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A política entre a filosofia, a ironia e a sabedoria

“O homem é um animal político por natureza,
feito para viver em sociedade.”
Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.)





A semana inicia no Pará e no Brasil em meio às definições partidárias exigidas pelo calendário e prazos eleitorais. O período, invariavelmente, é pródigo em puxadas de tapetes, traições e ardis típicos das entrelinhas e artimanhas que compõem o jogo político. 


Vez que quisesse se fundamentar em premissas da ciência política formuladas do período clássico à contemporaneidade, o texto em tela poderia citar, escolher, dezenas de autores e algumas de suas grandes obras, mas citemos apenas dois ausentes: o autor da epígrafe acima disposta, o ateniense Aristóteles, e o italiano Norberto Bobbio (1909-2004).

Mas, todavia, a ideia aqui é apenas discorrer sobre algumas constatações, “construções filosóficas, fáticas ou irônicas” de três pensadores tão autênticos quanto: o florentino Nicolau Maquiavel, o francês Voltaire e o carioca Millôr Fernandes.

Ironia, diga-se de passagem, traço recorrente nos textos do mais importante polemista da França no século XVIII e do genial e polímata Millôr desde, pelo menos, os anos 1950 e a alvorada da segunda década deste século XXI.

Raquel
Em Pernambuco, aos “45 do segundo tempo”, a governadora Raquel Lyra deu um by pass em mais um integrante das oligarquias locais: o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, o qual, ao lado do pai e irmão, fora alvo de operação da Polícia Federal em mais uma investigação sobre corrupção em fevereiro deste 2026.


De lá pra cá, o político, que fora seu adversário em 2022 e sonhava em se eleger senador, foi descartado por João Campos após a operação, se aliara a Raquel para ser preterido em favor de outro prócer do “Centrão”, o deputado Eduardo da Fonte, o “Dudu”.

Ato contínuo, a prima de Campos e não menos oligarca Marília Arraes, já planta notinhas na imprensa convidando o preterido (ou seu pai) para ocupar a 1ª suplência de sua candidatura ao Senado.

Hana
Por aqui, enquanto o PT se humilha e força a barra para conseguir emplacar a vice da atual governadora, o grupo político dela, cuja maior liderança é o agora candidato ao Senado, Helder Barbalho, permanece mudo e impávido em relação ao assunto, caminhando para a definição na undécima hora, que pode ser entre o dia 05 e a entrega da ata convencional à Justiça Eleitoral apenas no dia 15 de agosto. Como diria o Galvão, “haja coração”.

Política
De trás pra frente, cronologicamente falando, atentemo-nos ao que segue abaixo sobre a política, não sem antes um breve significado etimológico:

A palavra “política” é derivada do termo grego “politikos”, que designava os cidadãos que viviam na “polis”. “Polis”, por sua vez, era usada para se referir à cidade e também, em sentido mais abrangente, à sociedade organizada.” Ponto.

Em seu Millôr Definitivo - A Bíblia do Caos, o saudoso, eterno iconoclasta e autoproclamado “irritante Guru do Méier”, escreveu os  aforismos que seguem abaixo sobre o verbete. Confira:

Em política nada se perde e nada se transforma - tudo se corrompe.
Eu não entendo nada de política. Mas percebo todas as politicagens.
As boas intenções políticas diminuem na razão direta da aproximação do dia da posse.
Em política o que te dizem nunca é tão importante quanto o que você ouve sem querer.
Em política, basta se ter condições de repetir muito uma mentira para ela virar verdade.
Política é a mais antiga das profissões.

A prosa que segue logo adiante, ainda sobre o vocábulo, naquele livro monumental em sua originalidade e compilação do pensamento “millôriano”, e trata de Política / Ser Político, fica pra próxima. I promise.

Voltaire, seu Dicionário Filosófico e a Política

Dono de uma vasta obra, pensamento original e um profundo olhar crítico à França absolutista, cujas contradições e insatisfação crescente internas culminariam na Revolução Francesa apenas onze anos após a sua morte, François-Marie Arouet, que como Millôr, escolhera o próprio nome, no caso Voltaire, escrevera, por volta de 1764, o Dictionnaire philosophique portatif.

“Ouse pensar, meu amigo”
Naquele tempo pontificavam na Europa uma profusão de dicionários temáticos e fora também o período da elaboração da (grande) Enciclopédia francesa, com ele, Voltaire, sendo um dos seus signatários. 

Ato contínuo, ele, por sua vez, insistia em seu dever de popularizar o conhecimento, democratizar a leitura e o saber. “Induzir, levar, forçar o povo a pensar”, escrevera.

O verbete
Nas páginas do seu dicionário filosófico, se valendo de uma das marcas da sua escrita e pensamento, a ironia, acompanhe como o francês, definira “Política” na obra:

“A política do homem consiste primeiramente em procurar igualar-se aos animais, aos quais a natureza deu alimento, vestuário e habitação…”

“Como conquistar o bem-estar e colocar-se ao abrigo do mal? Nisso consiste todo o homem. Esse mal está em toda parte. (...) as doenças, a multidão de animais inimigos, tudo nos obriga a trabalhar incessantemente para afastar o mal.”

“Sozinho, nenhum homem pode se garantir contra o mal e conquistar o bem; necessita de ajuda. A sociedade, portanto, é tão antiga quanto o mundo. (...) Os homens não são como os castores e as abelhas, como o bicho-da-seda: não têm um instinto inato para lhes proporcionar o necessário.”

“É exclusivamente com gênio que são inventadas as artes que proporcionam, a longo prazo, um pouco de bem-estar, único objetivo de toda política”.

“Para desenvolver essas artes, necessita-se de auxílio, de mãos que ajudem, de mentes bastante abertas para compreender e bastante dóceis para obedecer. Antes de encontrar e reunir tudo isso, milhares de séculos se escoam na ignorância e na barbárie; milhares de tentativas abortam. Finalmente, uma arte é esboçada, e são necessários ainda milhares de séculos para aperfeiçoá-la.”


Conclusão primeira
O compilado acima pode ser resumido da seguinte forma: o melhor caminho para o desenvolvimento, para a evolução das nações livres, é por meio da política.


Maquiavel
Caminhando para o encerramento dessas mal traçadas, esta peroração se aterá agora ao capítulo XXIII de O Príncipe, no qual o autor fala de "Como se afastam os aduladores".

A obra considerada seminal da ciência política, fora escrita na alvorada do século XVI, há meio milênio, 500 anos, portanto, mas que permanece assustando pela contemporaneidade das suas premissas e constatações, atualíssímas afinal.

A política paraense atual
Até as paredes dos palácios e demais edificações que hospedam a política local sabem como Daniel Santos, o “Dr. Daniel”, chegou ao poder por essas paragens.

Tramas, trapaças, traições, falta de palavra e sentido de grupo marcam a trajetória do jovem-velho politiqueiro.

Da bajulação, falsa amizade a ambição sem limites que o fizeram ganhar a confiança do primeiro “padrinho político” que teve, o ex-prefeito Manoel Pioneiro, até disputar o governo local este ano, o ex-prefeito de Ananindeua se encaixa, com exatidão, na necessidade de identificar-se os bajuladores.


Para classificá-lo como “adulador”, não precisa de muito trabalho ou pesquisa, basta que se observem os pronunciamentos oficiais e em atos de campanha, quando o candidato opositor atual se referia a Pioneiro, Helder, et al. Bajulação perene, pura e simples. Sempre.

Agora leia abaixo:

(...) Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas, dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e de tal modo se iludem, que com dificuldade se defendem desta peste e, querendo defender-se, há o perigo de tornar-se menosprezado. Não há outro meio de guardar-se da adulação, a não ser fazendo com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade; mas, quando todos podem dizer-te a verdade, passam a faltar-te com a reverência.” 


As constatações de Nicolau Maquiavel se estendem e merecem ser lidas e, tanto melhor, acatadas. Mas fica pra próxima.

Agora, se chegamos até aqui, reflitamos juntos: por mais dissabores e decepções que a política nos traga, se quisermos o bem comum, dela não podemos nos omitir ou fugir. Não a despreze, tampouco a desdenhe, porque somente dela algum progresso pode advir.

Do contrário, a plêiade de bajuladores, embusteiros, sofistas e demais enganadores irão grassar ainda mais rápido e devastadores que ervas daninhas em jardins, campos e pastos, e ingratos e traidores que vagam por palácios, fóruns e muitos outros setores e círculos do poder.

No mais, entre a filosofia, a ironia, o sarcasmo, a aridez, a causticidade, são inequívocas a sabedoria e verdades dos nossos três pensadores: Millôr, Voltaire e Maquiavel.

Em tempo, seria maquiavélico o Daniel? Com a palavra, ex-amigos, ex-aliados e ex-admiradores.

Ah, outra coisa, como diria o francês, “ouse pensar, meu amigo”.


     



 

  







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Toni Remigio
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