Na BBC: Por que a entrada da SpaceX na bolsa pode ser a maior aposta de Elon Musk até agora
Em 12 de junho, começará a negociação de um lote das ações da empresa SpaceX
São 7h25 da manhã do dia 13 de outubro de 2024 na Starbase, perto de Boca Chica, no lado texano da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Na plataforma de lançamento, está o maior foguete já construído.
Seus motores entram em funcionamento e a nave sobe pelos céus sobre o Golfo do México sob gritos e aplausos na sala de controle da SpaceX.
Mas o lançamento não é o principal acontecimento. Tudo o que sobe precisa descer, e a forma como esse foguete retorna à Terra se tornará um marco da exploração espacial.
Sete
minutos depois, o enorme foguete propulsor que impulsionou a nave em
direção ao espaço começa a cair de volta à Terra, até que seus
motores se reativem como planejado.
Ele reduz a velocidade
da descida e se posiciona com precisão milimétrica para ser
capturado por uma estrutura chamada Mechazilla, apelidada de “hashis”
(os “pauzinhos” da culinária japonesa), em uma operação
inédita realizada pelos engenheiros.
Em meio aos gritos de comemoração e aos cumprimentos na sala de controle da SpaceX, o empresário Elon Musk diz a seus milhões de seguidores nas redes sociais que aquele é um “grande passo para tornar a vida multiplanetária”, um foguete reutilizável capaz de reduzir drasticamente os custos de lançamentos para a órbita da Terra, a Lua e, um dia, Marte.
Uma
empresa com visão futurista liderada por alguém que muitos
descrevem como um gênio excêntrico e fora dos padrões, a SpaceX e
Musk frequentemente são comparados a Tony Stark, líder da Stark
Industries e também conhecido como Homem de Ferro no universo dos
quadrinhos da Marvel Comics.
Em
12 de junho, começará a negociação de um lote das ações da
empresa SpaceX que, até agora, só podia ser controlada ou acessada
por Elon Musk e por um grupo seleto de grandes investidores privados.
Não
surpreende que mais de uma corretora da Bolsa do Reino Unido tenha
dito à BBC haver um "aumento repentino" no interesse de
investidores interessados na chance de comprar ações dessa empresa
cercada de expectativa, comandada por uma figura considerada
carismática e que conquistou a imaginação do público ao redor do
mundo.
Investidores
de varejo britânicos devem receber cerca de £ 1,5 bilhão (cerca de
R$ 11 bilhões) em ações, e uma das principais plataformas de
investimento do Reino Unido acredita que a oferta pode atrair uma
nova geração de investidores.
Simon
Belsham, diretor de relacionamento com clientes da Hargreaves
Lansdown, afirmou:
"Embora reconheçamos que essa
oferta pública inicial [IPO, na sigla em inglês] talvez não seja
adequada para todos, este é um momento empolgante para muitos de
nossos clientes. Esperamos que esta seja a primeira experiência de
investimento de muitas pessoas."
Mesmo
que você não compre ações diretamente, se tiver economias de
aposentadoria aplicadas no mercado acionário, como ocorre com
praticamente qualquer pessoa que possui um plano de pensão, é muito
provável que em breve você se torne dono de uma pequena parte de
uma empresa que está no cruzamento entre tecnologia e geopolítica
e, como diria Musk, no centro do futuro da raça humana.
A
possibilidade de pessoas comuns comprarem ações da SpaceX é um dos
momentos mais importantes da história dos mercados financeiros e
está prestes a acontecer, algo que quase certamente transformará
Musk no primeiro trilionário em dólares da história.
Nas
primeiras páginas do prospecto — ou folheto de venda — das ações
da SpaceX, aparece esta discreta declaração de missão: "Construir
os sistemas e as tecnologias necessários para tornar a vida
multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do universo e
levar a luz da consciência até as estrelas."
Mas
a SpaceX não trata apenas de foguetes, e talvez nem principalmente
de foguetes. A empresa é também uma aposta no futuro da
inteligência artificial (IA).
E o sucesso ou fracasso de
sua iminente venda parcial de ações ao público será um teste
importante para o entusiasmo até agora praticamente irrestrito e,
para alguns, alarmante, dos investidores em torno da ideia de que a
IA irá absorver grandes parcelas da economia mundial.
A
concentração contínua de poder em algumas megacorporações dos
EUA também levanta questões importantes sobre a forma como
negócios, economia e política funcionam na Terra.
E
muitos veem este como o "momento Ícaro" de Musk, quando
alguém voa perto demais do Sol.
"Acho que este é um
projeto movido pelo ego de Elon Musk", afirma Sinead O'Sullivan,
economista que trabalhou anteriormente para a Nasa (agência espacial
americana).
Então,
deveríamos ficar satisfeitos por provavelmente embarcarmos todos em
sua jornada espacial?
Uma
avaliação impressionante
A SpaceX protocolou um pedido de oferta pública inicial de ações, conhecida como IPO. Embora apenas uma parte da empresa esteja sendo colocada à venda para investidores comuns, o preço das ações oferecidas por Musk permite calcular o valor estimado de toda a companhia.
Os
bancos responsáveis pela venda das ações atribuíram à empresa um
valor de mercado de US$ 1,75 trilhão (cerca de R$ 9,45 trilhões), o
que a colocaria com folga entre as dez empresas mais valiosas do
mundo.
Esse
é um valor impressionante para uma empresa que perdeu quase US$ 5
bilhões (aproximadamente R$ 27 bilhões) no ano passado. Então,
afinal, o que está sendo comprado?
A
SpaceX é, na prática, várias empresas dentro de uma só. Ela
projeta foguetes, fabrica e lança tanto seus próprios satélites
quanto os de terceiros. Sua capacidade de lançamento sozinha supera
a de qualquer outra empresa e até mesmo a de qualquer país do
mundo.
Os
satélites da própria companhia também formam a base da rede de
comunicações Starlink, que se mostrou de importância geopolítica
crucial durante a defesa da Ucrânia contra a invasão russa.
Esse
é um negócio lucrativo e que gera receitas significativas.
Ainda
assim, mesmo as estimativas mais otimistas avaliam essa parte da
SpaceX em cerca de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,6 trilhão) —
menos de 20% da meta de valor de mercado de US$ 1,75 trilhão (em
torno de R$ 9,45 trilhões) atribuída à empresa.
Grande
aposta em IA
A verdadeira aposta está na inteligência artificial (IA) porque a SpaceX também inclui a empresa de IA xAI, que também é controlada por Musk, além de um programa espacial mais ambicioso, com planos para criar centros de dados no espaço capazes de fornecer enorme poder computacional, alimentados por energia solar e resfriados pelo frio do espaço, ao mesmo tempo em que desenvolve bases tripuladas na Lua e, futuramente, em Marte.
O
sucesso da SpaceX depende em grande medida de seu braço de IA. Dos
US$ 28,5 trilhões (cerca de R$ 154 trilhões) em mercado potencial
identificados pela empresa para seus serviços, conhecido como
mercado total endereçável, US$ 26,5 trilhões (aproximadamente R$
143 trilhões) estariam ligados à IA.
Para
acreditar nisso, é preciso acreditar que a indústria de IA terá
tamanho comparável ao de toda a economia dos EUA ou de toda a
Europa.
O
prospecto da SpaceX estima que o setor espacial e de comunicações
representa menos de 10% desse mercado total de US$ 28 trilhões (R$
154 trilhões), embora esses sejam os únicos negócios nos quais a
empresa demonstrou vantagens comerciais e técnicas concretas.
"Se
olharmos para o negócio em si, não está claro exatamente em que
setor ou indústria a SpaceX atua", afirma O'Sullivan, ex-Nasa.
"A
marca e a identidade da empresa foram construídas ao longo de duas
décadas em torno de foguetes, mas a maior parte dos investimentos
está sendo direcionada para centros de dados e para uma empresa de
IA que parece muito mais ligada às redes sociais do que ao espaço",
acrescenta O'Sullivan. "Tudo isso está reunido em uma espécie
de conglomerado sob o nome de Elon Musk."
O
prospecto da empresa admite que a SpaceX precisará fazer coisas que
nenhuma empresa conseguiu realizar antes. O documento afirma que será
necessário "desenvolver, comercializar e operar produtos e
serviços (...) em uma escala nunca alcançada anteriormente".
O'Sullivan demonstra ceticismo.
"Quando observamos o
valor gigantesco que tentam atribuir à empresa, o que está sendo
comprado é muito mais uma participação na marca Elon Musk do que
propriamente na indústria espacial."
Propriedade
sem controle?
Mas não faltam admiradores dispostos a apontar a extraordinária capacidade de Musk de captar recursos, desafiar consensos e contrariar seus críticos.
Musk
enfrentou o peso combinado da indústria automobilística global e,
menos de 20 anos após sua fundação, sua montadora, a Tesla, passou
a valer mais do que Toyota, Ford, General Motors e Volkswagen juntas.
Outro
motivo pelo qual alguns investidores pretendem deixar passar a
oportunidade de investir naquela que pode ser a maior aposta da
carreira de Musk é a objeção ao nível de controle que ele
exercerá sobre a empresa.
Musk
aparece listado como fundador, diretor-presidente, diretor de
tecnologia e presidente do conselho.
Embora
detenha apenas 42% da empresa, suas ações possuem direitos
adicionais de voto, o que lhe garante, na prática, controle sobre
85% da companhia.
O
jornalista de finanças Robert Armstrong questiona: "O que
significa ter ações de uma empresa? Trata-se de propriedade, mas
que tipo de propriedade é essa? Você realmente possui algo que não
pode controlar?"
Armstrong
acrescenta que investidores deveriam receber um desconto ao abrir mão
do poder de decisão:
"Quero pagar menos por uma
empresa na qual minha participação acionária não inclui
controle."
Mas,
como disse à BBC um grande investidor institucional, "o culto
em torno de Elon Musk exige que seus seguidores paguem mais pelo
privilégio duvidoso de não terem voz real sobre a forma como a
empresa da qual são donos é administrada. E as pessoas parecem
satisfeitas com isso."
E
esse controle está nas mãos de um homem que já utilizou seu poder
e sua fortuna de maneiras controversas. Musk gastou quase US$ 300
milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão) na segunda campanha presidencial
do atual mandatário americano, Donald Trump.
Também
garantiu bilhões de dólares em contratos com o governo dos EUA e se
envolveu em assuntos internos de outros países ao apoiar figuras da
direita no Reino Unido e em outros lugares.
O
efeito Musk
Ainda assim, apostar contra Musk não tem sido uma estratégia inteligente. Ele não se tornou o homem mais rico do mundo, com uma fortuna pessoal superior a US$ 700 bilhões (cerca de R$ 3,8 trilhões) e que em breve pode ultrapassar US$ 1 trilhão (aproximadamente R$ 5,4 trilhões), sem contrariar repetidamente seus críticos.
Desde
2020, as estimativas sobre o valor da SpaceX saltaram de US$ 40
bilhões (cerca de R$ 216 bilhões) para US$ 1,75 trilhão
(aproximadamente R$ 9,45 trilhões), um aumento de mais de 40 vezes.
No mesmo período, as ações da Tesla tiveram um aumento de dez
vezes.
E
isso aconteceu mesmo com a produção de carros da Tesla tendo
entrado em platô.
A
retomada da alta nas ações da Tesla, apesar da queda nas vendas,
revela outro dos grandes talentos de Musk: apresentar metas novas e
ambiciosas para justificar o valor da empresa, neste caso, a promessa
de migrar para a área de robótica, com o objetivo de construir 1
bilhão de robôs humanoides.
Essa
capacidade de mudar rapidamente de direção e se adaptar levou um
grande investidor a dizer à BBC que "ele se parece mais com (o
famoso empresário e showman) P. T. Barnum do que com (John D.)
Rockefeller ou (Warren) Buffett".
Outro boom pontocom?
Mas o Fomo (sigla em inglês para "medo de ficar de fora") é uma emoção poderosa quando o assunto é Musk. Os críticos da Tesla acabaram errando e perderam ganhos gigantescos.
O
IPO da SpaceX é a maior oferta desse tipo da história, mas
representa apenas a primeira de uma série de mega vendas de ações
de empresas que estão na linha de frente da economia baseada em IA.
Essa
enxurrada de novas ações chegando ao mercado faz alguns
investidores temerem uma repetição da bolha das empresas pontocom
do início dos anos 2000, quando companhias com metas grandiosas, mas
pouco ou nenhum histórico de lucro, tentaram vender o máximo
possível de ações ao público.
Por
enquanto, a SpaceX colocará à venda inicialmente apenas 5% das
ações da empresa, o equivalente a US$ 75 bilhões (cerca de R$ 405
bilhões). E a expectativa é que concorrentes da área de IA, como
Anthropic e OpenAI, também façam movimentos semelhantes no mercado
aberto.
Depois
que uma parte das ações começa a ser vendida, novas ofertas podem
seguir o mesmo caminho, o que significa que trilhões de dólares em
novos papéis podem chegar ao mercado nos próximos meses e anos.
Isso
pode gerar um excesso de oferta difícil de ser absorvido pela
demanda, pressionando os preços das ações para baixo.
Uma
diferença importante em relação ao colapso das pontocom é que os
fundos de índice, que compram automaticamente ações de empresas
incluídas nos principais índices do mercado, podem acabar
absorvendo parte dessa oferta ao longo do tempo.
Anthropic
e OpenAI devem se juntar à SpaceX entre as megacorporações dos
EUA, exercendo um nível de poder e influência global ainda inédito
e um domínio sem precedentes sobre a vida dos cidadãos, ao menos
segundo os defensores dessas empresas.
Assim,
como ocorreu em 2024, os olhos do mercado voltam a se concentrar na
plataforma de lançamento da SpaceX, palco daquela que pode ser a
venda de ações mais importante da história dos mercados
financeiros.
*Editor
de Negócios da Rede de Mídia estatal britânica
Crédito foto:
Getty Images, via BBC
