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Em OESTADONET: Casa flutuante em Alter do Chão provoca reação de lideranças Borari, troca de acusações e ameaças nas redes sociais

A polêmica também abriu espaço para comentários de apoio à iniciativa, desde que sejam respeitadas as regras ambientais

De Santarém  


Uma casa flutuante instalada nas águas do rio Tapajós, em frente a Alter do Chão, em Santarém, no oeste do Pará, se tornou o centro de uma polêmica que envolve turismo, território indígena, preservação ambiental e, nas redes sociais, até manifestações consideradas preconceituosas e ameaçadoras.

O empreendimento, anunciado como uma opção de hospedagem para turistas, dividiu opiniões e provocou reação de lideranças do povo Borari, que questionam a instalação da estrutura e afirmam que não houve consulta às instâncias de representação reconhecidas pela comunidade.

 

A divulgação do empreendimento nas redes sociais, com a frase "Já imaginou se hospedar no meio do Rio Tapajós? Essa é a primeira casa flutuante de Alter do Chão, e eu vou te mostrar como é viver essa experiência", gerou uma série de manifestações.

Parte das lideranças indígenas defendeu a retirada da estrutura e levantou questionamentos sobre autorização, impactos ambientais e o direito de participação do povo Borari nas decisões relacionadas ao território.

 

A repercussão também abriu espaço para comentários de apoio à iniciativa, desde que sejam respeitadas as regras ambientais.

"Alter do Chão é patrimônio de todos nós. Preservar é necessário, mas transformar cada novidade em motivo para proibição também acaba tirando a liberdade e a beleza de um lugar que sempre foi acolhedor. Que haja bom senso: preservar sem impedir, organizar sem descaracterizar e permitir que todos possam desfrutar do Tapajós", escreveu um internauta.

 

Outro comentário citou a existência de estruturas semelhantes em outras cidades da região. "Em Marabá, especialmente na praia do Tucunaré, há vários flutuantes pelo rio. Tem época tambpém como agora, que qualquer um pode fazer sua barraquinha e usufruir do que é nosso. Então, parem de mesquinharia. Tem espaço para todos!", afirmou.

 

Houve ainda críticas relacionadas à ocupação urbana de Alter do Chão. "Engraçado que os prédios e mansões que tomaram as moradias dos parentes ninguém manda tirar, né?", questionou outro internauta.

 

A discussão, porém, ganhou um tom mais grave com comentários de caráter preconceituoso e manifestações consideradas ameaçadoras.

A polêmica também ganhou contornos mais graves nas redes sociais, com comentários que sugerem expulsão e até violência contra a proprietária da casa flutuante. Um perfil identificado como Romulo Arapiun escreveu: "Bora se mobilizar e expulsar logo ela do território".

Na sequência, Lidia Assunção Borari afirmou: "E tocar fogo nessa casa!", acrescentando: "Tem que derrubar o perfil dessa rapariga". 

 

Outro usuário, identificado como Kumaruwara, escreveu: "o povo Borari que tem é que tomar medidas cabíveis contra você, te expulsando do território deles. Isso sim seria honroso. Mexeu com um, mexeu com todos". 


Diante das manifestações, Weena Tikuna respondeu: "Que ódio é esse? Lamentável ver você destilando tanto ódio contra uma mulher indígena. Discordar ou criticar uma fala não dá a ninguém o direito de atacar, ameaçar ou tentar humilhar outra pessoa. Respeito deve valer para todos inclusive para uma mulher indígena", escreveu.

 

Diante da repercussão, lideranças Borari divulgaram uma nota de repúdio na qual afirmam que a identidade indígena do povo não pode ser colocada em dúvida e criticam comentários que utilizam língua, costumes ou outros critérios para determinar quem seria indígena "de verdade".

 

Em resposta às manifestações, as lideranças afirmaram:

"Repudiamos qualquer discurso que coloque em dúvida a identidade indígena do povo Borari ou utilize critérios como língua, costumes ou outros elementos para determinar quem é ou não indígena 'de verdade'." E reforçaram: "Nossa identidade não está em discussão."

 

O grupo também procurou separar o debate territorial de qualquer questionamento sobre a identidade da proprietária.

"Também reafirmamos que o questionamento ao empreendimento não é um ataque pessoal e não está relacionado à identidade étnica de sua proprietária. É um posicionamento sobre território, autonomia, consulta e direito de decisão do povo Borari sobre aquilo que acontece em nosso território."

 

As lideranças sustentam ainda que não são contrárias ao turismo ou à presença de visitantes em Alter do Chão.

"Não somos contra outros povos indígenas. Não somos contra quem visita Alter do Chão. E não somos contra o diálogo."

O ponto central, segundo elas, é a participação das instâncias representativas do povo Borari em decisões que possam afetar o território.

 

A controvérsia também envolve a chamada consulta prévia. As lideranças afirmam não reconhecer como válida a consulta que, segundo a proprietária, teria sido realizada junto ao Conselho Comunitário de Alter do Chão e sua presidência, representada por liderança Borari. Por isso, questionam quem participou do processo, em que espaço ocorreu e quem representava efetivamente o povo.

 

A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, estabelece que povos indígenas devem ser consultados, por meio de procedimentos apropriados e particularmente por suas instituições representativas, quando medidas administrativas ou legislativas possam afetá-los diretamente.

A norma também prevê que essas consultas sejam realizadas de boa-fé e com o objetivo de alcançar acordo ou consentimento. 

 

É justamente nesse ponto que as lideranças concentram parte da contestação. "Ouvir algumas pessoas não significa necessariamente consultar um povo.", afirmam.

 

A proprietária da casa flutuante, We’e’ena Tikuna, também se manifestou publicamente e contestou a versão de que não teria havido consulta.

Em publicação nas redes sociais, afirmou ser indígena, ativista e responsável pelo empreendimento e disse que a consulta ocorreu antes da instalação junto ao Conselho Comunitário de Alter do Chão e à presidência da entidade, representada por uma liderança do povo Borari.

 

"A consulta foi feita previamente ao Conselho Comunitário de Alter do Chão e à sua presidência, representada por liderança do povo Borari. A documentação foi apresentada, e a Casa Flutuante também está regularizada junto à Marinha e aos órgãos competentes.", declarou.

 

We’e’ena também criticou a forma como o empreendimento foi questionado publicamente e afirmou que seus documentos não teriam sido solicitados antes da divulgação das críticas.

"O mais preocupante é que nossa documentação não foi solicitada e os fatos não foram verificados conosco antes da publicação. Mesmo assim, foi divulgada uma informação incorreta.", afirmou, defendendo a retificação da publicação.

 

A proprietária também declarou que a estrutura já existia antes de ser adquirida por ela e que passou por adaptações para reduzir impactos ambientais. Segundo We’e’ena, a casa utiliza energia solar, possui fossa ecológica e não despeja esgoto ou resíduos diretamente no rio.

 

Ela ainda questionou se o mesmo rigor de fiscalização é aplicado a outros empreendimentos e estruturas existentes na região. "Se houver irregularidades, que todos sejam fiscalizados com o mesmo rigor.", afirmou.

 

Em outro trecho, We’e’ena defendeu que o debate seja conduzido com base em documentos e fatos.

"Se existe irregularidade, denunciem. Se existe dúvida, perguntem. Se querem os documentos, solicitem. Mas quando uma informação publicada é incorreta, o correto também é retificá-la publicamente."

 

A polêmica, portanto, permanece concentrada em três pontos principais: a regularidade do empreendimento, os possíveis impactos ambientais e, sobretudo, a legitimidade da consulta às comunidades e instâncias representativas do povo Borari.

Enquanto as lideranças defendem o direito de decidir sobre intervenções em seu território, a proprietária sustenta que possui documentação regular, que houve consulta e que a estrutura foi adaptada para reduzir impactos ambientais.

 

No meio da disputa, manifestações preconceituosas e ameaças nas redes sociais elevaram a tensão e desviaram parte do debate para ataques pessoais e questionamentos sobre identidade indígena.

As lideranças Borari afirmam que a discussão não deve ser transformada em uma disputa entre povos indígenas e resumem sua posição em uma frase:

"O povo Borari tem voz. O povo Borari tem direito de questionar. E aquilo que acontece em nosso território não pode ser decidido sem nós."






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Crédito imagens: Reprodução/Redes Sociais, via PORTAL OESTADONET

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Toni Remigio
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