Na BBC: Delegados da PF temem 'efeito cascata' e impacto duradouro da guerra Moraes-Mendonça na corporação
Razão da preocupação é simples: tanto Moraes quanto Mendonça utilizaram relatórios elaborados pela PF como "munição" na disputa entre os dois
Leandro Prazeres, da BBC News Brasil em Brasília
O
afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e
do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada,
determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André
Mendonça, nesta terça-feira, 08, concretizou um temor que vinha
sendo manifestado nos últimos dias dentro da instituição: o de que
a PF acabasse tragada pela crise entre os ministros André Mendonça
e Alexandre de Moraes.
Delegados
ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmam que esse
receio vinha crescendo desde a semana passada, quando Mendonça
retirou o sigilo de relatórios produzidos pela PF sobre supostas
mensagens trocadas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dando
início a uma crise sem precedentes no STF.
Na avaliação
deles, a crise "tragou" a PF para dentro da disputa entre
os dois ministros. O temor era o de que a PF acabasse se
transformando na "primeira vítima" da "guerra"
entre Mendonça e Moraes no STF.
A razão da preocupação
é simples: tanto Moraes quanto Mendonça utilizaram relatórios
elaborados pela PF como "munição" na disputa entre os
dois.
Os
delegados temem que essa crise atrapalhe investigações em
andamento, abra flancos para futuras intervenções no comando da PF
e, em última instância, que delegados da PF possam ser punidos por
terem cumprido ordens de ministros do STF.
"Na
PF, como todo mundo sabe, a gente luta por mais autonomia. Hoje, não
temos autonomia e nem as prerrogativas que o Ministério Público e o
Judiciário têm. Quando essas crises aparecem, a PF fica ainda mais
desprotegida que outras instituições", disse à BBC News
Brasil o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia
Federal (ADPF), Edvandir Félix de Paiva.
Carreiras em risco
O temor de que carreiras podem ter entrado em risco durante a crise no STF começou depois que o ministro Alexandre de Moraes divulgou um relatório de inteligência elaborado pela Polícia Federal que fazia uma análise sobre a atuação de André Mendonça na condução de casos sob sua relatoria, entre eles os inquéritos relacionados ao Banco Master.
A
preocupação tem raiz em uma das determinações feitas por Mendonça
na decisão desta terça-feira.
Ele
ordenou que a Corregedoria da Polícia Federal abra uma investigação
penal e administrativa sobre supostas violações funcionais
praticadas por Andrei Rodrigues e Leandro Almada relacionadas à
elaboração e divulgação de relatórios de inteligência citados
por Moraes em decisão da semana passada.
Na
prática, Rodrigues e Almada passariam da condição de
investigadores para a de investigados.
Procedimentos
conduzidos pela corregedoria podem levar tanto à responsabilização
administrativa quanto criminal.
Se o órgão avaliar que
eles praticaram irregularidades, os dois podem tanto perder seus
cargos quanto serem condenados à prisão. Internamente,
a utilização do relatório de inteligência divulgado por Moraes
foi criticada por delegados ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo
eles, a doutrina de inteligência adotada pela PF e a legislação
brasileira impedem que relatórios de inteligência policial sejam
utilizados em procedimentos judiciais e que tenham valor probatório,
ou seja: que possam servir como evidências em um processo criminal.
Esse,
aliás, foi um dos argumentos usados por Mendonça para determinar o
afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.
Ele
afirmou que os relatórios citados por Moraes na semana passada
apontam que teria ocorrido monitoramento e coleta indevida de
informações sobre ele e sobre o Advogado-Geral da União, Jorge
Messias.
Na
mesma decisão, Mendonça pediu que uma sessão virtual
extraordinária da Segunda Turma do Supremo fosse convocada para
analisar os afastamentos. O colegiado já tem maioria para a
manutenção da decisão do ministro.
Um
delegado ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse
estar preocupado com a escalada dos acontecimentos.
Segundo
ele, o temor é de que Andrei e Almada possam ser apenas os primeiros
delegados a serem responsabilizados em função da crise.
Ele
disse que a categoria estaria preocupada com a possibilidade de que a
escalada de decisões entre os dois ministros possa fazer com que
outros delegados se tornem alvo de investigação apenas por terem
cumprido tarefas designadas seja por ministros ou por seus
superiores.
Esse
preocupação teria sido expressa a ele por delegados que
participaram de uma reunião em que Mendonça pediu a elaboração de
um relatório sobre as mensagens supostamente trocadas entre Moraes e
Vorcaro.
Segundo
ele, Mendonça teria dito aos delegados que se eles não cumprissem a
decisão, poderiam ser responsabilizados, numa postura considerada
incomum por investigadores.
Segundo
esta fonte, o receio é de que, em meio ao "tiroteio" de
decisões entre Moraes e Mendonça, os quatro delegados que assinaram
este relatório possam acabar punidos.
Ele
afirma, aliás, que toda a crise acabou ofuscando a qualidade do
trabalho técnico do relatório sobre as mensagens supostamente
trocadas entre Moraes e Vorcaro. Ele classifica o relatório como
"primoroso".
Por
outro lado, ele diz ter considerado inusual a elaboração do
relatório e a sua divulgação a pouco mais de um mês das eleições
à medida em que a PF tem acesso ao conteúdo dos telefones de Daniel
Vorcaro desde novembro de 2025.
Alas
instrumentalizadas
Outro delegado ouvido pela BBC News
Brasil em caráter reservado afirmou que a crise atual envolvendo a
PF é diferente da disputa entre alas dentro da corporação e que,
no passado, já teriam gerado conflitos.
De
acordo com ele, as duas alas da corporação teriam sido, de alguma
forma, instrumentalizadas pela disputa interna entre Moraes e
Mendonça.
Segundo
ele, historicamente, a PF teria pelo menos duas alas mais ou menos
consolidadas.
A
primeira é composta por policiais mais à direita, identificados com
o bolsonarismo, e que durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL),
ocuparam cargos de chefia.
Um
dos principais nomes dessa ala era o do delegado e ex-diretor da
Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem
(PL-RJ), que hoje vive nos Estados Unidos e foi condenado pelo STF no
inquérito que apura a tentativa de golpe de Estado no Brasil.
A
outra ala seria composta por policiais mais à esquerda,
identificados com o atual governo do presidente Lula.
Segundo
ele, ao longo dos últimos anos, a ala bolsonarista foi colocada em
cargos de menor importância dentro da corporação.
Andrei
Rodrigues, no entanto, não é visto como um policial federal
esquerdista, mas ele vem sendo criticado por sua proximidade com Lula
desde a campanha presidencial de 2022, quando ele foi responsável
pela equipe de segurança do então candidato.
Desde
que assumiu a chefia da PF, Rodrigues passou a acompanhar Lula em
diversas viagens, tanto no Brasil quanto no exterior.
Por
tudo isso, na avaliação dos delegados ouvidos pela BBC News Brasil,
uma crise envolvendo decisões tomadas pela polícia a pedido ou sob
supervisão de ministros da Corte pode acabar produzindo
consequências mais severas dentro da própria corporação.
Crises
sucessivas
Os delegados ouvidos pela BBC News Brasil citam que a PF já passou por diversas outras crises, mas dizem temer que a atual tenha impactos duradouros sobre a instituição.
Eles
citaram a crise gerada pela Operação Satiagraha, em 2004, em que a
PF investigou supostos crimes praticados pelo banqueiro Daniel
Dantas.
O caso chamou atenção por conta da atuação do
ministro Gilmar Mendes sobre o caso e contra o então delegado da PF,
Protógenes Queiroz, que comandava as investigações.
Outro
caso mencionado aconteceu em 2020, quando o então ministro da
Justiça, Sergio Moro, deixou o cargo afirmando que o então
presidente Jair Bolsonaro teria tentado interferir no comando da PF
no Rio de Janeiro para supostamente proteger seus filhos.
A
alegação de Moro tinha como base declarações de Bolsonaro durante
uma reunião ministerial na qual ele disse que se precisasse trocar o
comando da PF no Rio de Janeiro, ele o faria.
Em
depoimento, no entanto, Bolsonaro disse que a menção à troca do
comando da instituição era uma referência à segurança dos seus
filhos e não uma tentativa de protegê-los de investigações.
Cronologia
da crise
A
crise entre Mendonça e Moraes teve o seu estopim na semana passada,
quando Mendonça liberou o sigilo de um relatório elaborado pela PF
sobre mensagens supostamente trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro,
na terça-feira, 1º de setembro.
O banqueiro está preso
e é investigado por crimes financeiros. O relatório apontava
indícios de que Vorcaro teria recebido informações privilegiadas
sobre o andamento de investigações em andamento contra o banqueiro.
O documento também apontou que Moraes chegou a editar um
arquivo com o contrato de R$ 129 milhões entre Vorcaro e a mulher do
ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Mendonça
também pediu que o Plenário do STF julgasse um pedido para abrir
investigação contra Moraes em sessão pública, o que ainda não
aconteceu.
Na
quinta-feira, 03, foi Moraes quem pediu que Mendonça fosse
investigado. Desta vez, no inquérito das Fake News. Em sua decisão,
havia indícios de que Mendonça teria direcionado investigações
contra ele e os ministros Dias Toffoli, Kássio Nunes Marques e Luiz
Fux.
Nesta
terça-feira, Mendonça reagiu e determinou o afastamento de Andrei
Rodrigues e de Leandro Almada. Em resposta, onze diretores da PF
puseram seus cargos à disposição em solidariedade à dupla.
A
BBC News Brasil apurou que o governo ainda estuda que medida adotar
em relação ao afastamento da cúpula da PF.
A
medida mais provável será um recurso movido pela AGU contra a
decisão de Mendonça. Ainda não se sabe, no entanto, se o recurso
será julgado pela Segunda Turma do STF ou pelo Plenário da
Corte.
Com informações:
www.bbc.com/portuguese
Crédito imagem: Agência Brasil, via BBC News Brasil
