Bares a que nunca fui
Há em Curitiba, no centro histórico, uma aprazível pracinha que fervilha aos finais de semana. Nela, mais para além da igreja de São Benedito, desponta um atraente e minúsculo casebre histórico de cor verde-abacate, com algumas poucas mesas na calçada onde clientes se aboletam e esbarram os cotovelos nos quadris dos garçons. Logo acima de seu charmoso telhado, uma placa cor de sangue vivo anuncia: “Bar do Ênio”. Neste bar, nunca fui. Digo, nunca fui fisicamente; apesar de ter um registro de seu frontispício em meu aparelho celular, não adentrei a bodega, sequer pude inspecionar seu balcão ou seu cardápio. Não houve tempo nem consenso com quem me acompanhava; logo, a visita ao Ênio ficou para uma próxima.
Em terras lusitanas, na cidade do Porto, há uma pequena taberna incrustada em uma confluência de duas pequenas ruas que atende pelo nome de Aduela. A birosca funciona em um prédio amarelo-cheguei, traz a listagem de seus acepipes ainda em giz e dispõe mesas e cadeiras ao largo de uma indolente oliveira (não dá para ser mais português que isso) que desafia o piso de concreto e insiste em crescer. Dentro, um histórico balcão de madeira envernizada atua como arauto para o arsenal de bebidas que desponta logo atrás, mostrando que o lugar não é para amadores. Nela também nunca fui.
Apesar de estes hospitais de almas nunca terem sido frequentados por este que vos escreve, neles desfrutei da mesma experiência. Encarei suas frentes em dias muito parecidos. Dias de folga e de muita sede, em que nuvens desinteressantes passeavam pelo céu. Ao fitá-los, vi-me entrando e sentando em alguma mesa próxima à parede, escondido — em bar novo se entra devagar, sem intenção alguma de ser visto, mas com toda intenção de ver tudo quanto for possível ver. Em observar o que sai com mais frequência da cozinha, qual garçom é o mais querido, qual bebida é a mais pedida e como o dono do estabelecimento trata seus frequentadores. Há um código a ser respeitado quando se é novo em um boteco, e este código é mundial; logo, deve ser internacionalmente respeitado. O boêmio é boêmio em qualquer lugar do globo.
E assim o respeitei quando os adentrei mentalmente. Pedi uma mesa de canto, solicitei ao atendente (uma espécie de chanceler do local) um líquido gelado para aplacar minha sede e passei a tomar notas mentais sobre o espaço: qual o público que o frequenta, a que horas chega o chato (já que sem seu chato oficial um bar não é nada), se a vizinhança local o frequenta ou não — se sim, já se tem, então, um ótimo indicativo de boa procedência. Troquei também, entre um gole e outro, uma palavra com os donos, que me contaram que herdaram de seus antepassados a missão de seguir com o negócio. Aceitei a sugestão dada por eles e pedi os tira-gostos carros-chefes das duas casas e, com eles, de fato me deliciei, rasgando elogios aos comandantes das panelas, protagonistas invariavelmente sem rosto nesse tipo de local. Fiz amizade com os frequentadores locais, ri, discuti, falei de futebol, política e religião e, ao cair do dia, como só um bebedor diurno sabe fazer, reconheci o porre e pedi a conta. Deixei aos garçons boa gorjeta e a promessa de retornar tão logo. Isto tudo durou apenas dois minutos de profundo encantamento, já que logo depois fui chamado pelo nome ou puxado pela camisa para seguir caminhando apressadamente para outros destinos, sendo forçado a voltar a mim.
Deixei estes lugares sem poder neles retornar. Dos bares a que nunca fui restaram as lembranças vívidas do pouco que deles vi. Um dia talvez, enfim, os visite, ou quem sabe serão para sempre apenas objetos de deduções em meus pensamentos. Quem sabe de uma ida a eles resulte uma grande crônica, um grande porre ou uma grande decepção — ou quem sabe, as três coisas juntas ou nenhuma delas. Por ora, apenas ergo um brinde a eles, aos bares a que nunca fui.
