Fogo no parquinho: campanha mal começou e festival de ofensas, acusações e baixarias indicam o clima de ódio que vem por aí.
“Bandido, ladrão, cachorrinha, estrume, vagabundo, frouxo, quadrilheiro” e por aí vai a baixaria do circo político paraense. E deve piorar.
Josias de Souza, experiente jornalista, tem uma frase senão
apocalíptica, certeira, lapidar, sobre os rumos que o PSDB tomou durante e
após o governo FHC, e as brigas fratricidas que ajudaram a levar o
partido para a situação em que se encontra desde a primeira derrota
para o PT, em 2002, e a sua quase transformação em “nanico” no
curso da Operação Lava Jato:
“O PSDB é uma
agremiação de amigos feita 100% de inimigos”.
Pinto
Imagina
se o antenado e respeitado profissional conhecesse minimamente as
entranhas do PL-PA. Perto do clima de ódio, vendetta,
ameaças, tramas e exposição de tudo isso na frente das câmeras e
publicações em redes sociais, programas de rádio e tv e a mídia
impressa, os tucanões mais pareciam frades em retiros e brincadeiras
de “jogo da verdade”.
Sim, comparado ao faroeste
local, as brigas dos emplumados grão-tucanos de outrora de lá e de
cá mais se assemelhariam a desacordos entre aristocratas sócios de
clubes exclusivos do Reino Unido em partidas de críquete, gamão ou
jogos de cartas.
Baixaria é pouco. Aqui, se trata mesmo
de calúnias ou acusações as quais, uma vez confirmadas, deveriam culminar em cassação,
inelegibilidade e até condenação à prisão.
Zezinho
Lima
“Éder Mauro, seu bandido! (...) Eu, vereador
Zezinho Lima, vou te denunciar - tu e a tua quadrilha”... "Seu
vagabundo! Delegado bandido! Ladrão de emenda parlamentar da
saúde.”
Os “elogios” foram feitos na quinta-feira,
23, no momento em que o vereador desafiou o seu “colega” de
partido, o PL-PA, a ir encontrá-lo na sede da PF em Belém, local
onde iria protocolar as (gravíssimas) denúncias de desvios de
emendas parlamentares do deputado, que deveriam ser destinadas à
área da saúde.
Mais adequado, pelo andar da carruagem, seria classificá-los de
“inimigos de partido”.
Conversão
“A
‘paixão dos convertidos’ descreve o impulso inicial de fervor,
alegria e forte emoção que uma pessoa experimenta logo após viver
uma experiência profunda de conversão religiosa”, diz texto
inspirado nas palavras do pensador da igreja, Santo Agostinho, autor
do célebre As Confissões.
Em se tratando de proselitismo e/ou conversão política, quem tem mais de 40 anos e se deparou com o Zezinho Lima antes da Lava Jato, conheceu "outro" Zezinho.
Personagem
"Herdeiro" do diretório local de um desses partidos nanicos, o edil era (ou parecia ser) um discreto líder, educado, o qual, em troca de segundos no horário eleitoral, compunha coligações e ocupava espaços em prefeituras e governos locais desde, pelo menos, a alvorada do século XXI.
Ator
Indicado para, salvo engano os equivalentes às guardas municipais e Semobs da vida por Manoel Pioneiro em Ananindeua entre 2013 e 2020, se elegera vereador na cidade naquele ano e, em 2024, já o cowboy contemporâneo do asfalto em que se transformou o novo devoto de Jair Bolsonaro, ser eleito na capital para este atual mandato.
Bolsonaro, o “homem que acordou a ‘Direita’ no Brasil”, definição da qual, ainda que discorde em 90% dos seus modos, tenha de admitir um fundo de verdade.
E basta ver a decadência eleitoral do PSDB para restar clara a evidência. O partido de intelectuais e democratas da centro-esquerda demonizada pelo PT, que herdara por inanição os votos da direita sem representação até a Lava Jato e o fenômeno eleitoral (martirizado) de 2018.
Enfim, desde que se afastou politicamente de quem lhe abriu as portas dos cargos de comando na política local, o ex-prefeito Manoel Pioneiro, Lima incorporou um personagem aguerrido, algo histriônico e caricato (além de brigador), de fala incisiva, na maioria das vezes recorrendo a palavrões e chegando ao ponto de tatuar o ex-presidente no braço.
O parlamentar, inegavelmente, vem ocupando espaços e caminhava, pelo menos até o início da guerra pública contra o principal nome político do bolsonarismo no estado, para se eleger deputado estadual em outubro.
E é exatamente aí, segundo o próprio, este crescimento
político-eleitoral, a raiz do ódio contra ele de Éder Mauro e do vereador Mayky Vilaça, pupilo da turma do deputado.
Segundo Zezinho, o chefe do clã Barra quer
monopolizar para si, família e aliados, os destinos, cargos e votos
do campo da direita no estado, escanteando, tramando e afastando quem
não seria do seu grupo.
Acusações do “laranja”
Lucas Rêgo, assessor do
vereador Mayky Vilaça, seria o “laranja”, de acordo com o
conteúdo disponível no pendrive entregue por Lima na sede da PF
aqui e da PGR em Brasília, que recebia os recursos desviados das
emendas de Éder Mauro cuja destinação seria a saúde estadual.
Em mais de uma oportunidade, o vereador apresentou cópias
de transferências por pix e comprovantes de saldos em duas contas
correntes em nome do assessor onde estariam depositados cerca de 1,5
milhão de reais desviados.
Consequências
Em situação extremamente desgastante,
decerto o ataque mais agressivo que sofrera desde que trocara a
Polícia Civil pela política e o enfrentamento contra o crime nas
ruas, pelos debates acalorados em Brasília, Éder Mauro primeiro
reagiu calma e friamente.
Praticamente, ele repetiu o
mantra bolsonarista “Deus, pátria, família e liberdade”, para,
em seguida, neste sábado, 25, após idas e vindas do assessor de
Vilaça, se referir a Lima e ao atual presidente da Câmara de
Vereadores de Belém (CMB) John Wayne, como “duas cachorrinhas”.
Com efeito, é óbvio que o desgaste foi tremendo e terá
consequências políticas e pessoais.
Some-se a isso o
constrangimento geral e irrestrito aqui (e alhures) em um grupo
político - verdadeiro saco de gatos -, marcado pela única lógica
que une os Barras a Daniel Santos, Arnaldo Jordy e Zequinha Marinho:
derrotar o MDB, de quem praticamente todos já foram “aliados”.
Riso frouxo
Para gáudio do campo governista,
a confusão está armada. Convém não subestimar a satisfação
pessoal do senador Zequinha com o desgaste de Mauro, com quem deve
travar uma disputa renhida por uma vaga na Câmara Alta, bem como dos
outros candidatos ao Senado.
Ao lado do pastor, o
ex-governador Helder, o ex-ministro Celso Sabino e os demais
pré-candidatos a uma das duas vagas à Casa Legislativa “ganharam”
a semana e o fim das férias.
Com a escaramuça, Éder
Mauro pôde confirmar uma frase muito repetida nos corredores de
delegacias de Polícia, que ele deve conhecer muito bem: “pau que
bate em Chico, dá-lhe no Francisco”… e, no caso de Zezinho, um
porrete. De plástico.
Outros delegados
Quem
acompanha minimamente a cena política local percebe o alinhamento de
Zezinho Lima com outro delegado bolsonarista do PL, o Caveira.
A
evidência de que ele tem lado nessa briga se deu pelo simples fato
de que, parecendo ter comido abiu, não deu uma palavra sobre a
baixaria.
Diferente do presidente do partido no estado, o
moderado Joaquim Passarinho, que divulgou “Nota Oficial” falando
em “preocupação, apuração, imparcialidade e adoção de medidas
cabíveis”.
Indícios
Com efeito, o que se descortinou foi a crônica
de uma confusão anunciada. No início de novembro do ano passado, com a divulgação da inauguração da nova sede do diretório
do PL no estado, escrevi uma coluna (aqui para ler) após perceber que havia ali um racha, pois os
Barras foram para longe à época, desprestigiando o
congraçamento.
Em março deste 2026, na abertura dos
trabalhos anuais na CMB, indignado por ter sido preterido na escolha
do representante da oposição em cumprimento ao rito regimental na
sessão de leitura da mensagem do prefeito, Mayky Vilaça partiu para
cima de Lima diante dos pares, das câmeras, do prefeito e dos
cidadãos presentes nas galerias, dizendo cobras e lagartos dele.
O perrengue contou com as baixarias e truculências de
praxe entre esses políticos que saíram do armário do decoro para
se comportar como aqueles lutadores de luta livre, os
quais, entre gestos e trejeitos que transitam entre o patético e o
caricato, passando pelo histriônico e truculento, sempre deixando a
desconfiança de que jogam para a platéia e emulam o líder pelo
qual demonstram fidelidade canina: Jair Bolsonaro.
Independente
do que vem por aí, no domingo, 04 de outubro, se saberá quem se deu
bem nessa mundiçagem que pode ser traduzida em calúnias ou graves e
vergonhosos casos de roubalheira de recursos públicos.
Aguardemos
as respostas ao caso da PF e PGR.
Toni Cunha x
Chamonzinho
Delegado da Polícia Federal, o prefeito de
Marabá virou político oficialmente em 2016, quando se elegeu
vice-prefeito da cidade. Detalhe: Pelo PPS, hoje Cidadania, que um
dia fora o Partido Comunista Brasileiro, o PCB de Luís Carlos
Prestes. Sacou?
Cunha fez a migração do antigo
“Partidão” alinhado ao PC soviético para o partido da hora de
Bolsonaro. Ou seja, de “comunista ou socialista”, virara um
bolsonarista entusiasmado. Proselitismo e conversão puras e vida que
segue…
Pois nesta mesma semana, o prefeito de Marabá,
que exibe traços de educação e modos, que trata seus opositores
estaduais com o decoro que os cargos das excelências exigem, partiu
novamente para cima de seu adversário em 2024 e, no adjetivo mais
moderado para se referir a ele, o classificou e ao seu jornal de
estrumes.
Confira abaixo o que escrevera no Instagram
sobre o inimigo:
“O
estrume de deputado dono desse jornaleco nojento, que nomeou todos os
Integrantes
da saúde pública do Estado em Marabá, brinca com a vida das
pessoas. Respeite o jovem Marcos e sua família. Desafio mais uma
vez, mas não tem coragem, a mostrar onde estão suas emendas
parlamentares em 8 anos de mandato. Pare de fazer do hospital
regional de Marabá seu curral eleitoral e respeite a vida das
pessoas. Tome vergonha nessa sua cara feia.”
Agora, leia a réplica do deputado:
O
bandido transloucado (sic) volta a atacar.
Toni
Cunha, você é desocupado e preguiçoso.
Está profissional no
maior esquema de adesão de atas superfaturadas do Pará, mas não
aprende a trabalhar e cuidar do povo.
(...) larga de ser vagabundo e vai trabalhar, seu bandido!
Você
prometeu transformação, mas a única transformação que o povo de
Marabá viu, foi que escolheu um delegado e acabou elegendo um
bandido, mas talvez o delegado já era um bandido, o povo que não
sabia.
Pistas
É isso, algumas pistas do que pode vir por aí.
Tapas, pontapés, socos abaixo da linha de cintura, trocas de
acusações, ofensas e muita, muita baixaria se avizinham na disputa
mais truculenta e agressiva da seara política - policial paraense
das últimas décadas.
Pusilanimidade
Só mais
um detalhe: o vereador que colocou fogo no parquinho bolsominion é
muito assertivo na hora de acusar e xingar seus inimigos íntimos, no
caso ex-líder partidário e candidato à prefeito Éder Mauro, e sua
“quadrilha”, e adversários, mas passa pano valendo para o
político mais controverso que surgiu por essas paragens desde, pelo
menos os últimos 20 anos.
O mesmo que em 2012 declarara
uma mixaria de imposto de renda para, pouco mais de uma década
depois ser um multimilionário ostentador, dono de jatinho, bimotor,
latifúndios, mansões, coleção milionária de relógios e muita
acusação de roubalheira endêmica: o nacional Daniel Santos.
“Vereador, o que o senhor diz sobre os milhões - e bote milhões nisso -, do ex-alcaide?"
Diga aí, “doa a quem doer”.
