL) e não
tinha a máquina na mão, o petista estava em uma posição mais
confortável nas pesquisas do que agora.
A
comparação foi realizada com base nas simulações de segundo
turno, no mesmo período (fim de julho). Hoje, Lula tem 46% e Flávio
Bolsonaro (PL) 42%.
Não só a distância entre o petista
e seu principal rival é menor, como o percentual de intenções de
voto é mais baixo em relação aos outros anos, quando o petista
tinha entre 49% e 50% e seus oponentes entre 38% e 39%.
"Olhando
para os dados, dá a impressão de que essa vai ser a disputa mais
apertada da história", afirma Neale El-Dash, fundador do
PollingData. "Em todas as disputas eleitorais neste momento,
Lula tinha uma vantagem de 11, 12 pontos, e desta vez ele tem uma
vantagem de 4 pontos."
Ele
explica, no entanto, que outros dados são importantes para fazer
essa leitura. "A simulação de 2º turno é interessante, conta
uma história, mas a aprovação do presidente que está no cargo é
um dos fatores mais importantes para aumentar a chance de ele ser
reeleito", diz.
El-Dash
ressalta que o índice de aprovação do presidente em exercício
exerce influência direta nas chances de ele ser reeleito ou não.
"Estatisticamente falando, a partir de 40% de aprovação as
chances de vitória são de 50%."
Neste
mesmo período em 2022, 38% aprovavam o governo de Jair Bolsonaro,
segundo o PollingData. "Mas chegando próximo do dia da eleição,
ele chegou a 45% de aprovação, e ficou competitivo", diz.
Naquele
momento, pesava sobre o ex-presidente — o primeiro na história da
redemocratização que não conseguiu se reeleger — a má condução
da pandemia de coronavírus.
Por isso, a dois meses do
primeiro turno, Bolsonaro sancionou diversas medidas para injetar
dinheiro na conta de brasileiros por meio de auxílios sociais, no
que ficou conhecido como "pacote das bondades".
Ele
aumentou o valor do Auxílio Brasil, autorizou empréstimo consignado
para quem recebia o benefício, reduziu o ICMS e concedeu um voucher
de R$ 1 mil para caminhoneiros e taxistas.
Assim,
o governo Bolsonaro saiu de 38% de aprovação no fim de julho para
40% no fim de agosto, permanecendo estável durante todo o mês de
setembro, e atingiu 45% no fim de outubro.
Agora,
em um esforço para melhorar sua aprovação, o governo Lula também
lançou mão de políticas para estimular a economia, como a redução
do imposto de renda para a classe média.
Turbinou
programas sociais como o Gás do Povo e Luz do Povo, criou linhas de
crédito para entregadores e reeditou o Desenrola, para a negociação
de dívidas.
No
entanto, do começo do ano para cá, a aprovação de seu governo
aumentou pouca coisa, saindo de 45%, no início de fevereiro, para
47% agora.
"Se
Lula não conseguir subir essa aprovação, talvez de fato seja a
eleição mais disputada da história", afirma El-Dash.
'A
última dança'
A
convenção do PT deste domingo deve ser protocolar. A campanha vai
priorizar a realização de um comício no dia 16 em São Bernardo do
Campo, no estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides.
A
data marca o primeiro dia oficial de campanha desta eleição,
estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O
local é o berço político de Lula e a escolha carrega essa
simbologia. Foi ali que o presidente liderou imensas assembleias com
metalúrgicos durante o período que ficou conhecido como as greves
do ABC, entre 1979 e 1980, e discursou para um estádio abarrotado de
gente.
A
ideia agora é Lula "terminar onde começou" e realizar "a
última dança", nas palavras de uma fonte próxima à campanha.
Ali, Lula quer reunir a militância, tomar fôlego para os próximos
dois meses e tentar avançar pelo Estado de São Paulo, prioridade
desta campanha.
A
concepção do comício foi inspirada nas convenções partidárias
dos Estados Unidos, onde o palco fica no meio e os apoiadores ao
redor do candidato, prevendo a valorização dos enquadramentos para
a televisão e as redes sociais.
Essa estética já foi
testada no lançamento da campanha de Fernando Haddad ao governo do
Estado de São Paulo realizado em Campinas no sábado passado.
Aos
80 anos, esta é a sétima — quiçá a última — eleição que
Lula disputa. Liderando as pesquisas, ainda que de forma apertada,
ele não deve participar dos debates televisivos para evitar o
desgaste.
Pesou
na decisão de realizar o evento em São Bernardo do Campo no dia 16
o fato de ser a mesma data marcada para o primeiro debate
presidencial, na Band.
No entanto, após a divulgação
do ato petista no ABC, a rede televisiva alterou o debate para o dia
23 de agosto. Ainda assim, Lula não deve comparecer.
'Geração
lava-jato'
Assim como em 2022, as mulheres podem ser decisivas nesta eleição. Essa fatia do eleitorado, que hoje corresponde à maioria dos votantes brasileiros, aparece mais indecisa do que a média.
"Hoje,
na espontânea [quando o entrevistador não apresenta todos os nomes
dos candidatos, deixando a pergunta aberta: "em quem você vai
votar?"], 45% das mulheres não citam nenhum nome", afirma
Luciana Chong, diretora do Datafolha. "Em 2022, eram 31%."
Já
no total, entre homens e mulheres, este percentual é de 37%, mais
alto do que no mesmo período em 2022, que era de 25%.
O
eleitorado feminino, no entanto, não forma um grupo homogêneo. Na
simulação de segundo turno feita pelo Datafolha, Lula tem vantagem
em relação a Flávio entre as mulheres mais jovens (16 a 34 anos) e
entre as com mais de 45 anos.
O
eleitorado feminino é o Calcanhar de Aquiles de Flávio Bolsonaro,
exceto na faixa entre 35 e 44 anos, em que ele tem vantagem de 11
pontos percentuais em relação a Lula.
Chong
afirma que as notícias de corrupção atreladas ao PT têm peso
nesse recorte da pesquisa.
"Essa
geração entre 35 a 44 anos é a que chamamos de 'geração
lava-jato', que cresceu muito tomada pelas notícias sobre
corrupção", afirma ela.
Entre
os homens, Lula só fica na frente na faixa de 45 anos ou mais.
As
campanhas terão que fazer suas apostas para tentar mudar os
cenários. "Pode ser que, com o início da campanha, as mulheres
sejam mais mobilizadas", afirma Chong.
Assim
como Neale El-Dash, ela faz uma ressalva: o recorte sobre o segundo
turno em uma pesquisa não é uma previsão fiel do que pode
acontecer até o fim de outubro.
Ela
explica que as simulações de segundo turno refletem mais o
anti-lulismo do que necessariamente um favoritismo.
"Por
isso, quando fazemos uma simulação com Ronaldo Caiado (PSD) ou
Romeu Zema (Novo), o cenário não muda."
Com
informações: www.bbc.com/portuguese
Crédito
imagem: Ricardo Stuckert/PR
