A piauí 237, o Senado e Ciro Nogueira, o parlamentar cercado de sujeira
“Sem falsa modéstia, você sabe que eu me tornei um dos homens mais influentes da política nacional. Eu conheço todos os grandes empresários do nosso país. Todos.”
A
gabolice dita pelo parlamentar enrolado até o último fio de cabelo
no escândalo Master foi no último dia 13 de março - uma
sexta-feira -, a um telejornal de Teresina, capital do Piauí.
Estado
pelo qual foi eleito deputado federal por quatro mandatos entre 1994
e 2006, revela a revista cujo nome é inspirado na terra natal dele,
em reportagem assinada por Breno Pires .
Em 2010 e 2018, Ciro Nogueira, se elegeu senador da República.
Detalhe: Apoiara em ambas as eleições o PT nos âmbitos estadual e
nacional.
Faz-se necessário o detalhe, na medida em que
aquele que seria um parlamentar “de direita”, posto que fora
filiado primeiro ao PFL, partido que trocara pelo PP “casou” com a esquerda nas duas pelejas.
Ambos
nascidos da costela da ARENA, que um dia havia sido UDN, agremiação
de orientação liberal na economia, “anticomunista”, ferrenha e
histórica opositora dos regimes Vargas (PTB) e de seus aliados tipo
governo Dutra, PSD (JK) e quejandos (João Goulart). Mas isso é
outra história…
Nojeira
A dita influência
de Ciro Nogueira não deve ser subestimada, pelo menos até as
revelações do maior escândalo financeiro da história “desse
País”, e sua rede de crimes em que, se não são cúmplices,
figurões da República que vão daqueles com assento na mais alta
Corte de Justiça, ao Parlamento e o Poder Executivo Federal, têm
suas digitais em envolvimentos que passam por contratos
suspeitíssimos, sociedades ocultas, omissões, prevaricações,
desídia, favorecimentos, mimos, viagens cinematográficas, advocacia
administrativa, milhõe$$ de motivos para “sorrir” e muita, muita
nojeira envolvida.
O Senado
O Senado
Federal do Brasil nasceu dois anos após a Declaração de
Independência, por Dom Pedro I, em 1822. Em 2024, portanto,
comemorou 200 anos de instalação. Ainda que inspirado no sistema
monárquico e bicameral inglês, sua origem e função remetam ao
mais antigo deles: o romano.
O
Senado Romano é a mais remota assembleia política da Roma Antiga,
com origem nos "conselhos de anciãos" da Antiguidade
oriental (surgidos após o ano 4.000 a.C.). Era uma assembleia de
notáveis — o conselho dos pater familias (pais ou chefes
das famílias patrícias) — que provinha já dos tempos da
monarquia romana.
Rigorosamente hierarquizado,
constituía, sob a república (509–27 a.C.), a magistratura
suprema, que foi mantida sob o império (27 a.C.–476).
Etimologia
O
termo latino senātus é derivado de senex, que
significa "homem velho". Portanto, senado significa,
literalmente, "conselho de anciãos". Sua origem
possivelmente provém da estrutura tribal das comunidades do Lácio.
Essas comunidades muitas vezes incluem um conselho aristocrático de
anciãos tribais.
As famílias romanas primitivas eram
denotadas gentes (singular gens) ou clãs que eram governadas por um
patriarca, o pater. Quando essas primeiras famílias
agregaram-se para formar Roma os pater das principais gentes
foram selecionados para participar de um conselho de anciãos (o
futuro senado romano).
O Conselho de Anciãos
A
escolha da denominação "conselho de anciãos", no período
clássico do Ocidente, remete a busca pela serenidade, justiça, bem
comum, sabedoria, entre outros valores e atributos conferidos aos
idosos. Ponto.
É uma constatação lógica e elementar,
diria Sherlock Holmes. No Brasil, a sede da Câmara Alta na capital
federal ostenta um busto na parede que fica atrás da Mesa Diretora
da Casa do venerável baiano Rui Barbosa, a quem foi conferido o
título de “Patrono do Senado”.
Com o fulcro de não
ser injusto e a memória me trair, cito, além da Águia de Haia, que
tentou duas vezes, mas não levou, dois ex-presidentes, ambos
estadistas, que passaram pela Casa na segunda metade do século XX:
Juscelino Kubitschek, o JK, e Fernando Henrique Cardoso, FHC para os
íntimos.
Este último, o maestro do Plano Real e
presidente da Lei de Responsabilidade Fiscal, ainda entre nós.
Bando
de pangarés
Citar essas premissas para caminhar até a
conclusão se faz necessário em face da grandeza que é, na acepção
da palavra, chegar ao cargo máximo de uma das três instâncias mais
destacadas e relevantes da República; ser senador deveria
constituir-se em honra e posturas à altura do significado que
originou o colegiado.
A alma de Rui Barbosa, homem notável, jurista consagrado, vez que tenha vida após a morte, deve padecer de depressão sistemática ao conferir a postura dos Ciros Nogueiras que conspurcam a natureza e honorabilidade que deveria pairar naquele cenário de fausto, privilégios, prerrogativas e exclusividade.
Dentre mais de 200 milhões de patrícios, 81 ungidos, eleitos, escolhidos, deveriam merecer além do respeito dos seus compatriotas, a admiração pelo feito de estar ali onde grandes vultos da nossa História tiveram assento.
Encerro
esta peroração citando uma definição de senador baixo-clero (de
onde vem Ciro Nogueira) dita, senão em âmbito nacional, ao menos
por essas paragens amazônicas:
“O que mais se vê
em Brasília é senador pangaré”.
Com
vocês neste domingo de pós-copa para o Brasil e muita tristeza
pelas seleções que ficaram depois das frustrações de 2006, 2010,
2014, 2018, 2022 e agora, um perfil da piauí para o senador do
Piauí, o pangaré metido e gabola Ciro Sujeira, ops, Nogueira.
Viva
a PF
Só mais um detalhe: nem a revista, muito menos eu,
conseguimos entender como é que este senhor, de tanta delinquência
com a turma do Severino Cavalcanti, Mensalão e, particularmente, do
Petrolão, escapou até aqui quase incólume?
Cortes superiores, altas autoridades constituídas e “Brasília” devem saber a razão, mas o couro está comendo e o bicho, pegando.
À res publica resta (sem trocadilho, por favor), torcer pelo trabalho meticuloso da Polícia de Estado, digo, Federal do Brasil. Avante!
O amigo do crime: Por que Ciro Nogueira comparece em (quase) todos os escândalos da República – uma reportagem da _piauí 237
Naquela
entrevista que citamos no início deste texto, em que o senador Ciro
Nogueira demonstrava “se achar”, ele “falava com desembaraço,
como quem trata de um assunto trivial”, começa a matéria.
Fazia
uma semana que viera a público uma mensagem de WhatsApp na qual o
banqueiro Daniel Vorcaro, que acabara de voltar à prisão, se
referia ao senador como “um dos meus grandes amigos de vida”.
–
Não tem nenhum grande empresário nesse país que não já tenha me
procurado em Brasília, ou me convidado para eventos, ou para
palestra, ou para jantares – disse o senador.
A
mensagem, defendida com naturalidade, era clara: Ciro Nogueira não
tinha nenhuma relação especial com Vorcaro porque conhece “todos
os grandes empresários do nosso país”.
Em
defesa de sua inocência, Ciro comparava a presença em um jantar com
o uso eventual de um helicóptero, colocava tudo na embalagem
política, coisa de gente influente, e nada disso comprometia seu
comportamento ético e íntegro.
A
Emenda Master
Nem achava necessário explicar por
que apresentou uma emenda aumentando de 250 mil para 1 milhão de
reais o limite de cobertura para investidores em caso de quebra da
instituição financeira. A proposta atendia de modo tão flagrante
os interesses de Vorcaro que ganhou a jocoso apelido de “Emenda
Master”.
Antes,
em fevereiro, Ciro já exalava confiança em entrevista ao SBT News:
“Não tenho medo de (expor) essa relação porque ela
nunca foi uma relação ilícita, nunca tratei de assuntos do Banco
Master, nunca fiz gestões para encobrir algo.”
11
mil Ciros
Quando seu nome pipocou no
WhatsApp de Vorcaro, em março, recorreu a um argumento ao mesmo
tempo juvenil e cômico para negar que se tratasse dele: “Segundo o
IBGE, existem mais de 11 mil pessoas com o nome Ciro no Brasil.”
Ciro Nogueira falava com a segurança de quem adquiriu
uma posição proeminente na política nacional. Entre 2021 e 2022,
esteve no ponto mais alto de sua trajetória política.
Foi
ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro. Não é um
posto qualquer. Como definiu Bolsonaro na época em que o nomeou, era
a “alma do governo”.
Ali, fazendo as vezes de um
primeiro-ministro, Ciro tornou-se a peça que faltava para que a
banda podre do Congresso assumisse um controle até então inédito
sobre a máquina do Executivo – e uma posição privilegiada para
acomodar seus interesses heterodoxos.
A
entrevista que o senador concedeu à TV Antena 10 de Teresina em
março terminou depois de 45 minutos. Pela aparência, Ciro saiu
satisfeito com o resultado. Tinha razão.
Afinal, apesar
das suspeitas iniciais, seu nome continuava em alta na cotação para
ocupar a vaga de candidato a vice-presidente na chapa de Flávio
Bolsonaro.
A chapa Flávio-Ciro vinha ganhando certa
tração nas hostes da direita e da extrema direita – mas assim que
o mês de maio chegou, tanto o candidato a candidato a vice quanto o
próprio candidato a candidato a presidente foram atropelados, cada
um a seu modo, pelo escândalo do Master.
De
acordo com uma reportagem do Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro
enviou um áudio cobrando os 24 milhões de dólares que o banqueiro
havia prometido doar para, alegadamente, financiar a cinebiografia de
Jair Bolsonaro.
Flávio chama-o de “irmão” e, em
mensagem enviada um dia antes da primeira prisão de Vorcaro em
novembro do ano passado, afirma:
A
luz
“Estou e estarei contigo sempre, não tem
meia conversa entre a gente.” E completa: “Só preciso que me dê
uma luz.”
Pega
na mentira
A luz, no caso, é dinheiro. Na tarde
em que o caso veio a público, Flávio Bolsonaro negou que o
banqueiro financiara o filme e ainda ironizou o repórter que lhe fez
a pergunta.
Horas depois, com a divulgação do áudio,
foi obrigado a admitir o que negara, e agiu como se fosse uma
transação inofensiva – com “zero de dinheiro público”, ainda
que o Master tenha se locupletado com dinheiro público de fundos de
pensão.
No
caso de Ciro, o terremoto do Master chegou alguns dias antes.
No
dia 6 de maio, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal, autorizou uma nova operação da Polícia Federal sobre o
caso Master.
Ao analisar a relação entre Ciro Nogueira
e o banqueiro, a partir dos resultados da investigação da PF, o
ministro escreveu que havia um “arranjo funcional e instrumental
orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera
amizade”.
A piauí teve acesso às mais de sessenta
páginas que compõem o relatório da PF, onde constam datas, cenas,
viagens, fotos.
De sua leitura, emerge um universo feito de
mesadas, empresas subavaliadas, dinheiro vivo, apartamentos, cartões
de crédito, restaurantes, hotéis, jatinhos, emenda parlamentar e
férias na neve.
Um
documento do Coaf, o órgão federal que rastreia transações
financeiras, mostra que a relação de Ciro com o banqueiro é mais
antiga do que se imaginava.
Já em 2023, a empresa BRGD,
que pertence à família de Vorcaro, começou a fazer depósitos em
favor da CNLF Empreendimentos Imobiliários, batizada com as iniciais
do nome completo do senador – Ciro Nogueira Lima Filho.
Em
apenas um ano, de agosto de 2023 a agosto do ano seguinte, a BRGD
depositou 902 mil reais na empresa de Ciro, um conjunto de operações
que o Coaf considerou atípicas e a Polícia Federal suspeita que
sejam pagamentos de propina acobertados por uma suposta relação
empresarial.
Nesse
meio-tempo, em abril de 2024, o senador e o banqueiro tornaram-se
parceiros de negócios, como descreve o ministro André Mendonça em
seu relatório.
O banqueiro mandou seu primo Felipe
Cançado Vorcaro – ora em cana – estruturar a venda de 30% da
Green Investimentos para a CNLF de Ciro.
A empresa de
Ciro pagou 1 milhão de reais por uma fatia de 30% da Green que valia
13 milhões de reais. A operação, que chamou a atenção de André
Mendonça, ocorreu dentro de uma cronologia curiosíssima – como se
verá mais adiante nesta reportagem.
A
sociedade CNLF-Green era clandestina. O negócio foi celebrado em 4
de abril de 2024, por meio de um contrato de gaveta assinado pelo
primo do banqueiro e pelo irmão do senador, Raimundo Nogueira, que
só se tornaria o administrador da CNLF oito meses depois.
O
objetivo, nas palavras de André Mendonça, era contornar restrições
do acordo de acionistas da Trinity Energias Renováveis, empresa da
qual a Green participava, e “evitar a supervisão regulatória”.
Três meses depois de selar sociedade com a CNLF por 1
milhão de reais, a Green recebeu 2,4 milhões de reais em dividendos
da Trinity.
A CNLF, dada sua participação, fez jus a
cerca de 720 mil reais. Assim, em apenas três meses, Ciro recuperou
a parte principal do que havia desembolsado.
Além
da sociedade oculta, as mensagens obtidas pela Polícia Federal
revelam que o banqueiro pagava uma polpuda mesada ao senador.
Em
três mensagens de 2024 – nos dias 21 e 24 de junho e 25 de julho
–, o primo Felipe pergunta ao banqueiro se deveria continuar
pagando “300k” ao “pessoal que investiu” na BRGD – uma
referência clara a Ciro Nogueira.
Vorcaro respondeu que
sim. Em janeiro de 2025, quando Felipe reclamou que o pagamento
estava gerando dificuldades de caixa, Vorcaro foi enfático: “Tem
que enviar, muito importante.”
– Vou ver se dou um jeito
aqui – prometeu o primo, que, em seguida, mencionou pela primeira
vez que o valor havia sido aumentado e quis saber se deveria
mantê-lo. – Vai continuar os 500k, ou pode ser os 300k?
Além
da sociedade oculta e da mesada, havia o capítulo imobiliário –
ou, na linguagem dos investigadores, a “fruição de imóvel de
propriedade de Daniel Vorcaro como se fosse do próprio parlamentar”.
– Para te dar uma explicação – começa o senador. –
Eu comprei um apartamento agora para Flávia [...] para [eu] poder
voltar e devolver o [seu] apartamento. Só que ainda tem que botar
piso, essas coisas, vai demorar uns três meses. Mas, se tu precisar
aqui antes, me avisa que eu dou um jeito. Não quero abusar da tua
boa vontade, não. Tá bom, meu irmão? – encerra ele, mandando um
abraço em seguida.
– Vc tá falando do apto em SP em que já está? – pergunta o banqueiro. – Ou precisa de outro?
–
É o que eu tô – esclarece o senador, voltando a explicar o
arranjo que fez com a ex-namorada e a necessidade de obras no imóvel.
– Acho que demora uns três, quatro meses. Aí estou preocupado de
você estar precisando.
–
Relaxa com isso – tranquiliza Vorcaro.
–
❤️ – reage Ciro, que em seguida comenta. – Me avisa que eu
dou um jeito se tu precisar. Abração, meu irmão. Saudade grande de
você.
–
Irmãozão, já te falei desse apto. Zero estresse. Vamos conversar
depois.
Além
da sociedade oculta, da mesada e dos apartamentos, havia o cartão de
crédito. Na sua decisão, o ministro André Mendonça registra uma
conversa entre o banqueiro e Leo Serrano Giunchetti, operador de
logística de Vorcaro nos Estados Unidos.
Serrano
pergunta se os “meninos” deveriam continuar pagando contas dos
restaurantes do “Ciro/Flavia até sábado”. Vorcaro, mais uma
vez, confirma: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths.”
A rápida troca de mensagens, durante a qual Ciro e
Flávia estavam em outra viagem às custas do banqueiro, traz uma
revelação: Vorcaro tinha um cartão para cobrir despesas
gastronômicas do amigo.
E avisava que, na próxima parada do casal –
a Ilha de São Bartolomeu, também chamada de St. Barths, localizada
no Caribe –, a boca-livre continuaria.
Além da
sociedade oculta, da mesada, dos apartamentos e do cartão de
crédito, havia os atos de ofício do senador. De acordo com a
investigação, a “Emenda Master”, apresentada em agosto de 2024,
foi redigida pela assessoria do próprio Master.
Uma
cópia impressa foi entregue a Vorcaro, que aprovou o conteúdo,
colocou-o em um envelope endereçado a “Ciro” e entregue em mãos
na residência do senador no Lago Sul, em Brasília, com a orientação
expressa de não deixar visível o nome do banco no envelope.
Apresentada a encomenda no Congresso, Vorcaro comemorou
no WhatsApp que o texto havia saído “exatamente como mandei”.
Interlocutores do banco diziam que a medida “sextuplicaria” o
negócio do Master e causaria uma “hecatombe” no mercado.
Em
novembro de 2023, nove meses antes da “Emenda Master”, houve um
caso parecido. Vorcaro recebeu o rascunho de projetos de lei que
tratavam de transição energética e emissões de carbono, temas que
também lhe interessavam.
Depois de revisar a proposta, o
banqueiro devolveu as minutas dos projetos ao senador e fez a mesma
recomendação para que “o envelope utilizado não faça referência
ao Banco MASTER”.
Também alertou que o motorista que
fosse fazer o transporte do material não tivesse qualquer vínculo
com o parlamentar. O movimento sugere que, no escurinho do Congresso,
Ciro tentava incluir nos projetos as propostas do banqueiro.
E,
além da sociedade oculta, da mesada, dos apartamentos, do cartão de
crédito, dos atos de ofício, havia ainda o lobby em favor de
Vorcaro.
Ciro apadrinhou a indicação de Paulo Henrique
Costa – ora também em cana – para a presidência do Banco de
Brasília (BRB).
Costa, que está negociando uma delação,
fez tudo, principalmente o que não devia, para salvar o Master, a
começar pela compra de bilhões de reais em créditos podres do
banco de Vorcaro.
Antes, houve o primeiro caso público
de influência política em favor do Master na Caixa Econômica
Federal.
Se o aumento da cobertura de investimentos de
250 mil para 1 milhão fosse aprovado, o Master levaria seu esquema
de fraudes ao paroxismo, e, em vez de provocar um rombo de 50 bilhões
de reais no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), causaria um prejuízo
que, de fato, produziria uma “hecatombe”.
Entre
os multimilionários
Courchevel é uma luxuosa
estação de esqui nos Alpes franceses. Tem oito restaurantes com
estrelas Michelin e cinco hotéis com a distinção oficial Palace, a
elite da hotelaria francesa que é um nível acima das cinco
estrelas.
Ali, entre os milionários do pedaço, Ciro
Nogueira e Flávia Rosalen passaram treze dias, de 12 a 25 de janeiro
de 2025, com as despesas generosamente bancadas por Daniel Vorcaro,
que participou da viagem ao lado de Martha Graeff, sua noiva na
época.
O custo total da viagem foi uma exorbitância:
bateu em quase 2 milhões de reais. Em números precisos: 1 849 201
reais, segundo apurou a Polícia Federal.
No
La Soucoupe, conhecido por suas carnes, a despesa do casal bateu em
63 mil reais. No Le Tremplin, especializado em frutos do mar, a conta
passou de 58 mil reais.
Segundo a investigação da PF,
tudo, inclusive a conta dos restaurantes, saiu por conta de Vorcaro.
A cena que sintetiza a relação entre o senador e o banqueiro é a
de 21 de janeiro.
Nesse dia, com trajes próprios para a
neve, óculos escuros e sorriso largo, os dois posaram para uma foto
abraçados, como dois “grandes amigos de vida”, com as montanhas
nevadas de Courchevel ao fundo.
A certa altura, as
mensagens do banqueiro à sua noiva mostram que havia “reuniões
importantes” em Courchevel.
A piauí apurou que o
jantar aconteceu no challet de outro empresário, Alberto Leite, dono
da empresa de tecnologia fs Security, o mesmo que hospedou o senador
e o ministro Dias Toffoli, do STF, em seu camarote na final da Liga
dos Campeões da Europa.
(Um mês depois do jantar em
Courchevel, Alberto Leite comprou o fundo que tinha 16% do resort
Tayayá, aquele de Dias Toffoli.)
Courchevel
foi um ponto alto, mas não foi o único destino de viagens ao
exterior pagas pelo banqueiro.
Entre os dias 10 e 17 de
maio de 2024, Ciro esteve em Nova York para participar de um encontro
promovido pelo Lide, a empresa de eventos do ex-governador de São
Paulo, João Doria.
O senador viajou para os Estados
Unidos com Daniel Vorcaro, no jatinho do banqueiro. Neste caso, houve
um agravante, segundo informa o site do Senado: Ciro viajou para Nova
York em “missão oficial”.
Mensagens obtidas
pela Polícia Federal, às quais a piauí teve acesso, mostram que
Vorcaro pediu ao seu faz-tudo, Leo Serrano, que reservasse dois
quartos de hotel em Nova York. Quando Serrano perguntou a identidade
dos hóspedes, a resposta de Vorcaro foi objetiva:
“Ciro
Nogueira e Fábio Faria.” Faria, que implantou o canal SBT News, é
ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro. (Fábio
Faria confirmou que a reserva foi feita por Vorcaro, mas disse que
pagou o hotel do próprio bolso.)
Escândalo
Refit
Quando não viajava no jatinho do banqueiro,
Ciro viajava nas asas do dinheiro público. Em maio do ano passado,
ele participou de um evento promovido pela revista Veja em Nova York
e bancado pelo empresário Ricardo Magro, dono da antiga Refinaria de
Manguinhos e apontado como o maior sonegador individual de impostos
do Brasil.
O evento era no dia 13 de maio, mas o senador,
esticando a folga, embarcou no dia 8 e voltou dia 15. Viajou de
classe executiva, ao custo de 67 mil reais a passagem.
Cobrou
três diárias, somando mais de 11 mil reais, numa viagem que, ao
todo, custou ao Senado 78 mil reais.
Desde
que chegou à Câmara dos Deputados, em 1995, o jovem nascido em
Teresina aprendeu que a máquina pública podia servir a parentes e
amigos.
Em seu primeiro mandato, nomeou a própria mãe,
Eliane Nogueira, e seus quatro irmãos – Juliana, Raimundo,
Alessandra e Gustavo. Todos eram secretários parlamentares em seu
gabinete.
Depois, colocou o pai, Ciro Nogueira Lima, como
assessor técnico do seu gabinete de quarto-secretário da Mesa
Diretora da Câmara. Hoje, três décadas depois de sucessivos
mandatos, a família continua orbitando a estrutura política.
Sua
irmã, Alessandra, por exemplo, segue servidora comissionada na
Câmara – atualmente, no gabinete do deputado Julio Arcoverde
(PP-PI). Aparentemente, a família suga recursos públicos mais por
vício do que por precisão.
Na década de 1970, o
patriarca da família, um auditor fiscal, fundou com sua mulher a
Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis e ganhou bastante dinheiro
comprando terra barata onde a cidade ainda não chegava, esperando a
expansão urbana fazer o resto. Os negócios já então caminhavam em
paralelo com a política.
O pai foi deputado federal por
dois mandatos. Em 1994, resolveu lançar o filho, que, com nome igual
ao do pai, ganhou votos de quem achava que reconduzia o velho à
Câmara.
Aos 26 anos, Ciro filho elegeu-se na rabeira da
fila – dos dez eleitos, foi o nono mais votado.
(No
fim da década de 1990, quando ainda testava as águas da política,
Ciro presidiu o River Atlético Clube, um dos times de futebol mais
tradicionais do Piauí. Na época, começou a enfrentar aquilo que o
acompanharia a vida toda: problemas judiciais. Em sua gestão, foi
acusado de não repassar contribuições à Previdência Social. O
caso rendeu uma primeira denúncia da Procuradoria-Geral da
República, rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal, porque o débito
foi pago antes do julgamento.)
No
curso do mandato, Ciro manteve a tradição familiar de conjugar
política e negócios. Em Caxias, cidade do Maranhão, o então
deputado criou a CN Motos. Numa época em que se trocava o cavalo por
moto, o negócio deu certo, os consórcios se espalharam, o crédito
popular avançou e a revenda cresceu. Hoje, com mais de uma dezena de
filiais, a CN Motos tem capital social de 20 milhões de reais.
Ao
mesmo tempo, Ciro estreitou relações com Julio Arcoverde, o
deputado que hoje emprega a irmã do senador. Os dois eram sócios em
três empresas – duas agenciadoras de seguros e uma charutaria.
Raimundo, o irmão de Ciro e dono do shopping. (Até o
fechamento desta reportagem, Raimundo usava tornozeleira eletrônica
em razão do seu envolvimento no escândalo do Master. Seu celular,
bem como o do senador, foi apreendido pela Polícia Federal. Nenhum
dos dois aparelhos foi examinado ainda.)
Astuto
Ciro
Nogueira jamais se destacou pela oratória, jamais fez um discurso
memorável, não é um formulador de ideias, nem um líder que
arrasta as massas, mas é um político astuto.
Desde que
chegou a Brasília em 1995, apoiou todos os presidentes – FHC,
Lula, Dilma, Temer e, claro, Jair Bolsonaro, com quem anda de braços
dados até hoje.
No início dos anos 2000, quando trocou
o PFL pelo PP e começou a cumprir seu terceiro mandato de deputado,
Ciro passou a demonstrar suas habilidades políticas.
Em
2005, articulou com sucesso o que parecia uma missão inatingível:
eleger para o comando da Câmara o deputado Severino Cavalcanti
(PP-PE), um político do baixo clero que oscilava entre o folclórico
e o cômico – e que caiu da presidência, sete meses depois, porque
achacava o empresário que ganhara a licitação para manter o
restaurante da Casa.
A
habilidade de Ciro era inata. Na adolescência, quando morava em
Brasília, no apartamento funcional do pai deputado, dirigia um
Escort xr3 preto, um carrão na época, e transitava entre várias
turmas.
Até no colégio Leonardo da Vinci, na Asa Sul de
Brasília, circulava entre os alunos dedicados da primeira fila e a
turma do fundão.
Na Câmara, conservou o padrão.
Tornou-se popular entre o baixo clero. Conversava com todo mundo,
sobretudo os deputados que os líderes desprezavam. Gentil e
festeiro, era o rei da resenha.
Era o deputado do
corredor, do cafezinho, até do futebol com os jornalistas que
cobriam o Congresso.
Quando
Severino Cavalcanti renunciou ao mandato, Ciro aproveitou o vácuo e
lançou-se à presidência da Câmara.
Se ajudou um
deputado inexpressivo a chegar lá, por que não poderia ele mesmo
sentar na cadeira de presidente?
Outro deputado, que
vivia isolado na galeria dos folclóricos, apoiou sua candidatura.
Era Jair Bolsonaro. Ciro perdeu a disputa.
Obteve apenas
76 votos, mas saiu maior do que entrou. Enquanto protegia seus
parentes em cargos públicos, ampliava sua rede de contatos
políticos, sempre atuando nos bastidores e combinando fisiologismo
com governismo.
Acomodado
no PP, Ciro não demorou a entender que quem dominasse a bancada do
partido na Câmara dominaria o próprio partido.
A velha
guarda do PP ainda tinha nomes tradicionais – Paulo Maluf,
Francisco Dornelles, Mário Negromonte –, mas a força real
começava a migrar para um grupo nordestino mais jovem, mais
articulado e mais faminto, reunindo Arthur Lira, de Alagoas,
Aguinaldo Ribeiro, da Paraíba, Eduardo da Fonte, de Pernambuco, e o
próprio Ciro, do Piauí.
O
Quadrilhão do PP
Em 2012, em uma reunião à
beira da churrasqueira de uma casa na Barra da Tijuca, no Rio de
Janeiro, a turma faminta comunicou que, daquele momento em diante, a
propina era com eles.
Os delatores confirmaram que a
reunião contou com a presença de Ciro, Arthur Lira, Eduardo da
Fonte e Aguinaldo Ribeiro, além do próprio Paulo Roberto Costa.
Youssef fora excluído porque vinha atrasando a propina.
Em seu lugar, entrou o anfitrião do encontro, Henry Hoyer de
Carvalho.
Estava montado o que ficou conhecido como
“quadrilhão do PP”. (Neste caso, Ciro e seus comparsas
tornaram-se réus no STF, mas o caso acabou arquivado depois que
Kassio Nunes Marques, por indicação de Bolsonaro, assumiu a cadeira
do ex-ministro Celso de Mello.)
Em
2013, a Petrobras deixou de ser o único alvo de assalto do PP. Ciro
bateu na porta das empreiteiras que trabalhavam com a estatal. Em sua
delação, o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia,
contou que Ciro o procurou pedindo 2 milhões de reais em dinheiro
vivo para ajudar com as despesas médicas de um parente que estava
internado em São Paulo.
Ciro, segundo Pessoa, prometeu
retribuir dizendo ao empresário que ele “não iria se arrepender”.
A contrapartida poderia vir em obras do Ministério das
Cidades ou no Piauí. O empreiteiro resolveu pagar.
A
primeira parte, 1,4 milhão de reais, foi entregue na residência do
senador em Brasília. A outra, 475 mil, saiu por meio de um contrato
de fachada com um escritório de advocacia.
Com a
deflagração da Operação Lava Jato, o restante não chegou a ser
pago. Ciro foi denunciado ao STF, mas a corte recusou a denúncia por
3 votos a 1 por falta de provas.
Em
2016, nada menos que 77 executivos da Odebrecht compuseram à época
a chamada “delação do fim do mundo” e alguns deles contaram que
Ciro recebeu 7,3 milhões da empreiteira, em cujas planilhas era
identificado com os três codinomes diferentes – “Cerrado”,
“Pequi” ou “Helicóptero”.
A certeza de
impunidade era tal que um executivo esteve no gabinete do senador
para avisar que parte do dinheiro já estava disponível. Ali mesmo,
nas dependências do Congresso Nacional, a senha de retirada foi
transmitida a um assessor do senador.
Os pagamentos da
propina – feitos em catorze parcelas – chegaram a envolver, além
de um assessor, um doleiro e, pelo menos numa oportunidade, um
carro-forte.
Neste caso, Ciro também foi denunciado ao
Supremo, mas, depois de um cavalo de pau da PGR, que retirou as
acusações, a denúncia acabou rejeitada pelo STF. Assim, o senador
nem sequer se tornou réu.
Em
paralelo ao petrolão, Ciro abriu um novo capítulo como “homem
influente” que conhece “todos os grandes empresários deste
país”. Bateu na porta dos irmãos Wesley e Joesley Batista, os
bilionários donos da J&F.
Segundo a delação de
Ricardo Saud, lobista da J&F, o grupo dos Batista pagou 42,8
milhões de reais para que o PP apoiasse a reeleição de Dilma
Rousseff em 2014.
O fato é que, de início, Ciro cobrou
20 milhões de reais pelo apoio do PP, mas a fatura final chegou a
mais do que o dobro disso. Precisamente 42 879 909,45 reais.
Com
tanto dinheiro voando, Ciro resolveu cobrar pela intermediação do
negócio e, segundo a Polícia Federal, abocanhou 5 milhões de
reais. A grana fazia uma escala no caixa de uma rede de supermercados
no Piauí, a Comercial Carvalho.
A operação funcionava
assim: a JBS, empresa dos irmãos Batista, quitava as faturas de
compra de carne bovina do supermercado e, em troca do favor, o dono
da rede, Reginaldo Carvalho, autorizava que o supermercado liberasse
dinheiro vivo, que era retirado por Gustavo Nogueira, irmão do
senador.
Era um trabalho manual: Gustavo ia ao mercado,
recebia o dinheiro, conferia os maços e guardava tudo dentro de uma
mochila. Repetiu a operação ao longo de 29 dias. A última retirada
da propina aconteceu no dia 14 de novembro de 2014.
Tudo
isso foi fartamente comprovado – por meio de documentos e de
delações. Havia anotação nas planilhas da J&F sob a rubrica
“PP ciro – 5.000.000,00”.
Um contador da J&F
registrou os repasses, um a um, em planilhas da empresa. Um delator
da J&F confirmou tudo e contou que o dinheiro era repassado ao
senador por Reginaldo Carvalho, o dono da rede de supermercados.
Restava uma dúvida: como o dinheiro era incorporado ao
patrimônio de Ciro ou de sua família?
Aí entrava em
cena, de acordo com a investigação policial, o irmão Raimundo. A
família precisava saldar os tributos estaduais do processo de
inventário do pai, falecido em 2013.
Raimundo usou pelo
menos uma parte da propina para pagar os tributos em espécie ao
governo do Piauí.
O pagamento ocorreu no dia 30 de
outubro, exatamente no período em que Gustavo vinha fazendo os
saques no supermercado.
Quando foi convocado pela Receita
Federal para se explicar, Raimundo não conseguiu comprovar a origem
lícita do dinheiro. Com isso, os investigadores fecharam o
circuito.
Em 2022, quando era ministro da Casa Civil de
Bolsonaro, Ciro foi indiciado pela Polícia Federal sob acusação de
receber propina da J&F.
Mas o procurador-geral
Augusto Aras, indicado ao posto por Bolsonaro, achou que não
bastavam o relato dos delatores, as planilhas, os saques, a mochila,
a entrega do dinheiro, o pagamento de imposto e a coincidência de
datas – faltava a prova de que os 5 milhões haviam efetivamente
chegado às mãos de Ciro.
E o senador, então, livrou-se
de qualquer acusação. O caso, no entanto, não morreu logo.
Como
a Receita e a PF comprovaram a logística das entregas do dinheiro, o
processo sobre a conduta de Gustavo, irmão de Ciro, foi para a
primeira instância.
Ciro tinha razões para considerar
que saíra intacto dos acertos propineiros, mas, no ano seguinte,
Joesley Batista visitou-o com um discreto gravador no bolso e avisou
o senador que, enfim, aqueles 8 milhões prometidos para adiar a
reunião finalmente começariam a ser pagos. Gravou-se o seguinte
diálogo:
–
Agora vai dar pra começar. Vamos fazer de 500 em 500 – disse
Joesley.
– De 500 em 500? – quis certificar-se o senador.
– Pá, pá, pá – disse Joesley, marcando o ritmo dos pagamentos
– Mas não tem sangria, não – tranquilizou o senador.
A
promessa, segundo Joesley, foi apenas parcialmente cumprida, já que
os executivos da J&F entraram numa negociação para fazer uma
delação – na qual, aliás, os delatores tentaram proteger Ciro,
conforme mostram áudios obtidos pela Polícia Federal na época.
“Se não precisa entregar o Ciro é o melhor”, diz um
dos delatores. Em razão desse áudio, a delação da J&F quase
caiu por terra, mas acabou de pé.
Tudo
somado, os delatores acusam Ciro de receber cerca de 15 milhões de
reais em propinas diretas, sem contar os valores destinados à cúpula
do PP.
Entre 2015 e 2020, a Procuradoria Geral da
República apresentou quatro denúncias contra o senador, todas elas
rejeitadas pelo Supremo. Em outros dois casos, nem houve denúncia,
por falta de provas.
Assim, Ciro nunca virou réu, nunca
foi condenado, nunca foi preso. Sua ficha policial ainda está
oficialmente limpa, mas sua biografia é outra coisa.
De
fascista a “05”
Na campanha eleitoral de 2018,
Ciro Nogueira tinha uma posição política inequívoca. Dizia que
Jair Bolsonaro, o então candidato do PSL, era “fascista”,
“preconceituoso” e incapaz de governar, e elogiava Lula, que
havia sido, segundo ele, “o melhor presidente” do país,
sobretudo para o Nordeste.
Anunciou apoio à candidatura
presidencial de Fernando Haddad e do petista Wellington Dias, que
concorria ao governo do Piauí. Prometia lealdade a Lula “até o
final”.
O
final aconteceu em julho de 2021, quando Flávio Bolsonaro, a pedido
do pai, sondou Ciro para assumir o comando da Casa Civil.
Ciro
estava no México. Aceitou na hora. No dia 4 de agosto, numa
solenidade no Palácio do Planalto em que usou máscara em razão da
pandemia, assinou seu termo de posse e tomou conta da “alma do
governo”.
Em seu discurso, afirmou: “Eu quero
contribuir tal qual um amortecedor, que pode estabilizar, diminuir as
tensões, ajudar para que esta viagem seja mais serena, estável e
confortável para todos. Meu nome é temperança, meu sobrenome tem
de ser equilíbrio.”
Entre
os colegas, ganhou o apelido de “tesoureiro” da CPI, pois
carregava embaixo do braço as propostas governistas. Afinal, era um
chefe partidário e tinha votos para entregar.
No
Planalto, era chamado de “Zero Cinco”.
Quando
assumiu a Casa Civil, fiel à sua trajetória de príncipe do baixo
clero a primeiro-ministro de Bolsonaro, Ciro fez jus à turma
faminta.
Uma semana depois da posse, já se sentia em
casa, fazendo churrasco com Tarcísio de Freitas e Fábio Faria,
então ministros, e com o presidente do Banco Central, Roberto Campos
Neto.
Avançou sobre as atribuições do Executivo a
golpes de picareta.
Assumiu a articulação com o
Congresso, a distribuição de cargos, a gestão do orçamento e de
emendas do orçamento secreto, o controle de agendas decisivas e a
interlocução com setores econômicos que dependem de decisões
públicas. E abocanhou cargos e cargos e cargos.
Além
dos postos que já tinha – no FNDE, na Codevasf, na Saúde, no Cade
–, Ciro ampliou sua influência no Dnocs, órgão que cuida de
obras contra a seca. Ali, antes de virar ministro, havia instalado
Fernando Marcondes de Araújo Leão.
Na Casa Civil e na
Secretaria de Governo, Ciro escalou assessores experientes para
organizar uma área sensível e bilionária: o fluxo das emendas
parlamentares.
Quem liderava o grupo de auxiliares era o
mesmo Jônathas Castro – que hoje opera como lobista da Refit, a
refinaria do empresário Ricardo Magro.
Com sua ascensão,
Ciro acabou radicalizando um movimento cujo impacto perdura até
hoje: o eixo de gravidade do poder migrou do Palácio do Planalto
para dentro do Congresso Nacional.
Assim,
a fauna que batia nos gabinetes parlamentares deixou de ser formada
apenas pelas grandes empreiteiras da Lava Jato, os perdigueiros de
polpudos contratos com estatais, os doleiros com malas de dinheiro
vivo.
De 2021 em diante, setores econômicos altamente
dependentes de decisões políticas – bancos médios, fintechs,
empresas de combustíveis, apostas online, fundos de investimento,
previdência – também passaram a recorrer ao Congresso, mais do
que ao Executivo, para moldar as regras do jogo. Ciro, o
“amortecedor”, jogava nas duas pontas. E jogava um bolão.
No
auge do seu poder, Ciro Nogueira conquistou o espaço que lhe
permitiu fazer aquela afirmação à emissora do Piauí: “Não tem
nenhum grande empresário nesse país que não já tenha me
procurado.”
Na verdade, ele não foi procurado por
todos os homens de negócios, mas por homens com um certo tipo de
negócios.
Daniel Vorcaro, o artífice do que talvez seja
a maior fraude bancária da história do país, é um caso exemplar.
Ricardo Magro, o maior sonegador do país, é outro.
“O
caso de Ciro é especial. Ele é um amigo que eu tenho fora da
política”, disse Magro, certa vez, em uma entrevista concedida ao
jornal Folha de S.Paulo.
Magro
é dono da Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos, investigada sob a
suspeita de ser uma refinaria que não refina nada. Ou melhor: “O
que ele refina mesmo é imposto”, como diz um analisa do mercado.
Desde o dia 15 de maio passado, Magro é alvo de um
mandado de prisão por sonegação e fraude. Como mora há anos nos
Estados Unidos, seu nome foi colocado na lista vermelha da Interpol.
Em 2024, Ciro apresentou duas emendas ao projeto de lei
que dificultava a punição do chamado devedor contumaz – o que
beneficiava diretamente Ricardo Magro em razão de sua sistemática
prática de sonegação.
Era a “Emenda Refit”, tática
de retribuição que Ciro repetiria mais tarde com a “Emenda
Master”. E a “Emenda Refit”, igualmente, se deu numa cronologia
curiosíssima, que também será detalhada adiante.
Ainda
no setor de combustíveis, dois empresários explosivos, hoje
foragidos da polícia, tentaram aproximar-se de Ciro Nogueira. Eram
Roberto Leme, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o
Primo.
Versados em fraudes com combustíveis e suspeitos
até de lavar dinheiro para o PCC, a maior organização criminosa do
país, os dois compraram os postos da rede HD, em Teresina.
Um
intermediário da negociação era Victor Linhares de Paiva,
ex-assessor de Ciro. Mensagens de WhatsApp obtidas pela polícia e já
reveladas pela piauí indicam o envolvimento do senador.
Ciro
Nogueira é um homem abastado, mas sua matemática é pobre. De
acordo com o Coaf, o senador declara uma renda líquida de 29,7 mil
reais mensais, como pessoa física.
Mas, apenas no
primeiro semestre de 2024, somando dividendos e remunerações
societárias, sua conta pessoal recebeu 1,3 milhão de reais e
registrou 1 milhão em débitos.
Levando em conta esses
valores, o Coaf calculou que Ciro recebeu 215 mil reais mensais, em
média. Entre os créditos do senador, pelo menos um é considerado
“inusitado” pelo Coaf.
São duas transferências
feitas pela CN Motos, empresa do próprio Ciro, para sua conta
pessoal, no valor total de 600 mil reais. Seu patrimônio financeiro,
no entanto, é muito superior a isso.
Dados das Juntas
Comerciais do Piauí e do Maranhão, obtidos pela piauí, mostram que
Ciro tem direito a receber 50 milhões de reais de três empresas nos
próximos três anos.
A CN Motos, cujo capital social é
de 20 milhões de reais, vai distribuir 32 milhões de reais aos seus
donos – quase tudo, 30 milhões, para Ciro.
A empresa
só passou a ser propriedade de Ciro em setembro passado – e, com
tão pouco tempo como dono no papel, ele já faz jus a uma fortuna.
O desenho da operação reforça as suspeitas dos
investigadores de que a família funciona como uma rede de laranjas
para blindar o patrimônio do senador.
Com
tanto dinheiro no banco, Ciro comprou uma cobertura tríplex de 514
m2 numa das ruas mais chiques de São Paulo, a Oscar Freire. Pagou 22
milhões de reais.
A aquisição, revelada pelo site
Metrópoles, ocorreu em julho de 2024 por meio da CNLF – e aqui
entram aquelas cronologias curiosíssimas mencionadas antes nesta
reportagem.
E um último detalhe: em agosto de 2024, um
mês depois da compra da cobertura paulistana, Ciro apresentou a
“Emenda Master”, aquela que Vorcaro comemorou que “saiu
exatamente como eu mandei”.
Se
a cronologia sugere que o senador pode ter sido pago para apresentar
a “Emenda Master”, outra cronologia carrega a mesma suspeita.
A
Polícia Federal descobriu que, menos de dois meses depois de
apresentar a “Emenda Refit”, que aliviava a barra de um devedor
contumaz como Ricardo Magro, Ciro aparecia na contabilidade de uma
empresa de Magro com um crédito de 14,2 milhões de reais a receber.
Um cruzamento realizado pela piauí mostra que Raimundo
está associado a quatro imóveis rurais em Teresina, nas
proximidades da BR-316, inclusive a terra adquirida por Magro.
A
PF investiga se era um negócio imobiliário regular ou uma propina
destinada ao irmão, mas paga em troca de serviços parlamentares do
senador.
A suspeita, além da mecânica da operação,
baseia-se no fato de que o terreno à venda tem vegetação nativa,
fica muito longe do centro de Teresina, localização imprópria para
a construção de uma distribuidora. Procurado para explicar o
negócio, Magro não quis dar entrevista.
A
“Emenda Master”, assim como a “Emenda Refit”, não foi
aprovada. As duas tratavam de bilhões e bilhões de reais.
A
emenda que beneficiava o Master permitiria ampliar muito mais o rombo
que o FGC sofreu com a pirâmide financeira montada pelo banco de
Vorcaro.
Já a emenda Refit tratava de favorecer um
empresário que deve, como pessoa física e pessoa jurídica, 52
bilhões de reais.
Os números mostram o universo
estratosférico – mais de 100 bilhões, na soma dos dois exemplos –
em que o senador Ciro Nogueira vinha atuando.
E,
apesar dos milhões para cá e milhões para lá, o senador tem um
hábito de terceirizar suas despesas – e, de vez em quando, até
ganha dinheiro sem razão aparente.
No mesmo ano de 2024,
ainda segundo o documento do Coaf, a conta pessoal de Ciro
simplesmente ganhou um dinheiro. Recebeu 25,8 mil reais enviados por
uma tal de Acqualina Management LLC, dos Estados Unidos.
A
operação foi registrada como “doação ou transferência sem
contrapartida”. Como ninguém sai distribuindo dinheiro à toa, a
operação chamou a atenção do Coaf pela ausência de
justificativa.
O relatório identifica a Acqualina como
uma empresa ligada a um resort de luxo em Miami Beach, no qual, por
coincidência, Vorcaro era dono de uma cobertura. O caso foi revelado
pelo portal g1, mas Ciro não apresentou nenhuma explicação para a
transação.
A
piauí pediu entrevista com o senador para que explicasse seus
negócios, mas Ciro não quis se manifestar.
A revista
então mandou uma lista de sessenta perguntas, caso o senador se
dispusesse a mandar respostas por escrito.
As perguntas
descreviam cada um dos assuntos abordados nesta reportagem e pedia
esclarecimentos. O senador não respondeu nenhuma delas.
Depois
que a operação policial apreendeu seu celular e colocou uma
tornozeleira na canela de seu irmão, Ciro Nogueira, pela primeira
vez, parece ter sentido o golpe. No mesmo dia, seus advogados
lançaram uma nota repudiando as “ilações de ilicitude”.
Afirma que está sendo perseguido agora, exatamente como
foi às vésperas da eleição de 2018, porque é líder da oposição.
Mas não diz que, em 2018, a tal perseguição aconteceu
durante o governo de Michel Temer, que o senador apoiou desde a
primeira hora.
Afirma que a investigação na época
acabou não dando em nada, tanto que a Procuradoria-Geral da
República disse que não encontrara “indícios mínimos” de
crime – o que é verdade.
Mas não diz que a PGR era
então comandada por dois amigos do bolsonarismo, o procurador
Augusto Aras e a vice-procuradora Lindôra Araújo, que, aliás,
assinou o parecer que isentou Ciro.
Na
parte que mais chama a atenção do vídeo, Ciro tentou atribuir o
escândalo do Master à falta de fiscalização do Banco Central e ao
presidente da República, que indica seus diretores.
Não
deixa de ter razão, mas escondeu a cronologia. O caso Master nasceu
e cresceu exatamente durante o governo em que ele atuava como
poderoso ministro da Casa Civil.
Enquanto a presidência
do BC esteve sob o comando de Ilan Goldfajn, indicado por Temer, o
Master jamais recebeu aval para atuar. Só conseguiu fazê-lo no
período de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro.
Em
março, mês daquela entrevista em que demonstrava Ciro Nogueira fez
uma promessa:
“Se surgir algum dia na vida alguma denúncia
que seja comprovada, eu, enquanto senador Ciro, renuncio ao meu
mandato.”
Terremoto
No
dia 7 de maio, deu-se o terremoto. Apareceram a mesada de 300 a 500
mil reais, a sociedade oculta com Vorcaro, os favores imobiliários,
as viagens, as farras gastronômicas, a encomenda da “Emenda
Master”.
Até o fechamento desta edição, Ciro
Nogueira continuava senador.
