Escândalos em Mãe do Rio: denúncia feita ao MPPA afirma que 1ª dama seria “fantasma” na Alepa.
Carolina Rabelo é lotada no gabinete da deputada Ana Cunha. Coincidência ou não, ela foi vista na sede do Parlamento estadual um dia após a PF ter feito uma batida policial no local.
A população adulta do simpático município de Mãe do Rio, localizado a cerca de 250 quilômetros de Belém, tem vivido um misto de dias de revolta em contraste com uma certa “anestesia geral” que atinge parte da sua comunidade diligente e trabalhadora.
Na cidade, em outubro é realizada a tradicional festa da vaquejada e de rodeios. Um ano antes, todavia, o atual prefeito Bruno Rabelo foi eleito em condições pra lá de polêmicas e fartas denúncias foram feitas sobre compra de votos e outros males usuais de práticas nefastas da política nacional.
Carolina, a ubíqua
No Dicionário Oxford Languages existem duas definições para o vocábulo ubiquidade: a primeira seria o “fato de estar ou existir concomitantemente em todos os lugares, pessoas, coisas”.
Há ainda a definição teológica, quando o ser ou entidade espiritual é dotada da “faculdade divina de estar concomitantemente presente em toda parte”. Como se vê, são significados semelhantes, afinal.
Aos fatos
Em julho deste ano foi protocolada uma denúncia sobre servidora fantasma no Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), mais precisamente à Promotoria de Justiça da Defesa do Patrimônio Público e Moralidade Administrativa.
O ato gerou o procedimento “Notícia de Fato” instaurada em face da nomeação da senhora Carolina Resque Chaves Rabelo no gabinete da deputada estadual Ana Cunha, diante da “possível prática de irregularidade funcional e improbidade administrativa”, uma vez que a atual 1ª dama municipal seria, supostamente, uma servidora fantasma daquela Casa de Leis.
Domicílio
Conforme sua própria declaração de domicílio e residência e, sobretudo, da sua agenda publicada rotineiramente em suas redes sociais, a dublê de 1ª dama e assessora parlamentar mora em Mãe do Rio.
Outrossim, até a publicação desta matéria, não consta que Carolina Rabelo esteja sob o regime de teletrabalho devidamente autorizado, posto que o ato administrativo não se deu em publicação oficial.
Provas
As provas visuais e públicas apontam que ela reside e atua em Mãe do Rio, sem qualquer indício da sua presença funcional ou deslocamento regular compatível com a carga horária exigida para o cargo comissionado.
Como podem revelar os documentos anexos disponibilizados na denúncia que nos fora enviada, Carolina Rabelo é presença constante na rotina administrativa municipal, seja em campanhas de doação de sangue, entregas de material escolar, eventos sociais e campanhas públicas ou na coordenação do programa “CNH Pai d’Égua".
Suas postagens escarnecem da sociedade pagadora de impostos e até da efetividade do parquet ministerial, e as imagens nelas dispostas indicam sua dedicação à função de primeira-dama.
Vídeos
Caso não os retire em tempo hábil, as redes sociais de Carolina Rabelo mostram vídeos com declarações sobre vários desses eventos e agendas públicas.
Na última Páscoa, inclusive, foi publicado um deles durante a ação “Páscoa Solidária”, no qual ela está acompanhada da deputada Ana Cunha. Este como outros vídeos indicam o seu envolvimento integral com atividades da gestão municipal.
“Fantasminha vaidosa”
Suas atividades reforçam que não há compatibilidade prática entre a atuação como servidora comissionada da Alepa e as agendas públicas das quais participa em Mãe do Rio. “Inclusive, na cidade, muita gente se refere a ela como a ‘Fantasminha vaidosa’".
O epíteto se dá, revela denunciante por e-mail ao site O Amazônico, “em razão das intensas aparições se achando melhor que todos, exibindo roupas e bolsas de grifes e esnobando a pobre população que é carente”.
“As fotos que lhe envio a seguir e as filmagens postadas pela própria que estão anexas não deixam qualquer dúvida”, acrescenta a fonte.
Denúncia e provas
Segue a fonte denunciante: “Diante desses elementos comprobatórios, evidencia-se a possível prática de nomeação fictícia e recebimento indevido de remuneração pública sem o efetivo exercício da função”.
Práticas delituosas
A conduta aqui denunciada, caso confirmada, pode se enquadrar nas seguintes figuras jurídicas: improbidade administrativa, peculato, dano ao erário e violação aos princípios da Administração Pública (legalidade, moralidade e assiduidade) e enriquecimento ilícito à custa do erário.
Investigação
Diante dos fatos e provas apresentadas, a denúncia requereu ao MPPA a instauração de procedimento investigatório para apuração da eventual condição de “servidora fantasma” de Carolina Rabelo, incluindo a requisição de informações à Alepa, notadamente seu ato de nomeação e vínculo funcional; registros de frequência, ponto e relatórios de atividades; local de lotação e atribuições do cargo; comprovação de presença física no exercício do cargo ou eventual autorização de teletrabalho, esta última com parecer técnico, processo interno e publicação datadas antes da presente denúncia.
O pedido inclui ainda a averiguação de residência e atuação funcional da servidora no município de Mãe do Rio, por meio de diligências e análise de redes sociais e conteúdos públicos.
Encaminhamentos
A denúncia foi recebida pelo MPPA e virou o procedimento chamado “Notícia de Fato”, sob o número 01.2025.00024385-5. O documento foi subscrito pelo promotor de Justiça Hélio Rubens Pinho Pereira, que tomou como medida preliminar, por sua vez, o pedido de diligência junto à Alepa por meio de ofício endereçado ao procurador-geral de Justiça Alexandre Tourinho.
Confirmação
Caso confirmadas as irregularidades, a denúncia requer ainda que sejam adotadas as medidas cíveis, administrativas e criminais cabíveis, inclusive com vistas à responsabilização dos gestores envolvidos na nomeação e manutenção da servidora sem atividade funcional real.
Sem, entretanto, a denunciada deixar de devolver aos cofres públicos os valores recebidos pela Alepa sem comparecer para trabalhar, onde foi nomeada como Assessora Especial (10021), cuja remuneração é de R$ 6.728,00/mês.
Mais denúncias
Outras apurações em andamento apontam superfaturamento e ausência de licitação competitiva, prejudicando a população local. Existem também denúncias protocoladas na Promotoria de Justiça de Mãe do Rio que tratam da contratação de lava jato e compras de urnas funerárias, todas superfaturadas.
Apareceu
Após o MPPA enviar ofício à Alepa com questionamentos sobre a frequência de Carolina Rabelo ao trabalho, um dia depois da batida da Polícia Federal (PF) ao local no dia 02, a 1ª dama de Mãe do Rio postou - pela primeira vez em 2025 -, uma foto em sua rede social na sede do Parlamento estadual.
O movimento, revela a denúncia, foi interpretado como resposta ao procedimento instaurado pelo MPPA, ainda que as provas sejam “incontestáveis", reitera quem as enviou, que classifica o gesto como “uma tentativa de ludibriar o promotor de justiça”.
Ana Cunha
Eleita pela primeira vez em 2002, a deputada estadual Ana Cunha está em seu sexto mandato consecutivo. Filiada ao PSDB no primeiro mandato do então grão-tucano Simão Jatene, o que lhe abriu as portas dos seus três governos, e de quem foi, inclusive, secretária de Estado, ela esteve entre os quatro parlamentares da legenda que votaram, em 2021, pela reprovação das contas do ex-governador após a aprovação técnica pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-PA).
Mãe, madrasta ou “filha ingrata”
No caso de Cunha em relação a Jatene, Augusto dos Anjos, além de genial poeta, fora profético ao proferir que “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.
Como se percebe no caso da parlamentar que, além de ingrata e sem-cerimônia, coonesta e patrocina o escárnio da “ubíqua” Mother’s River first lady, uma vez comprovada a robusta denúncia.

