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A Copa além das telas

A Copa chegou ao fim deixando saudade para quem andou abduzido pelo planeta Bola nos últimos tempos. Ao longo de 39 dias, tivemos heróis improváveis como Vozinha, nos encantamos por uma ilha africana que fala português, e vivemos paixões fulgazes até por carrascos que jorraram carisma, como o norueguês Haaland.

Pensei muito sobre quem escrever neste texto. Como uma apaixonada por cães, poderia ter escolhido derramar letras  sobre Ferran Torres, o herói do título espanhol. Afinal, ele é embaixador de uma organização dedicada ao resgate de cães abandonados. Adotou duas cachorrinhas e usou sua visibilidade para conscientizar as pessoas sobre a importância da adoção. Pra mim, quem faz isso já conquistou uma Copa do Mundo como ser-humano, muito antes de a bola rolar.

Poderia, ainda, escrever sobre Rodri. Consolidado como o cérebro da Espanha campeã, ele ditou o ritmo e a consistência tática da equipe, garantindo o prêmio de melhor jogador do torneio. E na foto oficial do título, foi gigante ao esperar o oportunista Trump sair de cena para levantar o troféu e garantir o momento genuíno dos campeões mundiais.

Mas o final dessa Copa me deixou atônita diante de tantas emoções e informações.  Quem escolher para ser meu “Personagem da Semana”, como escrevia meu deus literário, Nelson Rodrigues. Todas as equipes estreantes fizeram gol, a cada rodada surgia um jogador de destaque, um novo meme para nos fazer rir. Uma parafernália de sensações proporcionadas pelo mundo digital. 

Ainda assim, diante de um bombardeio de vídeos e opiniões na maior Copa da história, eu senti falta do tempo das Copas analógicas.  Quando se passava menos ou nenhum tempo segurando um celular, o futebol e seus personagens pareciam mais próximos. Eu tinha muito mais inspiração pra escrever quando tinha tempo de contemplar a vida real. Ouvir a discussão sobre os jogos na padaria da esquina sem ficar hipnotizado por uma tela na palma da mão.

Escrevo estas linhas minutos depois de chegar de um dia exaustivo de trabalho. No ônibus, a caminho de casa, me obriguei a ficar longe do indefectível celular. Ao meu lado, sentou-se um rapaz, com a camisa da Espanha. Começou a assobiar “Wonderwall”, a canção da banda britânica Oasis, que virou quase um hino da Seleção da Inglaterra, cantada de forma épica pela torcida nas arquibancadas. Ele  parece ter me reconhecido enquanto jornalista esportiva e trocamos sorrisos. Ali não existia nada além de uma cumplicidade mágica, proporcionada pela paixão ao futebol. Certeza de que, assim como eu, ele era mais um sedento de saudades das emoções da Copa. Mas que naquele momento, ele redescobria um prazer genuíno. De compartilhar sentimentos ao contemplar a vida longe das telas de um celular.




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Toni Remigio
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