Gustavo Scarpa - O jogador que não terminou
Entre a máquina de calcular, fazendo contas à espera de um milagre do acesso bicolor, e a leitura. Foi assim que passei minhas duas semanas de férias. No derradeiro dia de descanso, recebo a notícia do desencarne de um dos meus escritores favoritos: Zuenir Ventura. Mais um mineiro, entre tantos prodigiosos nascidos nas Gerais, que passou a vida a me encantar.
Ventura era filho de um pintor de paredes e de uma dona de casa, a qual considerava estudo coisa sagrada. Foi assim que, mesmo diante das dificuldades, impulsionou o rebento para sua irrefreável vocação para as letras. Zuenir Ventura foi jornalista, cronista e um exímio contador de histórias. Entre elas, o eterno “1968- O ano que não terminou”, no qual teceu as agruras da ditadura militar sem perder a ternura.
Em um texto sobre a partida de Ventura, o querido Paulo Silber traz um alento aos leitores do mineiro. Quando um escritor formidável parte, ele não deixa apenas livros. “Deixa um jeito de olhar. Uma maneira de desconfiar do óbvio”
Mas enquanto Zuenir Ventura partia, um jogador de futebol de um time mineiro, terra do escritor, revelava ao Brasil seu olhar diferenciado. Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro, em uma resenha literária em suas redes sociais, levou o livro “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, à liderança dos mais vendidos do Brasil no mês de setembro. O vídeo do jogador, falando sobre o clássico russo, ultrapassou 565 mil visualizações. Inspirados pelas dicas do jogador, torcedores do Atlético-MG criaram um clube de leitura, o Galeitura, reunindo mais de 500 membros para debater as obras.
Assim como Zuenir Ventura subverteu o óbvio, o comum, em textos primorosos, Gustavo Scarpa, que já se declarou fã da banda armênio-americana System of a Down, trocou o pagode pelo rock e as propagandas de apostas esportivas pelo incentivo à cultura. Vem influenciando até seus companheiros de time a se aventurar na leitura.
A exemplo de Danilo Luiz, zagueiro do Flamengo, Scarpa vira referência de vida inteligente calçando chuteiras. Fazer os torcedores brasileiros deixarem a tela de celular para descobrirem clássicos da literatura é um gol de placa. Muito além dos gramados.
