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Esperança e muita fé

Por certo, aquelas pedras de mármore italiano já recepcionaram joelhos mais crentes e devotos que os meus, quanto a isso, não resta dúvida. Ainda assim, durante todo esse amanhecer que chamo de vida e que já dura quase trinta e três anos ali me ajoelhei. Nem sempre, confesso, com fé. Muitas vezes meus olhos desesperados apenas fitavam a pequena e gigantesca imagem e pediam socorro. Este pobre egoísta privilegiado a quem nunca faltou nada, enchia os ouvidos daquela mulher judia que com firmeza carrega seu santo filho, com suas incompreensões. Ela como boa mãe, sempre atendia.


Ainda criança os pedidos eram os mais banais e prosaicos possíveis. Um novo jogo, mais habilidade com a bola nos pés, uma escola melhor. Com o avançar da idade e as contingencias da vida os pedidos foram adotando tons mais graves. Aprovações em testes acadêmicos, saúde para a família, paz, prosperidade profissional e corriqueiramente muitos agradecimentos. Nos centenários bancos da casa daquela Sra. eu acompanhei o listão de meu vestibular, o resultado de meu exame de ordem, o desfecho de exames e diagnósticos, dentre outros momentos frugais e ordinários sempre envoltos de acalento e quietude, qualidades intrínsecas ao colo de mãe.


Em um desses colóquios, numa tarde quente daquelas que antecedem uma torrencial chuva, como só Belém conhece, me ajoelhei pela enésima vez naquele piso e debulhei ali minhas aflições. Mesmo não sendo afeito a promessas, prometi, em caso de graça alcançada, servir a igreja de forma permanente enquanto minhas pernas suportassem o fardo. A causa era das grandes, logo, a contraprestação não poderia ser banal.


Pois bem, um par de dias após selar o empenho, as ondas telefônicas me trouxeram, através de meu amigo mais próximo, o convite para servir. Coincidência? Aceitei de imediato mesmo sem ter o mínimo sinal da graça. Estava diante de um caso de pagamento antecipado. E assim, passei a dedicar numerosas horas e dias a servir aquela santa mulher, sendo essa, sem titubear, a grande honraria da minha vida.


Tudo isso, exigente leitor, nobre leitora, para lhes dizer, que tal fato me permitiu acessar caminhos da fé até então inexplorados por mim. Participar de atos litúrgicos especiais, celebrações fechadas e procissões. Me dando a outorga de examinar mais de perto as exteriorizações de fé e de crença que o povo paraense, de um modo particular, tem. E diante disso, afirmo sem assombro, que somos todos filhos de uma só mãe, que a maior expressão de fé comportada por um devoto reside em seu olhar. Fixo, profundo, emocionado e apaixonado. E que a esperança dos braços estendidos para receber a graça é o meio eleito para torna-la realidade.


Dentro em pouco, meus músculos, ossos e tendões serão triturados e esmagados para proteger essa mulher. Não dormirei por alguns dias, não saberei o que é uma boa refeição pelo mesmo período. Contudo, o farei revertido com um manto de paz e satisfação por sobre os ombros. É impossível explicar como em meio a tanta dor e sacrifício sentimos tanta alegria. E é por esse inescrutável sentimento e por todos os outros que eu sigo tendo esperança e muita fé.


Ps. A graça da promessa ainda não foi alcançada, mas graças a ela a fé só aumentou. As vezes o não é sim.


Um feliz Círio a todos. 




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Toni Remigio
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